A precisão da astrologia védica e a vida atormentada pelo planeta Rahu

Sempre gostei de fazer mapa astral. É hábito desde os 16 anos, quando, às vésperas do vestibular, tinha certeza de que seria uma estrela de cinema e minha mãe insistia para que eu cursasse odontologia. Afinal de contas, defendia ela, eu era um “bicho do mato” – e um paciente de boca aberta na minha frente sem poder falar, e nós dois trancafiados sozinhos em uma saleta, seria a glória para mim.

Dois dias antes da inscrição no vestibular, descobri o telefone de um astrólogo que morava no Centro de Porto Alegre. Foi com a crença em outro plano capaz de saber da minha vida e do meu futuro muito melhor do que minha mãe que me dirigi a uma ruazinha estreita próxima à Santa Casa de Misericórdia e toquei a campainha da casa do astrólogo. “Teu futuro é a comunicação”, ele foi taxativo. “Minha mãe diz que combino mais com odontologia”, respondi. “De maneira nenhuma”, ele rebateu. “Te dou duas opções: jornalismo ou publicidade e propaganda”. Não precisou falar duas vezes.

De uns tempos para cá, troquei a astrologia tradicional pela astrologia védica. É bem diferente, a começar pelos signos. Na astrologia tradicional, sou de Sagitário; na védica, sou Dhanus. E o que é ser de Dhanus? Resumidamente, são pessoas de astral positivo que se mantêm longe de toda negatividade.

São eternas amantes da aventura e, por isso, estão sempre prontas para qualquer desafio. Também são independentes e versáteis, o que as ajuda a se adaptar facilmente a mudanças. Contudo, têm o costume de falar mais do que deveriam ou de se intrometer em assuntos alheios. Dhanus é regido por Júpiter, por isso aqueles que estão sob esse signo são tão amigáveis.

A astrologia védica é conhecida nos meios de estudos astrológicos como a forma de astrologia mais precisa de todas. Ela é utilizada para fazer previsões e descobrir pontos negativos que precisam ser trabalhados e remediados.

Um mapa astral védico completo analisa habilidades, missão, obstáculos e evolução de cada pessoa nesta vida e também contempla as vidas passadas, com o karma e o dharma que cada um traz para esta existência. O objetivo é saber se comportar para o que está por vir. Nada é definitivo, mas, segundo essas premissas, lutar contra a nossa missão não tem sentido.

Foi meu mapa astral védico apresentado pelo Herbert, o responsável por evitar que eu cortasse os pulsos e, em caso de tentativa frustrada, me jogasse de cabeça do mezanino da Casa de Cultura Mario Quintana. Tinha nome e sobrenome aquele sentimento de aflição, ansiedade e vazio existencial: Planeta Rahu.

Herbert me orientou a manter a calma. Aguentar no osso do peito. Estávamos em meados de junho de 2009, e o Rahu só me daria trégua dali um ano. Sem falar que já havia uns bons meses que o tal Rahu havia sentado sobre minha cabeça. Eu não suportava mais. “É só aguentar mais um pouco, porque depois tudo vai melhorar”, Herbert procurou me tranquilizar. “A boa notícia é que vai demorar muitos anos para o Rahu voltar para tua vida”, ele garantiu. “Só lá pelos teus 70 anos”.

 Pouco conhecido no Ocidente, o Rahu é um astro que age de maneira sutil. É conhecido como Nódulo Lunar Norte ou Cabeça do Dragão.

Os textos védicos descrevem Rahu como um astro maléfico causador do eclipse solar. Ele rege os pés e os instintos mais primitivos do ser humano, forçando-o agir de forma descontrolada, e aniquila a capacidade de julgamento do indivíduo. Lembro da nuvem negra depositada sobre meu pobre corpo cansado de guerra. Não havia luz no fim do túnel para nada.

hessonite-garnet-gem-333382aA Hessonita é uma pedra indicada para harmonizar e amenizar os efeitos do Rahu. Herbert sugeriu que eu usasse um anel com a Hessonita no dedo médio e, durante os meses em que o maldito permaneceu plantado na minha vida, eu andei atrás de um anel assim, mas nunca encontrei.

Naquele fatídico junho de 2009, quando Herbert atestou que o Rahu só sairia de cima de mim dali um ano, também avisou: “Mas depois, Mariana, lá pelo segundo semestre de 2010 tu vai encontrar o teu caminho. Tu vai encontrar a tua linguagem. É como se tu te descobrisse profissionalmente. E tudo vai acontecer após uma viagem para o Oriente Médio”. Eu ri por dentro. “Agora ele se superou de vez na invencionice”, pensei.

Pois em outubro de 2010 parti rumo ao Oriente Médio como jornalista convidada de uma peregrinação religiosa. Viajei por Egito, Jordânia e Israel. A jornada proporcionou que eu descobrisse uma linguagem autoral muito própria – e a partir dela lancei meu primeiro livro, Peregrina de Araque. O resto da história vocês já conhecem.

Portanto, amiga, se você anda aí cabisbaixa, desanimada, desenxabida da vida, saiba que existe um planeta chamado Rahu, viu? A boa notícia é que ele sempre vai embora e tudo passa. Afinal, tudo sempre passará.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

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