“Querida garota do maiô verde”: o texto sobre complexos com o corpo que viralizou na web

Não foi eleita nenhuma musa, nenhum modismo, mas um texto. Um texto é o que há de mais popular no verão europeu. Trata-se de uma carta a uma desconhecida que viralizou no Facebook assinada pela espanhola Jessica Gómez. Ela dirige-se a uma “garota do maiô verde” sentada a seu lado na praia para explicar a esta garota como milhões de mulheres em todo mundo se envergonham de seu corpo, que, no entanto, é “belo simplesmente por estar vivo”. O texto de Jéssica fala sobre um assunto sempre recorrente: a importância de gostar de si do jeito que se é.

querida_chica_del_banador_verdePOST SUCESSO DO VERÃO EUROPEU
O texto recebeu mais de 100 mil likes e 5 mil comentários em apenas dois dias, além de ter sido compartilhado 125 mil vezes

Leia a versão traduzida para o português da carta!

Querida garota do maiô verde

Sou a mulher da toalha ao lado. A que veio com um menino e uma menina. Antes de mais nada, quero te dizer que estou me divertindo muito perto de você e de seus amigos, neste pedacinho de tempo em que nossos espaços se tocam e suas risadas, sua conversa transcendental e a música de sua turma me invadem o ar.

Fiquei meio atordoada ao perceber que não sei em que momento de minha vida deixei de estar aí para estar aqui: deixei de ser a menina para ser “a senhora do lado”, deixei de ser a que vai com os amigos para ser a que vai com as crianças. Mas não te escrevo por nada disso. Escrevo porque gostaria de te dizer que prestei atenção em você. Não pude evitar. Vi que você foi a última a ficar só em traje de banho.

Vi você ficar atrás de todo o grupo, discretamente, e tirar a camiseta quando acreditava que ninguém estava olhando. Mas eu estava. Não estava olhando para você, mas te vi.

Vi você se sentar na toalha em uma postura cuidadosa, tapando o ventre com os braços.

Vi você colocar o cabelo atrás da orelha inclinando a cabeça para alcançá-la, talvez para não tirar os braços de sua estudadíssima posição casual.

Vi você se levantar para ir dar um mergulho e engolir em seco, nervosa por ter de esperar assim, de pé, exposta, por sua amiga, e usar uma vez mais seus braços para encobrir as estrias, a flacidez, a celulite.

Vi você agoniada por não conseguir tapar tudo ao mesmo tempo enquanto ia se afastando do grupo tão discretamente como tinha feito antes para tirar a camiseta.

Não sei se tinha algo a ver, em sua insatisfação consigo mesma, o fato de a amiga por quem você esperava soltar a longuíssima cabeleira sobre umas costas em que só faltavam as asas da Victoria’s Secret. Enquanto isso, você ali, olhando para o chão. Procurando um esconderijo em si mesma, de si mesma.

E eu gostaria de poder te dizer tantas coisas, querida garota do maiô verde… Talvez porque eu, antes de ser a mulher que vem com as crianças, já estive aí, na sua toalha.

Eu gostaria de poder te dizer que, na verdade, estive na sua toalha e na de sua amiga. Fui você e fui ela. E agora não sou nenhuma das duas – ou talvez ainda seja ambas. Assim, se pudesse voltar atrás, escolheria simplesmente curtir a vida em vez de me preocupar – ou me vangloriar – por coisas como em qual das duas toalhas, a dela ou a sua, prefiro estar.

Queria poder te dizer que vi que carrega um livro na bolsa, e que qualquer ventre que agora tenha seus dezesseis anos provavelmente perderá a firmeza muito antes de você perder o juízo. Eu gostaria de poder te dizer que você tem um sorriso lindo e que é uma pena estar tão ocupada em se esconder que não te sobre tempo para sorrir mais vezes.

Eu gostaria de poder te dizer que esse corpo do qual você parece se envergonhar é belo simplesmente por ser jovem. É belo só por estar vivo. Por ser invólucro e transporte de quem você realmente é e poder te acompanhar em tudo que você faz.

Eu adoraria te dizer que gostaria que você se visse com os olhos de uma mulher de trinta e tantos porque talvez então percebesse o muito que merece ser amada, inclusive por você mesma.

Eu gostaria de poder te dizer que a pessoa que um dia te amar de verdade não amará a pessoa que você é apesar de seu corpo e sim adorará seu corpo: cada curva, cada buraquinho, cada linha, cada pinta. Adorará o mapa, único e precioso, que se desenha em seu corpo e, se não o fizer, se não te amar desse jeito, então não merece seu amor.

Eu gostaria de poder te dizer – e acredite, mas acredite mesmo – que você é perfeita do jeito que é: sublime em sua imperfeição.

O que posso te dizer eu, que sou só a mulher do lado? Estou aqui com minha filha. É aquela do maiô rosa, a que está brincando no rio e se sujando de areia. Sua única preocupação hoje foi se a água estava muito fria. Não posso te dizer nada, querida garota do maiô verde… Mas vou dizer tudo, TUDO, a ela. E direi tudo, TUDO, ao meu filho também. Porque é assim que todos merecemos ser amados.

E é assim que todos deveríamos amar.

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mariana

mariana

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é sócia-diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

2 Comentários
  1. Simplesmente lindo e verdadeiro!!! Amei!!! Se todas pudéssemos voltar no tempo com a maturidade adquirida depois dos 40, seríamos adolescentes muito mais felizes! Espero que possamos o passar essas verdades aos nossos filhos…

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