Polêmico livro sobre mães arrependidas já tem data de lançamento no Brasil

O polêmico livro Regretting Motherhood, da socióloga israelense Orna Donath, já tem data para ser lançado no Brasil. Mães Arrependidas sairá em outubro pela Civilização Brasileira. Orna Donath sabia que estava colocando o dedo numa ferida quando ousou perguntar a um grupo de mães se elas se arrependiam de ter tido filhos. Mas nunca imaginou que iria provocar uma polêmica global.

Regretting Motherhood reúne depoimentos de 23 mulheres que amam seus filhos, mas, se pudessem decidir agora, sabendo o que a maternidade significa e implica, optariam por não tê-los. A tese de fundo que Donath desenvolve é que às mulheres precisam trilhar um caminho pré-determinado.

– Apesar de se supor que decidimos ser mães livremente, a pressão social para ter filhos é enorme, e o resultado é que algumas acabam se arrependendo – observa a autora e socióloga.

livroCAPA DE REGRETTING MOTHERHOOD
Os depoimentos são fortes e trazem à tona sentimentos que costumam causar desconforto. A autora questiona, por exemplo, a existência do instinto materno.

Mulheres que não são mães costumam escutar uma frase muito comum: “Você vai se arrepender de não ter tido filhos”. Orna Donath ouviu a frase – e foi aí que teve o estalo e resolveu fazer seu estudo. O objetivo de Orna era entender melhor a relação entre arrependimento, maternidade e sociedade. Já havia estudos acadêmicos sobre mulheres que se arrependiam de não ter tido filhos, mas ela percebeu que não havia pesquisas sobre quem se arrependia de tê-los.

– A noção mais difundida é a de que, se garantirmos que a mulher tenha todas as condições para ser mãe, então tudo estará bem. Mas não. Algumas mães que participaram do meu estudo tinham tudo – dinheiro, tempo, ajuda – e, ainda assim, se arrependeram –  disse ela em entrevista ao site da revista Time.

ornaA AUTORA ORNA DONATH: O DEDO NA FERIDA VIROU BEST SELLER

A sociedade deveria ouvir com mais atenção as mulheres que falam que não querem ser mães – e elas são cada vez em maior número. Não se pode tomar uma decisão séria dessas por imposição. Trata-se de uma escolha íntima e particular. Cada mulher conhece melhor do que ninguém seus sonhos, anseios, desejos e necessidades e o próprio corpo. Não há nada de feio em não querer ser mãe. Não há porque sentir vergonha em dizer “não quero ter filhos”. Feio é não ter esse direito amplamente respeitado.

Orna usou dois critérios para a definição de arrependimento. Perguntou às pesquisadas: “Podendo voltar no tempo e com o conhecimento que têm hoje, escolheria se tornar mãe?”. A resposta foi “não”. Pesando vantagens e desvantagens da maternidade, as mães arrependidas diziam que os aspectos negativos superavam os positivos. Ou seja, mesmo reconhecendo bons momentos, elas sentiam que tinham cometido um erro.

livro-ornaMATERNIDADE VERSUS CARREIRA: VISÃO SIMPLISTA E ULTRAPASSADA

A maioria das mulheres não apontou como motivo do arrependimento eventuais prejuízos da maternidade para a carreira profissional – crença muito difundida. Trata-se de uma visão simplista e ultrapassada que esquece o fato de que existe uma variedade de identidades, desejos e necessidades nas mulheres muito além da “maternidade versus carreira”.

Outro livro que tornou-se fenômeno editorial nos Estados Unidos e já tem edição brasileira, Solteirona: o direito de escolher a própria vida, da escritora e jornalista Kate Bolick, fala do desejo de não casar (ela e o namorado vivem em casas separadas) e de como esta tendência é cada vez mais forte entre as americanas.

SOLTEIRONACAPA DE SOLTEIRONA

Kate engorda as estatísticas de mulheres sem filhos. Diz ela:

– A porcentagem de mulheres que realmente querem ter filhos é muito pequena. O mesmo com as mulheres que não querem ter. A maioria fica no meio. Muitas mulheres têm filhos coagidas, uma vez mais, pelos papéis e estereótipos que a sociedade impõe. É uma pressão real, que existe e provoca muito estresse – e também atinge os homens, porque o mundo está organizado em torno da família e do casal.

Confira alguns trechos da entrevista que Olga Donath, autora de Regretting Motherhood concedeu ao site espanhol El País.

Seu livro se centra no arrependimento materno. Ficar se lamentando serve de alguma coisa?
Sim. Do ponto de vista pessoal é importante. Reconhecer o que se passa com você alivia. Se você sofre e não sabe identificar o que acontece, pode acabar culpando os filhos em vez de culpar a circunstância de ser mãe. As pessoas costumam dizer: enterre seus sentimentos e siga em frente, mas acho que reconhecer as emoções pode ser um alívio. Do ponto de vista social, o fato de as mulheres reconhecerem seu arrependimento pode ser um sinal de alerta para que se deixe de pressioná-las a serem mães, de vender a ideia de que a maternidade vai valer a pena para cada uma delas. Pode ser que as mulheres sejam biologicamente iguais entre si, mas somos diferentes uma das outras. Algumas querem ser mães, e outras não.

Por que acredita que seu trabalho fez tanto barulho?
Porque há uma percepção de que este debate é perigoso para o Estado e para a ordem social, que estabelece que a essência das mulheres na vida é serem mães. E eu proponho que é possível não ser mãe e também ser e depois se arrepender. O problema é que não há um roteiro alternativo. As pessoas não conseguem imaginar outras opções porque a imaginação está tomada por um discurso único, segundo o qual para ser feliz é preciso ter filhos. Eu não digo que a vida sem filhos será perfeita. Pode ser uma vida difícil, mas suficientemente boa.

“É verdade. É uma aposta que se pode ganhar ou perder. O problema é que a sociedade promete a todas as mulheres que ganharão sendo mães, as empurram garantindo a vitória”

É possível que uma determinada etapa da maternidade seja mais difícil, mas que os sentimentos mudem à medida que as crianças cresçam.
No meu estudo participaram avós que ainda se arrependem. Pode ser que a relação mude, mas no fundo elas sabem que não desejam tê-la. Ser mãe é uma maneira de estar no mundo; mesmo que os filhos se tornem independentes, você sempre os tem na cabeça.

Existe o instinto maternal?
Não necessariamente. Tratamos, de fato, de proteger a vida do bebê, o alimentamos, é uma criatura indefesa, mas isso não precisa ser equivalente a instinto maternal. E, em todo caso, se existisse, não seria domínio exclusivo das mulheres. Os casais gays que adotam filhos são uma prova evidente.

Na sua opinião, por que a maternidade é supervalorizada?
Parece que o parto, a amamentação e a criação têm de ser experiências maravilhosas. A maternidade é uma relação humana como qualquer outra, não o reino mítico que vendem. Quando a experiência materna não é tão maravilhosa quanto se supõe que deveria ser, muitas mulheres se sentem monstros. Reduzir as expectativas faria com que se considerassem menos culpadas. É como o amor, nem sempre é cor de rosa.

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mariana kalil

mariana kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

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