Amo-te Lisboa: a confeitaria que ameniza a saudade com os melhores doces de Portugal

Uma das maiores tristezas de um viajante que deixa Lisboa no rumo de casa é a perspectiva de não ter mais, ao alcance das mãos ou de uma simples viagem de elétrico, os maravilhosos Pasteis de Belém, iguaria conhecida e apreciada no mundo todo e que já é parte indissolúvel da identidade da capital portuguesa. Ir-se de Lisboa é também despedir-se do doce que, apesar de simples e sem qualquer ingrediente rebuscado, é quase impossível de ser reproduzido com fidelidade em qualquer outra parte do mundo. Mas, calma. Esta não é uma notícia nostálgica. Você, que também vive acometido pela saudade da velha confeitaria em que os pasteizinhos saem do forno direto para a sua mesa, anime-se! Há um cantinho em Porto Alegre em que todas as suas melhores lembranças da Terrinha, incluindo o sabor tradicional do Pastel de Belém, são a mais pura realidade. Bem-vinda a Amo-te Lisboa.

Este lugarzinho mágico fica em uma galeria da rua Independência, no bairro Moinhos de Vento, bem escondido. Ao abrir a portinha que dá acesso ao diminuto espaço, o visitante se transporta imediatamente para o baú de memórias. E Lisboa começa a se materializar na nossa frente assim que vemos o lindo painel que orna uma das paredes, com desenhos de todos os símbolos mais conhecidos de Portugal: o fado, a Torre de Belém, a guitarra portuguesa, os poetas Luís de Camões e Fernando Pessoa, o padroeiro Santo Antônio, o vinho e tantas outras referências.

00-amote-painelDETALHE DO PAINEL DA AMO-TE LISBOA: OS SÍMBOLOS DE PORTUGAL ESTÃO ALI

00amote-pastel-e-painelFADO NA PAREDE; PASTEL DE BELÉM SOBRE A MESA

Quando a gente olha para o pequeno balcão, aí sim, o coração bate mais forte. Ali estão os nove tipos de doces (e uma única opção de salgado) que nos transportam em uma rápida viagem no tempo. Pasteis de Tentúgal (que aqui chamamos de Santa Clara), toucinho do céu, queijadas e travesseiros de Sintra, pastel de chaves e, claro, os majestosos pasteis de Belém, estão todos ali, singelos, à espera do nosso apetite e da nossa reverência.

00amote-vitrineBALCÃO DA CONFEITARIA: NOVE TIPOS DE DOCES E UMA OPÇÃO DE SALGADO

O responsável por tudo isso é o terceiro elemento que faz a nossa viagem de volta a Portugal ser completa. O proprietário e idealizador do Amo-te Lisboa, Filipe Lopes, 44 anos, é português nascido em Almada, cidade vizinha de Lisboa, separada da capital pelas águas do Rio Tejo. Engenheiro de Produção, veio para Porto Alegre no início dos anos 2000 para fazer o Mestrado na UFRGS. Gostou daqui, formou sua família e resolveu ficar. E tudo estava muito bem, obrigada, com Filipe atuando como gerente de projetos em grandes empresas e também como professor universitário, quando o desejo de ter outro estilo de vida começou a falar mais alto.

00-amotelisboa-felipe-e-maiaFILIPE LOPES E MAIA ATRÁS DO BALCÃO: VIDA MAIS DOCE E MENOS ESTRESSANTE

– Não queria mais viver estressado, sem tempo, resolvendo problemas de grandes proporções, com metas e cobranças absurdas. Queria aproveitar a minha vida de um jeito diferente – lembra ele.

Neste período, Filipe já estava se envolvendo de forma mais próxima com a Casa de Portugal, que congrega muitos dos portugueses e descendentes que vivem por aqui. Durante a Copa do Mundo de 2014, seguiu a seleção portuguesa em sua passagem pelo Brasil, o que revelou um número crescente de simpatizantes pela cultura da sua terra natal. A motivação final veio em conversa com alguns conterrâneos sobre a descaracterização que muitos doces sofrem ao serem reproduzidos aqui, especialmente o adorado pastel de Belém. A partir daí começou o planejamento que culminou com a abertura, em janeiro deste ano, do Amo-te Lisboa.

00-amote-lisboa-pastel-de-belemPASTEL DE BELÉM DA AMO-TE LISBOA: FIEL À RECEITA ORIGINAL

A doceria de módicas dimensões compensa o reduzido espaço com a explosão de sabor que resulta das receitas à base de amêndoas, ovos e a melhor massa folhada. Tudo original, do jeitinho que Filipe conheceu na infância e adolescência. A receita da sua principal atração, aliás, vem diretamente da avó, que preparava pasteis de Belém como poucas.

– Lembro que, muitas vezes, a vó fazia para nós apenas o mingau que é o recheio do pastel de Belém. Ninguém conseguia esperar que aquele creme esfriasse para começar a comer, pois era bom demais.

00amote-pastel-de-sta-claraPASTEL DE SANTA CLARA: DOCE TRADICIONAL PORTUGUÊS À MESA DOS GAÚCHOS

Com um prato cheio do divino mingau à base de creme de leite, ovos e açúcar, Filipe e os primos sentavam na sacada do sobrado a avó, de onde avistavam o Tejo e as colinas do velho centro de Lisboa. Daí, acredita Filipe, nasceu o amor pela capital portuguesa, que acabou por batizar a doceria porto-alegrense.

– Quis reproduzir no nome o nosso sotaque, a forma como falamos, para que tudo fosse verdadeiro, sem clichês – diz Filipe, explicando a colocação pronominal pouco usual, mas extremamente cativante, que fica ainda mais encantadora com o sotaque do anfitrião.

00-amote-lisboa2DETALHES TÃO PEQUENOS: AMO-TE LISBOA OFERECE DOCES COM HISTÓRIA

Amo-te segundas
Quando decidiu abandonar dois empregos estáveis para se aventurar vendendo doces, Filipe planejou ficar de seis meses a um ano sem receber retorno, somente investindo no negócio novo e desconhecido. No entanto, a repercussão foi tão positiva que, dois meses depois de aberta, a doceria já atraía uma clientela fiel e dava resultados positivos.

– Isso me fez ver que Lisboa e Portugal estão na moda. As pessoas visitam mais, por causa do voo direto, e ganhamos a Eurocopa, o que voltou os olhos do mundo para nós. Também não existe a preocupação com violência ou atos terroristas por lá. A cultura e a gastronomia portuguesas despertam cada vez mais interesse, o que nos favorece muito – explica.

00-fado-do-grupo-alma-lusitana1SEGUNDAS DE LISBOA: O GRUPO ALMA LUSITANA É ATRAÇÃO CONFIRMADA

Percebendo este crescente interesse pelas coisas da sua terra, Filipe teve a ideia de promover um evento ao ar livre, uma vez por mês, para reunir os amantes da cultura portuguesa. Mais uma vez, a intuição não falhou. Já se encaminhando para a terceira edição, que ocorre no próximo dia 10, o Amo-te Segundas de Lisboa reúne música, danças folclóricas, artesanato e tudo o mais que se relacione com as coisas de Portugal e que Filipe encontrar por aqui. Parceiros nesta empreitada, o Rancho Folclórico Casa de Portugal e o grupo musical Alma Lusitana já são atrações confirmadas.

– Essa revalorização da cultura tem sido um fenômeno muito interessante. O Rancho Folclórico, por exemplo, que estava há mais de 10 anos sem atividades, voltou a dançar e a se apresentar. Isso é resultado do interesse crescente pelas coisas de Portugal – comenta Edna Souza, coordenadora do grupo.

00rancho-folclorico-casa-de-portugalRANCHO FOLCLÓRICO: APÓS JEJUM DE UMA DÉCADA, DE VOLTA AOS PALCOS

Depois que as lojas da galeria fecham as portas, no final da tarde, o pessoal decora o local com as fitas e bandeirinhas típicas do Bairro da Alfama, um dos mais antigos e tradicionais de Lisboa, onde nasceu o fado, no final do século 19. De dentro da doceria saem as delícias e os cálices de Vinho do Porto que preparam o espírito para as atividades culturais como as danças típicas e as apresentações de fado.

Cantar junto com as fadistas as tradicionais melodias ou simplesmente deixar o doce pastel de Belém desmanchar na boca. Eis aí alguns prazeres antes possíveis apenas em uma das ruelas de Lisboa. Agora, para a nossa sorte, é possível viver um pouco disso por aqui também.
(Patrícia Lima, Especial para o site MK)

Amo-te Lisboa
Avenida Independência, 1211, loja 31
Aberto de segunda a sábado, das 9h30min às 18h30min
@amotelisboapoa
https://amotelisboa.com

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mariana kalil

mariana kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

3 Comentários
  1. Preciso conhecer urgente este lugar. Conheci Lisboa em maio deste ano e ME APAIXONEI por Lisboa e pelos portugueses, e que saudades dos pastéis de Belém!

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