Danuza Leão ensina a descomplicar a vida com finíssimo humor

Danuza Leão não impõe nem decreta regras. Apenas escreve o que pode ser considerado uma crônica da vida em sociedade. A explicação para o sucesso é simples como ela. Estamos em uma sexta-feira de um calor escaldante no Rio de Janeiro, e o termômetro digital localizado na Avenida Vieira Souto, em diagonal ao prédio onde vive a escritora marca 38ºC às 14h30min. Este é o horário combinado para a entrevista e é pontualmente às 14h30min que subo um lance de escadas e aperto a campainha do apartamento. Conceição, a diarista, abre a porta.

– Pode entrar – consente.

Entro lentamente, como que digerindo o fato de, em poucos segundos, estar diante de um dos maiores ícones femininos deste país. Jornalista e escritora, referência em etiqueta e comportamento, dona de prosa e autora de textos deliciosos, Danuza está encostada na cabeceira do divã, com os pés em cima do estofado e seu MacBook Air apoiado nos joelhos. Veste calça, sapatilha e uma malha de manga três quartos listrada de azul-marinho e branco. O ar-condicionado não está ligado, as janelas estão fechadas, mas ela transita em um universo alheio ao calorão da cidade.

– Você é pontual, hein? – diz, colocando o laptop de lado e levantando-se para me receber com dois beijos no rosto.

Tem a voz grave, firme, mas delicada. São características que transmite em seus livros. Manuais de etiqueta há muitos por aí. Mas nenhum deles tem o mesmo impacto que os de Danuza Leão. O primeiro, Na Sala com Danuza, lançado originalmente em 1992, tornou-se best-seller. Vinte anos se passaram, o mundo mudou, e Danuza também.

– Fiquei mais simples – reflete.

Desta reflexão e de profundas transformações nasceu É Tudo Tão Simples, uma espécie de atualização do primeiro e presente na lista dos mais vendidos desde o lançamento. A explicação para o sucesso é simples, como a escritora: ela não impõe, não decreta nada. Apenas escreve o que pode ser considerado uma crônica da vida em sociedade, com uma perspicácia e observação que só os grandes jornalistas possuem.

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Foto de Anna Ramalho

DANUZA LEÃO E O GATO HAROLDO NO CHÃO DO APARTAMENTO EM IPANEMA

Nascida em Itaguaçu, no Espírito Santo, em 26 de julho de 1933, Danuza Leão está a dois meses de completar 85 anos e nunca viveu de forma tão singela desde que se mudou para este apartamento de frente para o mar. Não foi uma mudança física apenas. Ela exigiu transformações profundas e deixou como herança o prazer de se tornar um ser humano mais leve e, consequentemente, mais feliz.

Foi com este estado de espírito, e com o gato Haroldo de companheiro, que ela me recebeu para as duas horas da entrevista a seguir.

É Tudo Tão Simples entrou para a lista dos mais vendidos pouco depois de ser lançado. As pessoas estão carentes de conselhos, de etiqueta, de autoajuda?
Não sei… (pensa). Este livro surgiu quando me dei conta de que Na Sala com Danuza estava fazendo 20 anos. O mundo mudou, eu mudei, tudo mudou. Achei que era hora de reeditar, de escrever algo para os tempos de hoje. Então, comecei a escrever.

O ato da escrita é tranquilo ou causa sofrimento como para muitos escritores?
Escrever é fácil. Quando sei o que vou escrever, então, é facílimo.

110260962szCAPA DO LIVRO “É TUDO TÃO SIMPLES”

Na orelha de É Tudo Tão Simples está escrito que você resolveu “simplificar” a vida. Na prática, o que isso significa?
Não foi de um dia para o outro que eu resolvi simplificar a vida. Foi um processo que aconteceu aos poucos, de forma natural. A primeira coisa que fiz foi vender meu carro. Desde então, minha vida ficou uma maravilha. Não tenho mais que levar para a oficina, fazer vistoria, posso beber uma caipirinha a mais e não levo pontos na carteira, não me preocupo com vagas, com flanelinhas… Foi uma decisão séria que eu tomei. E não me arrependo.

Dê outro exemplo de simplificação da vida.
Bom, a grande simplificação da minha vida foi a mudança para este apartamento. Eu morava aqui perto, em um apartamento grande, com três quartos, duas salas e tal. Eu adoro me mudar. Já morei em 36 casas, sendo que duas vezes fora do país. E sempre fazendo obra. Como tenho mania de mudar de casa, eu tenho um vício: todos os domingos, leio os classificados de imóveis. Foi quando vi este apartamento anunciado. Eu não tinha a menor intenção de me mudar, mas pensei: “Ah, vou lá ver. Não tô fazendo nada mesmo…” (Danuza ri de si mesma). Chamei o corretor e viemos aqui.

E aqui você ficou.
Só tem isso, né? (Danuza aponta para a sala, para a cozinha e para o quarto integrado). E tem mais um closet ali. Se você quiser, levanta e olha. Gostei por vários motivos, um deles porque estou de frente para o mar. E havia algo que nunca tinha me acontecido: não precisava de obra, fora uma bobagem que estou mudando na cozinha. Aí me interessei, só que tinha um ponto crucial para minha mudança: minhas coisas não cabiam aqui.

E…?
Fiquei numa dúvida cruel. Eu queria me mudar, mas minhas coisas não cabiam. “O que eu faço, como é que eu faço?”, passei dias atormentada com essa questão. Até que achei que era hora de simplificar, de me desfazer de tudo que eu não precisava, tudo aquilo que podia viver sem.

haroldo-300x300O GATO HAROLDO ENROSCADO NO GRAVADOR AO NOSSO LADO

Por onde começou o desapego?
Começou dolorosamente pelos livros. Como minha casa era muito grande, eu recebia um livro, recebia outro e ia guardando. Botei todos em cima da mesa e fui selecionando. Para um lado os que eu gostava, para o outro aqueles que eu não gostava ou que nem tinha lido. Terminada a seleção, liguei para um sebo e doei todos os livros que não queria. Em seguida, foi a vez das roupas. Outro momento doloroso (ri). “Ah, mas é tão lindo… Ah, mas nunca mais vou ter um igual… Ah, mas não me cabe mais… Ah, meu Deus o que eu faço?” Respirei fundo e comecei: tirei, tirei, tirei. E isso tudo com fita métrica na mão para checar se o que estava ficando realmente cabia no closet novo. E aí foi indo, fui me desfazendo de um quadro que eu não dava a menor bola, de um objeto que não tinha mais nenhum significado – e trouxe mesmo só aquilo que eu mais gostava e do qual não queria me separar. Tudo coube e eu me mudei.

E a gente fica mais leve, não é verdade?
Fica! Fica muito mais leve (de tão entusiasmada, Danuza até se ajeita no sofá). Eu viajei em janeiro para Paris, era inverno na Europa. Já percebi que, cada vez que viajo, levo menos roupa. Saí daqui com um jeans no corpo e uma botinha curtinha. Na mala, levei uma calça preta, um jeans, uma bota longa, seis suéteres, seis calcinhas, seis sutiãs, 10 camisetas. Quando chegou lá, eu me dei conta que tomava banho, lavava minha calcinha, pendurava e botava outra. No dia seguinte, pegava aquela que tinha secado e lavava a outra. Então, basta levar uma calcinha e um sutiã. E tem mais: se precisar a gente compra. Você quer uma Coca-Cola?

Não, estou bem. Muito obrigada.
Café você não vai ter aqui, viu? Porque ninguém faz e ninguém toma café aqui em casa. Se quiser uma água ou uma Coca-Cola, você me fala. Bom, voltando: jeans, bastam dois, um no corpo, outro na mala e mais uma calça preta… Já vai?

Conceição, a diarista, está na porta e se despede de Danuza. Ela interrompe um instante a entrevista. “Conceição, então tudo falado, né? Valeu, tchau, obrigada.”

Sobre camisetas: eu sempre visto uma camiseta embaixo do suéter porque fica mais confortável. Então, chegava de noite, eu tirava o suéter e dormia com aquela camiseta. Na hora do banho, lavava e botava em cima do aquecedor. Duas chegavam. Quanto aos suéteres, percebi que um marinho e um preto chegavam, bastava revezar. Então, minha mala foi essa. E isso é muito bom. É libertador.

Você tem uma cesta com pulseiras e colares de marfim comprados no tempo em que usar peças feitas de presas de elefantes não era tido como um ato criminoso, assim como o uso de peles. O que você acha dessa mudança de mentalidade e comportamento mundial?
Está chato viver hoje em dia. Já foi mais divertido. Mas não fui eu que matei o elefante, né? Então, não vou deixar de usar minhas pulseiras. Eu tinha um casaco de pele de leopardo, que não tenho mais, dos tempos em que não se falava dessas coisas, do tempo em que tudo era permitido. Mas é preciso dizer que existem peles de animais que são criados especialmente para isso. Não são animais em extinção.

63d27a6067977c4fef166e8af6f5f1e5DANUZA NOS ANOS 1960 EM PARIS AO LADO DO ESTILISTA YVES SAINT LAURENT

Você diz que a vida da mulher se divide em três fases: a primeira, quando é uma gatinha; a terceira, quando já desistiu de encontrar o amor de sua vida; e a segunda, a melhor de todas, que depende das duas anteriores. Em que fase você está e o que há de melhor e de pior nela?
Eu me considero na segunda, claro (risos). O que tem de bom é que você já sabe o que quer, seus filhos já estão grandes, você tem uma liberdade total. Eu sou independente, não preciso dar satisfação de nada a ninguém. Vivo uma liberdade total que é quase uma segunda adolescência, só que já sabendo escolher e decidir melhor… (Danuza é interrompida pela campainha do interfone.) Dá licença, que é capaz de ser as minhas almofadas.

O interfone segue tocando insistentemente. Danuza levanta correndo e vai até a porta. São as almofadas e os encostos do sofá em que estamos sentadas, que tinham sido mandadas para estofamento e que acabavam de chegar. Me levanto para que ela possa testar se tudo ficou como queria. Ajudo a colocar as almofadas e os dois encostos. “Senta agora, Mariana, vê o que você acha”, ela sugere. Digo que ficou perfeito. Ela senta e experimenta. “Ah, ficou bom. As almofadas ficaram um pouquinho duras, mas está bom”, elogia. “Aqui está a notinha”, diz o entregador, oferecendo a nota fiscal a Danuza. “Ôôô, mas por que tão caro, hein?”, ela pergunta, enquanto ele enumera detalhadamente todo o trabalho. “Mas as penas eram todas minhas!”, insiste Danuza, enquanto ele continua explicando a mão de obra.

É um bate-papo engraçado, e é num clima leve que os dois ficam nesse troca-troca entre cliente e prestador de serviço. Danuza, então, puxa o talão de cheque e entrega ao funcionário. “Toma, agora some daqui”, diz, brincando. “Que é isso, dona Danuza”, ele ri. “Some daqui, não quero te ver tão cedo”, diverte-se ela, e o conduz até a porta. “Eu estou aqui toda a semana, sabia?”, ele conta, lá da porta. “Ah, é?”, retruco. “É ela que me chama! Me chama toda semana! Tchau!”.

Danuza volta e senta-se no sofá, agora com encosto e almofadas novas.

Então, nós estávamos falando sobre as vantagens dessa fase da vida. Você fuma? (Ela oferece e acende um cigarro). Nessa fase, você é dona da sua vida, você faz o que você quer, é uma maravilha. Sobre as desvantagens: a gente não tem mais 30 anos, e como seria bom ter. Apesar disso, eu posso fazer quase tudo. O que eu não posso fazer? Subir numa árvore, correr em volta da Lagoa… Que mais?

A limitação física, que a idade vai impondo aos poucos, incomoda?
Enquanto as dificuldades não chegam, eu não penso sobre elas. Vou pensar quando chegar a hora. Participei de um programa da Ana Maria Braga, falávamos sobre arrumar a mala, e ela perguntou: “Onde você coloca as maletas de maquiagem, a nécessaire?”.

Minha maleta de maquiagem se resume a um lápis de olho, um pincel, uma sombra marrom e um rímel. Mais nada. “E os cremes?”, Ana Maria Braga quis saber. Eu não passo nada no rosto, nenhum hidratante, além de água e sabonete. Nunca passei. E se minha pele não desidratou até agora não vai desidratar mais, entendeu? (Risos.)

Você se casaria outra vez ou sua vida está organizada para não precisar de ninguém?
A não ser que eu enlouqueça, né? Porque quando a gente se apaixona a gente enlouquece. Acho difícil.

Tem um momento da vida em que a gente olha para um homem e só vê a aparência. Depois que o tempo passou e você já está mais vivida, você olha e faz uma radiografia da pessoa. E tem a hora em que você olha e já faz a tomografia. Então, fica difícil você se apaixonar.

Por que as mulheres não sabem ficar sozinhas?
Essa é uma questão que mostra a grande diferença entre homens e mulheres. Você passa em qualquer esquina e vê os homens com a barriga encostada no balcão de um bar, tomando cerveja, dando risada, olhando para mulheres que passam… Você olha para uma rodinha de mulheres, elas só sabem falar de uma coisa: “Não tem homem”. Isso me estarrece. As mulheres, de um modo geral, só ficam seguras com um homem do lado. Elas não têm a coragem de entrar sozinhas em um restaurante. O homem dá segurança a elas. Não sei se ainda é aquela imagem da solteirona que ronda o imaginário, só sei que a maioria precisa de um homem ao lado.

As mulheres são chatas?
São. São chatas. Eu tenho muitas amigas, mas saio uma vez com cada uma. Não sento em mesa de quatro mulheres que ficam tomando caipirinha sábado de tarde e reclamando que não têm homem. Não há hipótese, tô fora. Porque não há como escapar: o assunto será invariavelmente este.

As mulheres deveriam se preocupar menos com os outros e mais profundamente com elas. Existem mulheres mais velhas, com filhos e netos, que passam a viver a vida através deles. Eu tenho filhos e netos e não vivo através deles. A vida é deles, e eu vivo a minha.

Seus filhos e netos lidam bem com essa sua independência?
Eu até acredito que eles sintam um pouco de falta da minha presença, já que somos criados nesta cultura da mãe sempre em volta. Mas aí também já é problema deles. Por outro lado, eles não são obrigados a me telefonar no Dia das Mães, nem de almoçar comigo etc. Para ser sincera, acho que a maior sorte que meus filhos têm é de terem uma mãe independente e com saúde. É a melhor coisa que eu posso fazer por eles.

Você sentiu alguma vez na vida o fardo de ter que ser mãe exemplar, bonita, bem-sucedida…
Senti um pouco de culpa de não ter sido a mãe que eu acho que deveria ter sido. Porque eu sempre cuidei muito da minha vida e fiz tudo o que quis. Em contrapartida, e exatamente por causa disso, eu jamais iria olhar para eles e dizer: “Dediquei os melhores anos da minha vida a vocês e agora mereço isso, isso e aquilo”. Isso jamais aconteceu e jamais vai acontecer. Não sei se eles percebem isso. Talvez um dia percebam.

danuzaCAPA DO LIVRO “QUASE TUDO”, OUTRO CAMPEÃO DE VENDAS

Em uma entrevista que fiz com Christiane Torloni, ela comentou que o povo está tomando Rivotril como se fosse floral, porque ninguém mais quer se emocionar. Você concorda?
Não sei… (pensativa).

Pensei em fazer essa pergunta porque tem um capítulo do seu livro que se chama Tarja Preta.
Sim, Tarja Preta! Eu sou totalmente a favor da tarja preta. Eu tomo Rivotril, mas não com o intuito de não me emocionar. Ontem, na minha casa, por exemplo, tinha o cara da NET, o carpinteiro, o eletricista. Teve uma hora em que precisei tomar um Rivotril, ou ia explodir (risos)! Tem gente que não dorme e não toma remédio para dormir. Não entendo. Agora, quanto a esta história de emoção, acho que, à medida que o tempo vai passando, e você vai conhecendo mais a vida, você se emociona menos. Porque você percebe que a novela é feita para te emocionar – e você não cai mais. Eu me emociono muito menos. E choro menos também.

Lembra da última vez que chorou?
Não choro há muito tempo. Mas acho que é porque já chorei tudo que tinha para chorar (risos).

O que abre seu apetite?
Gosto de comer de tudo. Mas a minha vida simplificou. Tenho uma empregada, a Conceição, que você conheceu, que me dá o almoço. À noite, eu me viro. Antigamente, eu tinha empregada que dormia na minha casa. Nos primeiros tempos dessa nova vida, foi uma tragédia. Me peguei perdida, pensando: “Como é que faz pra comer de noite se não tem quem me faça uma comida? O que eu faço, meu Deus?”. Eu nunca acendi um fogão na vida, não tenho ideia de como se acende um forno. Aprendi a fazer um sanduíche, essas coisas, e só. Sonho com o dia em que vão inventar uma ração humana para a hora do jantar. Como aquela ração, e pronto. Me habituei a comer menos. E isso é muito bom.

Não ter mais uma empregada que dorme em casa para servir você também é uma forma de simplificar a vida, não?
Com certeza. E é libertador! Porque não existe problema maior na vida do que a coabitação, seja com quem for. Eu preciso ficar sozinha em casa, não consigo ficar com gente o tempo todo. Essa história de empregada que dorme no emprego me levou à conclusão de que eu tinha um problema social na minha vida. Os apartamentos, hoje em dia, dispõem de cubículos de quartos para elas. Como é que pode uma pessoa viver o tempo todo na mesma casa que você, com você usufruindo de tudo, e ela trancada no cubículo? Se a Conceição vivesse aqui, teria toda a razão de me odiar, inclusive toda a razão de me assassinar se eu pedisse um copo de água para ela. O fato de ela não morar mais comigo me libertou dessa culpa.

O poder de consumo da classe C traz a reboque uma legião de pessoas que acredita que ser chique e elegante é ostentar. O dinheiro proporciona algum tipo de aprendizado nesse sentido, ou etiqueta e educação vêm de berço?
Educação começa lá atrás, apesar de eu acreditar que a gente passe a vida aprendendo. Mas demora, viu (risos)?

Vi uma reportagem sobre o livro Crianças Francesas não Jogam Comida Fora, da nova-iorquina Pamela Druckerman, que mora em Paris com os filhos. Ela questiona o porquê de nossos filhos serem tão mal-educados e as crianças francesas serem tão bem-educadas. Os franceses são firmes na hora de dizer não, sem precisar esbravejar. Na França, não existe criança berrando em shopping porque quer determinado brinquedo.

Essa falta de educação das crianças está diretamente relacionada à permissividade dos pais.
Com certeza. Quando moramos na França, e meus filhos estavam na escola, as crianças se levantavam em sinal de respeito ao professor que entrava na sala de aula. Agora, leio no jornal que as crianças estão estapeando os professores. Quando meus filhos eram pequenos, chegava uma determinada hora em que eu dizia: “Agora, vocês vão para o quarto porque a conversa é de adultos”. Ninguém esbravejava. Eles obedeciam quietinhos.

E crianças correndo e gritando em restaurantes?
Fico desesperada. Conheço um jovem casal que mora em um apartamento menor que o meu. Eles têm um filho pequeno. Um dia, perguntei: “Vem cá, quando vocês querem sair para jantar, como é que fazem?”. Eles saem de casa, que fica passando a Barra da Tijuca, vão a Niterói deixar o filho na casa da avó, jantam, voltam para casa e, no dia seguinte, vão a Niterói buscar o filho.

Se as crianças de hoje em dia fossem educadas, podiam ir ao restaurante. Na França, elas vão. E não abrem a boca. Dia desses, fui a uma churrascaria, o filho corria entre as mesas, e a mãe corria atrás. Não quero passar por isso nunca mais na minha vida.

Você gosta do Brasil?
Eu gosto, mas gosto muito da França, também. Já morei duas vezes lá e me sinto em casa. Costumo passar temporadas em Paris e, quando vou para lá, faço exatamente o mesmo que faço aqui: fico em casa, vivo no meu bairro, vivo como uma francesa.

O jeitinho brasileiro me incomoda, claro! Outro dia, tive um problema de corte de gás. O rapaz da companhia do gás me deu todas as indiretas de que, com uma graninha, ele não cortava meu gás. Eu não dei. Fiquei sem gás, mas não dei. Não dá!

Não é um absurdo o preço da roupa no Brasil comparado ao Exterior?
Um verdadeiro absurdo. Não compro nada aqui. Não entro em loja, não entro em shopping, não compro rigorosamente nada no Brasil, por causa do preço. Lá fora, compro em qualquer lugar que eu passe. Esta camiseta, por exemplo (uma camiseta de malha de manga três quartos listrada de branco e azul marinho), comprei da última vez que fui. É uma malha legal, com bom corte. Paguei 20 euros.

Você odeia caminhar, mas caminha mesmo assim.
Eu odiava caminhar com o personal. Mas agora que me mudei para cá, caminho na praia sozinha e gosto muito.

Ouvindo música…
Não. Não ouço música. Eu não lido bem com a tecnologia. Meu filho me deu um iPod, eu botei todas as minhas músicas maravilhosas dentro e não quis mais. Devolvi o iPod para ele. Prefiro ouvir a buzina, o barulho do mar.

E pilates, você faz para a postura.
Cinco vezes por semana. Para a postura e para desenferrujar.

E esses exercícios são por prazer ou por obrigação?
O pilates é por prazer. E a caminhada, agora sem o personal trainer, é por prazer também. Eu acordo muito cedo, saio para caminhar às 7h. Tem uma hora em que, tanto o pilates quanto a caminhada, se tornam um vício e você não consegue mais viver sem. Aí é que fica bom.

Eu acho que eu não relaxo nunca… (gargalhadas). Na aula de pilates, são cinco alunas e dois professores. Eu estou sempre falando alguma coisa, ou olhando e dizendo: “Ai que lindo teu colarzinho…”. O professor diz: “Danuza, relaxa, fecha os olhos”. Mas eu não posso fechar os olhos, não consigo relaxar.

Você acredita em Deus, tem fé em algo, crê que o mundo vai acabar em 2020…
Eu não penso nessas coisas, em nada disso. Espero que tenha outra vida, espero que seja maravilhosa, mas não fico pensando nisso, porque são coisas que não entram na minha cabeça.

Tem alguma neurose?
Ah, tenho várias! Não tenho vocação para a tristeza, mas tenho para a tortura. Por exemplo: depois que terminar essa entrevista, vou ficar remoendo que não disse o que deveria ter dito, que esqueci de dizer algo que seria maravilhoso, que a entrevista vai ficar tão ruim que é capaz de nem ser publicada. E daí fico nessa, me martirizando. Vivo torturada. Tem um amigo que me diz: “Danuza, não tem um dia que você não diga ‘eu estou com um problema’”. E o problema pode ser não saber se compro ou não um sapato, não saber onde vou jantar, medo que meu livro seja um fracasso… Tudo é um problema.

Tem medo de algo?
Tenho medo de ficar pobre, pobre, pobre, doente, doente, doente e ir para a “fila do INPS”.

Sou muito individualista, meu pensamento é só meu. Tenho horror de socializar. Anos atrás, tinha grandes amigas que queriam fundar um jornal feminista. “Deus me livre, tô fora”, respondi. Eu exercia o feminismo na minha vida, mas nunca levantei bandeira.

Vou aceitar seu convite para conhecer o apartamento.
Vem comigo.

Levantamos e vamos até o closet. “Olha isso!”, ela diz. O closet é pequeno, bastante pequeno, prova irrefutável de que Danuza Leão realmente se desfez de muita coisa. “Parabéns, você é uma heroína”, digo a ela. “E ainda falta me desfazer de muita coisa, viu?”, ela responde, e exemplifica: “Nem que eu viva mais cem anos vou conseguir usar essa quantidade de calças”, mostra, revistando o calceiro. “Vem aqui, olha o banheiro”, convida.

Entramos no banheiro, interligado ao closet. Danuza está orgulhosíssima. “Sabe o que eu mais gostei deste banheiro? Da quantidade de prateleiras. Qual banheiro hoje em dia tem esse monte de prateleiras? Não é o máximo?”, ela aponta para as prateleiras de mármore na pia e dentro do box. O tour continua pela área de serviço, onde mandou demolir o tanque. “Isso foi obra da Conceição”, explica. “A Conceição se virou para mim e disse: ‘Dona Danuza, ninguém mais precisa de tanque hoje em dia’. Então, demoli o tanque.”

A visita termina próximo à porta de entrada e ao grande espelho que proporciona uma sensação de amplitude do apartamento. Me despeço, e Danuza retorna para o seu mundo sem ar-condicionado, deitada em seu lugar preferido, com o MacBook Air no colo.

Deixo de presente para ela meu primeiro livro, Peregrina de Araque, que, na semana seguinte, teria sessão de autógrafos na Livraria da Travessa, no Leblon, bem próximo de sua casa. Ela prometeu que iria me dar um abraço. Eu não acreditei. Ela cumpriu a promessa e tornou aquele fim de tarde ainda mais especial, cujas imagens aqui publico para recordar.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

7 Comentários
  1. Adorei a entrevista!!! É a vida simples de todo o mundo….quase a minha idade, mas ela é rica, mora no Rio e viaja pra Paris! Eu não gosto de avião….melhor , pois nem em pensamento posso ir pra o exterior! Moro só e gosto muito de ser dona do meu nariz!!!!Aprendi com Ela a comprar menos roupa! Bjs Amo teu blog

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