Por que temos o hábito de esquecer o nome das pessoas com tanta facilidade?

Sou péssima fisionomista e esta característica já me rendeu muita fama de esnobe por aí. “Poxa, a Mariana passa pela gente na rua e não cumprimenta!”. Não foi uma nem duas vezes que ouvi esta frase de alguém chateado comigo. Me sinto malíssima, pois se tem coisa que jamais fiz ou farei é deixar de cumprimentar um conhecido, de preferência com um ensolarado sorriso, a menos que seja algum desafeto passível de virar a cara. Sim, eu me dou o direito de não cumprimentar (ou sequer enxergar em um mesmo ambiente) pessoas que já me fizeram mal. Por sorte, elas não preenchem os dedos de uma única mão.

Além de péssima fisionomista, também não me dou bem com nomes. Já fui aquele tipo de pessoa capaz de esquecer, no segundo seguinte, o nome da vivente para quem fui apresentada. Um horror! Jamais lidei bem com isso e, para evitar essa descortesia, desenvolvi algumas técnicas que ajudam bastante. Em primeiro lugar, passei a me concentrar muito mais no momento da apresentação.

Pode parecer bobagem, mas pesquisas apontam que, geralmente, quando somos apresentados a uma pessoa, nossa atenção não está definida a 100% em ouvir seu nome. Estamos à procura de outras coisas, como apertar a mão, oferecer os dois beijos de cortesia… Nosso cérebro está aguardando uma série de estímulos e preocupações internas, de modo que a memória auditiva fica em segundo plano.

Justamente por ter a memória auditiva em segundo plano, outra técnica que desenvolvi e ajuda muito é repetir o nome da pessoa em voz alta. “Oi, Daniela! Muito prazer”. Se a conversa se estender, busco falar o nome mais uma ou duas vezes entre um diálogo e outro. Na hora da despedida, repito de novo. “Tiau, Daniela. Foi um prazer te conhecer”.

bento1124ALÉM DE ESNOBE E ESQUECIDA, PASSA POR LOUCA

A memória humana é muito boa em coisas, como rostos e informações de fatos que se ligam bem a outros dados que a gente já conhece, diz Paul Reber, professor de psicologia da Universidade de Northwestern. “Por isso, é muito mais fácil lembrar da senhora loira que vende salgados do que se recordar do nome da mulher, mesmo que você já tenha ouvido falar uma ou duas vezes”, exemplifica

Richard Harris, professor de psicologia na Universidade do Estado de Kansas, explicou ao jornal científico Science Daily: “Muitas vezes, não se trata da capacidade do cérebro de lembrar nomes, mas do nível de interesse da pessoa em recordá-los. Todo mundo tem uma memória muito boa para alguma coisa. Será que o nome realmente lhe interessa?”.

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O cérebro tem dois tipos de memória, a de longo e a de curto prazo. Na memória de curto prazo, para gravar algo, o cérebro faz conexões entre alguns neurônios. O problema é que, quando aparece uma nova informação, o cérebro cria novas conexões, e as anteriores são enfraquecidas. Ao lembrar de uma coisa, você esquece de outra. Não sou eu que estou afirmando. Trata-se da conclusão de um estudo feito na Universidade de Sheffield, na Inglaterra. Portanto, saiba que, quando aquele refrão de música chiclete colar na sua mente, você pode estar deixado de lado coisa bem mais importante.

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Há também a questão material envolvendo toda essa celeuma. Pesquisa realizada em universidades americanas no início dos anos 2000 mostrou que pessoas que ganhavam US$ 5 no dia seguinte se lembrassem de uma série de objetos e cenas tinham um índice de acerto muito acima das que não ganhavam nada. Ou seja, talvez você não lembre do nome daquela pessoa porque, consciente ou inconscientemente, pense que não vai ganhar nada com isso.

5q2xCOISA FEIA….

Para o festejado neurocientista Ivan Izquierdo, esquecer o nome das pessoas não é falta social grave e pode ser disfarçado ou até mesmo confessado. “Esquecer faz parte de uma memória saudável”, avisa ele. E como fazer para apresentar um conhecido a uma pessoa cujo nome esquecemos? Tenho uma tática que, confesso, nem sempre dá certo, mas já me tirou de algumas saias justas.

– Gostaria de te apresentar o Carlos Eduardo, mas queria lembrar teu nome completo, só que o sobrenome simplesmente me fugiu… – saio dizendo.

Se as leis de Murphy não estiverem sobrevoando minha cabeça neste dia, normalmente a pessoa responderá o nome completo. Se falar apenas o sobrenome, já saí ganhando mesmo assim, afinal de contas, o ato da apresentação foi realizado sem maiores percalços. Ah, e tem vezes em que já parto para a sinceridade única e irrestrita: “Desculpa, me deu um branco. Qual é teu nome mesmo?”.

Não vai tirar pedaço, vai dizer?

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

5 Comentários
  1. Muito bom o texto, porque lembro dos detalhes das coisas ,mas sou péssima fisionomista , passo por antepatica , meu filho passa dizendo , já deu o “alemão” de novo , esqueceu kkk bjs ❤

  2. Mari:
    Amei o texto!
    Até, pq sou “expert” neste feito…. pago cada mico…
    Logo, empatizo integralmente com teus sentimentos!
    Contudo, tenho dois atenuantes -q os uso sem contrangimento: não sou tão jovem, e ainda sou loira( neste caso, me valho do injusto, porém amplo, preconceito). Ao firmular a pergunta fatidica do “ desculpa, mas esqueci seu nome”, me basta a esta preceder com meus dois -incostestes-atenuantes! Funciona sempre!!! Bjus e bom findi! Paula

  3. Acontece comigo a mesma coisa…procuro associar o nome da pessoa que me é apresentada a outra com mesmo nome que conheço…ai me lembro da outra e lembro o nome…ou por exemplo…se o nome lembra algo…conheci uma pessoa que se chama Oceano…lembro do mar e lembro o nome…

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