O que é mais celebrado neste exagero das festas infantis: o afeto ou o consumo?

Não guardo recordações da festa de aniversário que ganhei dos meus pais para comemorar meu primeiro ano de vida. Só fiquei sabendo que ela existiu depois de adulta, folheando os álbuns de fotografias. Descobri que foi realizada no salão de festas do prédio onde morávamos. Uma festa restrita apenas à família e alguns amigos mais chegados.

Sinto saudade da época em que os eventos tinham a proporção que devem ter. O aniversário de um ano de uma criança que ainda nem tirou as fraldas era realizado em casa, no máximo no salão do prédio ou do clube, e todo mundo era feliz com cachorrinho quente, negrinhos e branquinhos e um bolo com a primeira vela da vida do aniversariante para marcar a data.

Festas de aniversário infantis transformaram-se em shows pirotécnicos. O aniversariante, principal homenageado, mal tem ideia do que está acontecendo. Uma quantidade de excessos que só faz girar cada vez mais rápido a indústria especializada neste tipo de evento. Os valores são colocados lá em cima (partem de R$ 3 mil e chegam a R$ 20 mil). Pais pagam o pacote da exorbitância (muitas vezes em até 12 vezes no cartão).

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Famílias endividam-se para ostentar decorações de isopor, jogos, labirintos, babás em aventais e um cardápio de dar inveja a qualquer catering da Casa Branca. Fiquei chocada a primeira vez em que cheguei a uma festa infantil com uma lembrancinha escolhida a dedo com muito carinho e fui orientada a depositá-la em um baú na entrada da festa. “A criança depois abre todos os presentes em casa”, explicou a recepcionista. No meu tempo, a gente recebia, desembrulhava e agradecia.

Presenciei uma  festa infantil em que a aniversariante de três anos trocava três vezes de roupa para as fotos. Um figurino diferente para cada aninho de vida. O pior é que este modelo vai se difundindo e vira padrão, provocando em muitos pais a insegurança de oferecer uma festinha mais amorosa na comemoração e simples na execução.

Criança não tem noção de tempo. Até os quatro anos não entendem certos rituais. O que mais desejam é correr, brincar e, sobretudo, serem crianças. O resto só faz aumentar a conta e diminuir a diversão. Como diz minha xará Kalil, a Gloria, “o resto é bobagem e gasto inútil”.

Fico pensando se o exagero das festas infantis é uma espécie de ignorância genuinamente nacional entranhada na cultura do nosso país – e me perguntava sobre isso quando topei com o texto de Ivana Ebel, uma brasileira radicada na Alemanha. Reproduzo os principais trechos.

“Quando cheguei aqui na Alemanha notei essa diferença antes mesmo de ter amigos com filhos. Nas lojas e supermercados, o setor das festinhas é bem pequeno. Velinhas, um ou dois brinquedinhos e deu. Pratos, copos, chapéus temáticos são raridade. As decoradoras de festas infantis morreriam de fome por aqui e os adultos gulosos pelos docinhos podem tirar o cavalinho da chuva.

Ninguém por aqui entende o motivo de tanta pompa e circunstância – e eu compartilho esse sentimento: por aqui se celebra muito mais o primeiro dia de aula de uma criança do que o fato de ela fazer mais um ano.

Os primeiros anos dos bebês alemães que vi por aqui foram festejados pelo pai, pela mãe e, em alguns casos, pelos avós. Um bolo na mesa marcou a data, mas a vida não mudou seu curso por causa disso.

E é assim até quando a criança está maiorzinha e passa a ter relações de amizade no jardim. Só então a festinha passa a ser mais importante. Aos 4 anos, ela pode convidar quatro amiguinhos. Aos 5, cinco. O convite para a festa é específico: tem a hora em que os pais devem deixar os filhos na casa do aniversariante e a hora em que devem buscá-los.

Os pais dos convidados não ficam na festa. Geralmente a mesa é posta com bolo, salsichas (claro!) e salgados feitos em casa, não se bebe refrigerante e, depois de comer, as crianças participam de brincadeiras organizadas pela mãe anfitriã. Nessas brincadeiras existem pequenas prendas e no final todos ganham uma sacolinha de balas para levar para casa. Mas a festa não precisa ser necessariamente uma festa. Pode ser apenas um dia especial em que a criança comemora com os amigos em um programa que ela escolheu: ir ao cinema, ir a um parque fazer piquenique, um parque de diversões.

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Na escolinha, nada de frescura. A mãe leva um bolo ou muffins e algo salgado. Podem ser palitos de cenoura ou rodelas de pepino, por exemplo. Nada de decoração. O aniversariante usa uma coroa e é o rei da turma naquele dia. Geralmente se senta em uma cadeira em forma de troninho e é isso. A vida por aqui é muito, muito menos complicada. E menos consumista também.

Quando os pais transformam cada aniversário do filho em um show pirotécnico, o que sobra para eles na hora de festejar o que realmente importa na vida?

Estamos constantemente preocupados em mostrar para o vizinho que a Pepa Pig da festa do nosso filho tem mais purpurina do que Elza do cenário do outro. No fundo, em vez de passarmos tempo de qualidade com quem amamos correndo por um parque ou cuidando do jardim, estamos mais preocupados em decidir o tema da próxima festa de isopor.

É na simplicidade de viver que os alemães e seu jeito austero nos fazem pensar no porquê de tanta complicação. Sem arcos de balões, eles dão de mil a zero na nossa pretensão de sermos calorosos, porque investimos mais nas aparências e convidamos dezenas de pessoas que nem gostamos tanto assim. Apostamos mais no cenário do que nas relações verdadeiras”.

Obrigada por compartilhar, Ivana.
Me sinto um pouco menos uma estranha neste ninho do Brasil.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

16 Comentários
  1. eu considero a festa de um ano, uma festa dos pais, será a minha comemoração por tudo que passamos nessa etapa. Quero toda família e amigos juntos comemorando conosco.
    E nãop vejo problma em fetsas grandes ou pequenas ou em não ter festa, cada yum sabe exatamente o que tem importância para si.
    Eu por exemplo adoro festa, adoro estar em ambientes bonitos e boa comida… e não vejo nada de ruim nisso.

  2. Viva a simplicidade com mais diversão, sem endividamento, sem estrelismo, com maior envolvimento da família em organizar a festa em vez de comprar um pacote pronto de ostentação!

  3. Concordo plenamente com seu artigo sobre festas infantis. Virou comércio infelizmente. Tem até festa de revelação de sexo do bebê. Cha de fraldas eram chá que você levava um pacote de fraldas. Hoje é festa. E o bebê nem nasceu. Saudades daqueles tempos. …

  4. Paisinho sem cultura esse nosso!!!Valores como educaçao,respeito,sendo trocados por ostentacao,luxo,dinheiro…Vergonha dessas mega festas para recem nascidos,”mesversario”,etc…Que palhaçada e ignorancia!As crianças nem curtem,nem lembram.

  5. Baita reflexão! As festas infantis hoje são realmente um exagero, mas isso é só um reflexo de algo bem maior, pois, no geral, qq festa hj virou um grande evento. Falta simplicidade e sobra ostentação.

  6. Parabéns por trazer essa reflexão! Precisamos demonstrar mais afeto, praticar empatia e solidariedade com nossas crianças do que essa parafernália em torno das festas,A tal festa de revelação do sexo do bebê é de “quinta”, não achei nada melhor para definir, kkk

  7. Bravo Mariana! Muito bom. Acho que ninguém vê nada de mal em festa, quem gosta faz, mas não precisa ser como os exageros que vemos em muitas das festas infantis “isopor” (decorações que chegam a ser ridículas), com esbanjamento total, mil futilidades, gastos de milhares de reais (em país com tanta pobreza – que tal fazer algo mais simples, e dar o dinheiro sobrando para aliviar o sofrimento de uma criança que não tem nada?). Sempre fiz festas de aniversário muitíssimo apreciadas (principalmente por, desde meus filhos pequenos, morarmos fora do Brasil onde o que eu fazia já era muito), nada de grandioso – decorações bonitas, mas sem exageros (muitas feitas por mim com os kids, aos poucos, pois sempre trabalhei fora de casa) e jogos interessantes com pequenos prêmios, brincadeiras diferentes, sempre com muito envolvimento de todos e muito sucesso. PONTO IMPORTANTE: Outro problema sério. Hoje em dia fazem festas infantis com SOM muito alto, com caixas de potência acústica que seria exagerada até para night clubs, o que prejudica enormemente os ouvidos principalmente das crianças (conheço esse assunto profissionalmente e já escrevi sobre isso). Infelizmente ninguém se preocupa com a saúde auditiva dos pobres inocentes, muitos dos quase terão efeitos irreversíveis na idade adulta (tinnitus quase certo). Para que o exagero de som? As crianças nem conseguem se comunicar, uma tristeza. Por que o exagero em tudo ???

  8. Assino embaixo!
    Digo isso todos os anos por ocasião do aniversário de minha sobrinha-neta.
    Pior ainda é quando disponibilizam bebida alcoólica.
    Aí sim é que os adultos não vão embora e as criançaa começam a surtar.
    Menos, bem menos ostentação!

  9. MARAVILHOSA a coluna. Ninguém aqui em casa teve problemas psicológicos, pelas festas realistas e familiares que tiveram. Só fizemos uma no clube, com palhaços,com 5 anos e 6 respectivamente e as demais foram em casa com as amigas. Amaram.
    Bjs
    Margareth

  10. Concordo em gênero, número e grau com seu artigo. Cada um faça como quiser e puder, mas me aflige quando vejo algumas pessoas se endividando para fazer uma festa enorme.

  11. A culpa dessa megafestividade com gastos exorbitantes é dos pais que como falastes se sentem inseguros de comemorar de forma simples e amorosa.Chamo de espirito de boiada,todo mundo age igual sem questionamentos.Tambem existe o fato de que assim demonstram que estão bem de vida e não se sentem inferiores aos outros pais.

  12. Adoreiii! Sempre fiz as festas da minha filha em casa, e, uma das coisas que ela mais curte é a função de me ajudar a fazer a própria decoração ( clarooooo, alguns itens compro prontos, mas em geral, nos mesma fazemos) , enrolar o branquinhos e negrinhos ( ainda chamamos assim, com pureza na alma) . Ela, nesta semana completa 20 anos e igualmente faremos a festa em casa e feia de Decorações feitas com os bicos de pelúcia dela, que tanto adora ( minha criança grande, já na faculdade…. mas não perde sua alegria infantil) .
    Mas , muito além das festinhas infantis, o que mais me choca são os chás de Bebê. Perderam sua função primordial – colaborar com o enxoval da criança, é claro reunir as amigas,,e amigos também! Sempre gostei da ideia : cada um leva um prato de salgadinhos ou docinhos e um presente . Atualmente se tornou um espetáculo até a hora de contar o sexo da criança que está por chegar!

  13. Já havia dado minha plena concordância no Insta e torno a fazê-lo: se a festa é de criança e PARA a criança, melhor deixá-la brincar à vontade com quem ela gosta, não cercada de estranhos num ambiente bizarro e artificial,
    Viva os ingleses com seus picnics nas praças; meia dúzia de balões, um bolo e a festa está feita!

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  • Meu pai, meu norte, minha serenidade, minha calmaria, meu aconchego, meu alicerce, minha certeza, minha paz, minha alma. Meu baba, minha estrutura, minha vida. ❤️
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  • No ventre de uma mãe, havia dois bebês. 
Um perguntou ao outro: “Você acredita em vida após o parto?" O outro respondeu: “É claro! Tem que haver algo após o parto. Talvez nós estejamos aqui para nos preparar para o que virá mais tarde. “Bobagem", disse o primeiro. “Que tipo de vida seria esta?". O segundo disse: “Eu não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez nós poderemos andar com as nossas próprias pernas e comer com nossas bocas. Talvez teremos outros sentidos que não podemos entender agora." O primeiro retrucou: “Isto é um absurdo. O cordão umbilical nos fornece nutrição e tudo o mais de que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto está fora de cogitação." O segundo insistiu: “Bem, eu acho que há alguma coisa e talvez seja diferente do que é aqui. Talvez a gente não vá mais precisar deste tubo físico". O primeiro contestou: “Bobagem! E além disso, se há realmente vida após o parto, então, por que ninguém jamais voltou de lá?". “Bem, eu não sei", disse o segundo, “mas certamente vamos encontrar a Mamãe e ela vai cuidar de nós." O primeiro respondeu: “Mamãe? Você realmente acredita em Mamãe? Isto é ridículo. Se a Mamãe existe, então, onde ela está agora?" O segundo disse: “Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Nós somos dela. É nela que vivemos. Sem ela este mundo não seria e não poderia existir." Disse o primeiro: “Bem, eu não posso vê-la. Então, é lógico que ela não existe." Ao que o segundo respondeu: “Às vezes, quando você está em silêncio, se você se concentrar e realmente ouvir, poderá perceber a presença dela e ouvir sua voz amorosa".
✨✨✨
Esta foi a forma com a qual um escritor húngaro explicou a existência de Deus. #amordemae #mamieeu
  • Às vezes, @chico_sperotto consegue me pegar no flagra. #meditandonarede 🙌🏻