Claudia Raia e o perfeccionismo de uma artista completa

A performance artística de Claudia Raia, a elasticidade, a capacidade de cantar, dançar e atuar por duas horas sem intervalo em um musical não é novidade. Afinal, já são mais de uma dezena ao longo de 35 anos de carreira. Mas é preciso admitir que, a cada novo espetáculo, a desenvoltura da atriz impressiona. É como se o tempo não passasse para ela. É como se deparássemos com uma mulher de outro mundo, uma mulher-maravilha, uma super-heroína que aos 51 anos está envolvida com mais um super desafio: o filme musical “Glória a Glória”, estrelado e produzido por ela.

Além de atriz ímpar no cenário artístico brasileiro, Maria Claudia Motta Raia desempenha com maestria os papéis de mãe (de Enzo, 21 anos, e Sophia, 15). Sobre carreira, filhos, beleza, idade e alimentação e amor ela conversou comigo na entrevista a seguir.

claudia-raiaCLAUDIA RAIA: ATRIZ, DANÇARINA E CANTORA, UMA ARTISTA COMPLETA

“Nunca acreditei no meu talento, se é que o tenho. Sempre fui atrás do meu trabalho com empenho”. Você ainda se reconhece nessa frase?
Completamente. O Miguel (Falabella) me disse: “Você é uma pessoa completamente obsessiva, é a 14ª vez que você está repetindo o mesmo pedaço da música”! E eu respondi: “Pois é. Para você pode ser fácil, mas para mim não é”. Tudo na minha vida é muito lutado. Em uma ou duas vezes, eu não consigo atingir meu objetivo. Preciso lutar muito para obter um resultado que considero viável.

Pensamento de perfeccionista.
Pois é, eu sou. E digo mais: mesmo ensaiando a quantidade de horas que eu ensaio e sendo obcecada, como dizem que eu sou, a chance de dar errado ainda é enorme. Para fazer musical, por exemplo, você precisa ter três cérebros: um para canto, outro para dança e o terceiro para representação. São três coisas completamente diferentes e incompatíveis. Ou você luta muito para poder ter um resultado médio nesses três quesitos, ou então você faz mal – por mais talentosa que você seja.

“Acredito piamente que 80% é trabalho, e 20% é talento – e que uma pessoa com menos talento cresce mais do que uma pessoa talentosa. Tudo é questão de trabalho, repetição, insistência. E perfeccionismo mesmo.”

Por trás dessa sua imagem aparentemente perfeita, existe alguma coisa que você não goste em você?
Qual imagem perfeita? (risos) Você está sendo generosa, e eu não compartilho da sua opinião. Eu vou fazer 52 anos e acho que estou bem para a minha idade. Mas, acima de tudo, estou feliz com ela. Essa é a minha grande virtude nesse momento.

Você vem de uma família de obesos. Qual sempre foi o seu maior cuidado para não engordar?
Minha principal preocupação é que minha família, além de obesa, é diabética. Portanto, eu sou uma pessoa que não come doce. Fui treinada, educada para não comer doce. E não gosto. Tenho muito cuidado com açúcar e com alimentação em geral por esse motivo. A obesidade da minha família vem da diabete, e eu preciso ser vigilante, porque amo comer.

O quê?
Carne vermelha. Eu amo, e como. Mas com moderação.

Você engordou na época da novela A Favorita. O fato de ser sua primeira protagonista em horário nobre pesou?
Acho que foi tudo um pouco. Foi o peso da protagonista, o excesso de trabalho e também uma maneira, acredito que inconsciente, de provar que minha carreira não está ligada à beleza ou à forma física. A personagem Donatella Fontini não precisava da Claudia Raia incrível, vamp, magra. Foi um trabalho de atriz que me exigiu muito, e eu acabei engordando.

Para uma atriz deve ser libertador constatar que o talento está acima da forma física, não?
É isso, sabe? Durante a vida inteira, minha imagem foi aliada à forma física, à beleza. Isso é ótimo, e eu não rejeito, pelo contrário, acho um plus. Mas o gostoso é brincar com isso. Na hora em que preciso da minha altura, da minha exuberância, da minha sensualidade, eu posso usar. Quando não preciso, posso fazer um Tonhão, uma sapatona, que todo mundo acha graça e ninguém lembra da sex symbol. Ser atriz é isso.

“É claro que pretendo sempre ficar bem com a minha imagem, mas não quero ser refém da beleza e nem da minha juventude, porque ela não será eterna. Não adianta sofrer com isso. Tem que saber administrar.”

Você diz que sua boca e seu abdome são sua melhor genética, mas que vive em guerra com seu bumbum. O que faz para que a lei da gravidade não atue sobre ele?
Ah, minha filha… Estou quase colocando um suspensório de bumbum, porque é puxado. Ou, então, andando por aí plantando bananeira (risos).

Suas pernas seguem seguradas em US$ 1 milhão?
Não. Essa história virou uma novela. Não fui eu que fiz o seguro, foi a seguradora que me patrocinava. As pessoas acham que eu segurei minhas pernas em US$ 1 milhão, mas não é verdade. Esse seguro durou um ano e meio. Depois, ninguém mais dava R$ 0,50 por elas. Hoje, minhas pernas estão mais inseguras do que nunca (risos).

“Lembro que na adolescência eu era horrível. Colocava algodão para aumentar meu peito e não sabia me maquiar. Era um pequeno travesti.”

Para uma mulher ativa, acredito que a perspectiva da passagem do tempo e as privações físicas que isso acarreta devam causar algum temor. Você pensa nisso?
Não, eu não penso em nenhum tipo de privação, porque tenho uma vida muito saudável e vejo pela frente um futuro muito ativo. Eu vou fazendo as coisas que forem possíveis. Para uma pessoa, como eu, que fez exercício a vida inteira e que vive do exercício, acho bastante improvável que algum malefício físico aconteça.

Você faz análise como um tratamento preventivo contra coisas que fogem ao seu domínio, como envelhecer. Em que ponto a análise mais tem ajudado?
A análise me ajuda muito a administrar os meus filhos. A maternidade mudou tudo na minha vida. Mudou as prioridades, os valores. A análise me faz entender que eu posso estar errada, posso ter plantado alguma coisa errada na vida deles, mas que a grande sacada é não deixar esse erro enraizar. Plantar errado todo mundo planta, todo mundo erra. O segredo é você perceber a tempo, admitir e corrigir o curso da história.

A análise me ajuda a organizar a minha história, porque o meu passado eu não posso mudar.

A relação de você e Edson Celulari, seu ex-marido, com seus filhos é bastante aberta?
Completamente. Falamos sobre tudo com eles. E eles ouvem tudo, assimilam, são muito bacanas e calmos. Tudo que fazemos, toda a criação que damos para o Enzo e para a Sophia é muito embasada, muito explicada, muito plantada. Enfrentamos uma batalha diária pela sanidade mental de nossos filhos. E é compensador perceber que essa luta está valendo a pena.

“Nosso casamento deu muito certo. Antes que não desse mais certo, a gente transformou esse amor. O que as pessoas não entendem é que nem toda separação tem barraco. Aqui não vão ver sangue, só amor.”

“Dizem que o amor acaba, que o amor termina. Mas, não é verdade. Nada acaba… Tudo dura, continua e se transforma.”

Como você administrou na infância de seus filhos e ainda administra eventualmente dentro de você a ausência em casa exigida pelo seu trabalho?
Quando me ausento de casa por motivos profissionais, explico a meus filhos que estou indo atrás dos meus sonhos. Essa é a grande mensagem que posso deixar para eles. Lembro que, na época do musical Sweet Charity, quando eu também ficava muito ausente de casa, tive três dias de folga e levei os dois para o alto de uma pedra, lá em Búzios. Disse a eles que sonhava em fazer esse musical havia 20 anos, que estava tendo, naquele momento, uma grande oportunidade e que estava muito feliz por poder ir atrás desse sonho. No dia da estreia, o Enzo entrou no camarim, me deu um beijo e disse: “Mamãe, meus parabéns. Valeu a pena você ir atrás do seu sonho”. Portanto, posso dizer com certeza que eles entendem a minha carreira.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

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