Abandonaremos definitivamente o salto alto? Entenda este momento da moda!

Há uma cena do filme “Em Busca da Esmeralda Perdida”, em que Michael Douglas, que faz o papel de um aventureiro, e Kathleen Turner, uma escritora de romances à procura da sua irmã que foi raptada, correm pela selva colombiana. Na cena, Douglas retira de Turner os sapatos que calçava e que estão, naquele ponto, cobertos de lama. Corta-lhes os saltos com uma faca.

– Eram italianos – diz Kathleen Turner.
– Agora são práticos – argumenta Michael Douglas.

Será que estamos destinadas a cortar os saltos altos da nossa vida? O gosto e a preferência das mulheres por sapatos mudou muito nos últimos dois anos. Elas já não acham que um par de Nicholas Kirkwood com um salto de 12 centímetros seja o sapato mais importantes do guarda-roupa. Em vez disso, sonham com um par de sapatos da marca coreana Yuul Yie, cujos saltos em bloco ou modelos rasos são tudo menos vertiginosos.

sapatoMODELO DA YUUL YIE: MARCA COREANA EM ALTA NA LISTA DE DESEJOS

A santa trindade dos saltos – Manolo Blahnik, Jimmy Choo e Christian Louboutin – ocupava dominante as prateleiras das lojas com as quais as mulheres sonhavam nos anos 1990 e início de 2000. Mas hoje, marcas como a Gray Matters, Maryam Nassir Zadeh e Mansur Gavriel agitam o mercado com os seus designs minimalistas e literalmente pé no chão.

gray-matters-shoesCOLEÇÃO GRAY MATTERS: CONFORTO NO SALTO MÉDIO E QUADRADO

No filme “O Diabo Veste Prada”, a transformação da personagem de Anne Hathaway começa no momento em que ela aceita um par altíssimo de sapatos Jimmy Choo. Hoje, é provável que a sua personagem optasse por um par de mules Gucci, abertas no calcanhar.

Sidney Morgan-Petro, analista da empresa de visão de tendências World Global Style Network confirma em entrevista à revista Elle americana:

– Olhando até tão longe quanto 2019, os saltos altos não fazem parte do capítulo principal da história da moda – garante.

Morgan-Petro atribui o declínio do salto ao contínuo domínio da tendência do sportswear, mas também à clara influência dos anos 80: uma era de kitten heels e saltos robustos. Ainda assim, prevê que os saltos altos continuem a ter um lugar na nossa vida.

– A vida diária vai tornar-se tão casual que o interesse em arrumarmos para ocasiões especiais com um par de saltos altos vai aumentar.

gucci-resort-2018-socksMODELO GUCCI RESORT 2018: KITTEN HEEL COM CIRCUNFERÊNCIA ROBUSTA

Contudo, a praticidade, para o dia e para a noite será a regra.

– Mesmo as tendências de saltos altos que estamos vendo dão muito mais ênfase ao conforto – diz ele, apontando como exemplo os sapatos da coleção Resort 2018 da Gucci. O analista considera ainda que o ambiente político, que tem destinado mais espaço às mulheres, influencia as nossas escolhas de calçados práticos.

– O movimento feminista teve muito impacto nesta indústria. A erosão dos estereótipos de gênero e a invasão de t-shirts com frases como “The Future is Female” vai tornar mais complicada a volta do salto no mercado – prevê. – Afinal, quem é que quer marchar em cima de um Manolo Blahnik? Esta não é a primeira vez que abandonar os saltos serviu de metáfora para libertação.

+SAÚDE: Júlia Roberts descalça no red carpet: pelo fim da ditadura do salto alto

A ligação entre saltos altos e a noção tradicional de feminilidade data do século 17, quando a graça e a elegância eram as maiores qualidades de uma mulher. Os sapatos pouco práticos estão tão ligados ao olhar masculino: as primeiras imagens eróticas, de 1850, retratavam mulheres vestidas apenas com um par de saltos altos.

– Os saltos altos tornaram-se sinônimo de desejo, manipulação sexual e irracionalidade. No século 19, quando as mulheres começaram a exigir o direito ao voto, foram deixados de lado.

pigallePIGALLE, DE CHRISTIAN LOUBOUTIN: 8,5CM DE SALTO SOA COISA DO SÉCULO PASSADO

Mas a moda é sobretudo cíclica. Praticamente cem anos depois, Christian Louboutin apresentava os agora icônicos Pigalle – com um salto extra fino de 8,5 centímetros sobre um solado glamorosamente vermelho a preços estratosféricos. Monsieur Louboutin estava ele próprio consciente disso, tendo inclusive afirmado em 2011 à revista The New Yorker que odiava a palavra “comfy” (diminutivo para confortável).

Foi preciso chegar a Céline de Phoebe Philo para descermos dos saltos periclitantes. Quando, em 2013, apresentou uns chinelos tipo Birkenstock com pelo, a designer agitou a Semana de Moda de Paris. Neste momento, este tipo de calçado está disseminado: desde a marca independente Brother Vellies à gigante Fenty Puma de Rihanna.

fenty-pumaSLIDE FENTY PUMA: CONFORTO DISSEMINADO

celineCHINELOS COM PELO PROPOSTO POR PHOEBE PHILO EM 2013
O slide à la Birkenstock entrava para o universo da moda para não mais sair

Phoebe Philo também influenciou as nossas escolhas com o seu estilo pessoal. Quando a designer saiu para agradecer, em 2011, no final do desfile da grife, com uns Stan Smith da Adidas nos pés, causou uma febre pelo modelo. Até Victoria Beckham, cujo amor por sapatos impossivelmente altos está documentado, trocou os Louboutin por tênis, afirmando ao jornal britânico The Telegraph, em 2016, “já não posso usar saltos”.

victoria-beckhamVICTORIA BECKHAM DE TÊNIS BRANCO ADIDAS
Uma das maiores embaixadoras do stiletto também desceu do salto

stan-smith-adidasjpgPHOEBE PHILO DE ADIDAS NO FINAL DO DESFILE DA CÉLINE EM 2011
Pioneira em tornar a marca alemã novamente um ícone fashion feminino

Outros designers seguiram o caminho de Philo.

– O fato de que os saltos altos causam dor nunca foi levado a sério – observa Mari Giudicelli, modelo e designer de sapatos, cuja linha de mules retrô raramente ultrapassa os três centímetros de altura. – A minha rotina envolve caminhar, pedalar e andar de metrô. Por isso, os saltos não fazem sentido para mim – explica, acrescentando ainda que muitas vezes sacrifica o design pelo conforto.

Mas nem todas as mulheres se sentem confortáveis com sapatos baixos. A designer Dolly Singh adora quão empoderada e feminina um salto alto a faz sentir. Por isso, há três anos, recorreu à sua equipe de engenheiros para desenvolver uns sapatos de salto alto realmente confortáveis. O resultado é a Thesis Couture, que combina o luxo italiano com a tecnologia de Sillicon Valley e utiliza princípios por trás do design de próteses e da engenharia aeroespacial. Singh planeja vender a patente do design a marcas de luxo.

thesisTHESIS COUTURE: FÓRMULA TECNOLÓGICA ALIADA DO SALTO ALTO

Só o tempo dirá se estamos em meio a uma travessia de mudança nas tendências de calçados ou se estamos só vivendo mais um desses ciclos da moda. O certo é que se abandonarmos definitivamente o salto alto não será por imposição de nada nem de ninguém. Será, sim, por escolha própria.

  • Este texto foi traduzido pela equipe do site MK e está originalmente publicado na edição impressa da revista Elle americana de novembro.
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1 Comentário
  1. Mari tudo bem acompanho seus posts.
    Comprei um vestidinho Midi em uma loja departamento uma.graça
    Consigo usa lo p trabalhar.
    Rendadinho creme clarissimo

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