Blog da Mari: “Meu amor platônico por um pop star que virou pastor evangélico”

Houve uma época em que o coração das adolescentes de 13 a 15 anos dividia-se entre Menudo e Dominó. O quinteto porto-riquenho Charlie, Ray, Roy, Robby e Ricky dividia o centro das atenções do mundo das fãs apaixonadas com o quarteto brasileiro Afonso, Nill, Marcos e Marcelo. Não lembro de ter sofrido tanto por amor. Foi uma flechada à primeira vista.

Me dirigia ao banheiro para escovar os dentes antes de dormir, quando cruzei pela sala e percebi que havia deixado a televisão ligada. Me aproximei para desligá-la quando o apresentador Gugu Liberato chamou aquela nova banda ao palco para apresentá-la à plateia – e ao Brasil. Um a um, eles entraram em cena acenando alegremente para o público de mulheres histéricas. Foi então que senti como se o mundo tivesse feito uma pausa.

nilELE APARECEU NA MINHA VIDA

Tudo ficou em silêncio, perdi a noção de tempo e espaço. Acabava de reconhecer, do outro lado da tela, minha alma gêmea, o grande amor da minha vida, o príncipe encantado que viria me buscar em um cavalo branco para cavalgarmos rumo ao nosso castelo encantado. Lenilson dos Santos, o Nil, tornava-se naquele momento, minha nova razão de viver.

Sentei no sofá e fiquei imóvel, hipnotizada pelo magnetismo que saía dos olhos amendoados daquele rapaz moreno em minha direção. Éramos feitos um para o outro. Quando Gugu pediu ao grupo que apresentasse o novo hit, me vi saracoteando de pijama no meio da sala, imitando a coreografia de “Companheiro”, numa espécie de celebração do amor.

Companheiro/ Companheiro vem
Vem no balanço do mar
Vem depressa / Vem depressa vem
É tão gostoso dançar

domino

Minha vida passou a girar em função de Nil e Dominó. Consumia todas as revistas de fofocas que traziam uma reles fotografia da banda, recortava e colava em folhas brancas de papel ofício todas as capas, matérias, registros e notas sobre eles, guardava essas folhas brancas em sacos plásticos acomodados em uma pasta preta com capa de couro – e esta pasta ficava escondida na parte de cima do meu armário para que ninguém jamais desconfiasse da paixão até então não correspondida. Porque, sim, tinha certeza: um dia, Nil me reconheceria em meio à multidão, nossos olhares se cruzariam e, então, ele me estenderia a mão para, juntos, formarmos uma só alma.

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Enquanto esse momento não chegava, me contentava em acalentar em silêncio nosso amor junto ao peito – e admirava, noite após noite, antes de dormir, a constelação particular que havia criado para nós dois no teto do meu quarto. Dúzias de cartelas de estrelas Starfix que brilhavam no escuro tinham sido compradas a fim de desenhar com pontinhos reluzentes naquele céu imaginário as palavras Mari & Nil envoltas por um coração de brilhante. Não perdia um programa na tevê, guardava todos os LPs que o grupo lançava, sabia de cor todas as letras de todas as músicas e sonhava, ano após ano, com o dia em que Nill e eu ficaríamos frente a frente para ele enxergar em mim a Cinderela de sua vida.

O grupo Dominó fez muito sucesso no Brasil

Um belo dia após o almoço, lia o jornal no jardim de casa quando deparei com a notícia esperada por quase uma eternidade: Dominó viria a Porto Alegre para um show. Mas isso era o de menos. O quarteto receberia as cem primeiras fãs que chegassem na porta de uma rádio da cidade com o LP para ser autografado. Liguei imediatamente para uma amiga que amava o Marcelo para combinar o plano de ação.

Ficou decidido que a mãe dela nos levaria ao aeroporto para esperar a chegada do avião do grupo e o meu pai nos buscaria e levaria direto para a rádio. Poucas vezes senti nos olhos do meu pai uma reprovação tão severa e endurecida como naquela fatídica tarde de primavera de 1985, quando cruzei na frente do carro, com os braços para cima, gritando atrás da van que conduzia meu amor para longe de mim.

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Pai descarregou as dupla de dementes na porta da rádio, onde uma imensa fila já se formava. Pela contagem que conseguimos realizar meio por cima, estávamos incluídas entre as cem predestinadas a momentos a sós com seus prometidos. Era a chance inadiável de Nil saber que seu grande amor existia. Só que o tempo foi passando e a fila não andava como a produção havia imaginado.

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Quando ainda faltavam umas 30 fãs à nossa frente, anunciou-se que, por motivo de força maior e pelo adiantado da hora, a promoção estava suspensa a partir daquele instante. Eu mal podia acreditar. Uma vida inteira esperando por aquele momento, tantos dias e noites com o coração oprimido de paixão e, quando tudo parecia convergir para o inevitável final feliz, aquele balde de água fria.

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Voltei para casa andando a pé pelas ruas da cidade, arrasada, deixando rios de lágrimas pelo caminho. Passei horas a fio trancada no quarto, folheando aquela pasta com coleções e mais coleções de recortes, tentando compreender o motivo para o destino me reservar aquela condenação. Desisti de ir ao show, arranquei todas as estrelas do teto, passei os meses seguintes dolorida sem querer ver ou ouvir falar de Dominó.

As provas de final de ano chegaram, venci como pude a média mínima para passar sem recuperação, fui aprovada para a oitava série e, no primeiro dia de aula daquele 1986, quando aquela paixão doída já se transformava em uma quase cicatrizada ferida, avistei ao longe, saindo do bar da escola, o sósia de um outro artista por quem meu coração irradiava uma certa chama.

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Ralph Macchio, o ator intérprete de Karatê Kid, ora veja só, estudava um andar acima do meu – e só eu ainda não sabia. No meio do pátio, ao som da buzina que ordenava aos alunos que voltassem para a sala de aula, me vi imóvel, hipnotizada pelo magnetismo que saía dos olhos amendoados daquele rapaz moreno. Éramos feitos um para o outro. Mas isso já é outra história.

tudo tem uma primeira vez

 

 

 

 

A crônica “Fui uma Fã Apaixonada” é parte integrante do livro “Tudo tem uma Primeira Vez”, de Mariana Kalil, publicado pela editora Dublinense.

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mariana

mariana

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é sócia-diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

1 Comentário
  1. Sou dessa época, mas meu “namoradinho”de adolescência hoje é meu melhor amigo. Puxamos as orelhas um do outro,porque queremos que o outro esteja sempre bem. 35 anos que ocupamos o coração do outro.

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  • Vamos colocar as garras de fora ou descascar um abacaxi?
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