Diário da Mari: “Estou com José Padilha: não podemos perder a sensibilidade para o absurdo”

Há pouco mais de um mês, desde que cheguei aqui em Punta del Este, no Uruguai, incorporei alguns hábitos simples, básicos e felizes à minha rotina. Ando de bicicleta pela cidade, corro na península ouvindo música no smartphone, passeio com meus cachorros de manhã, à tarde e à noite, frequento a pé as sorveterias Freddo e Arlecchino para o prazer de saborear duas bolas de sorvete de sobremesa após o jantar, entro e saio de carro da garagem sem sobressaltos… Enfim, vivo uma vida digna de cidadã.

claqueteCORTA!

Da última vez que saí de bicicleta em Porto Alegre, tinha como destino o Mercado Público. Era sábado e queria apenas aproveitar o lindo dia para uma pedalada até o Centro e o prazer de sentar à mesa do restaurante Gambrinu’s. Passei a metade do percurso fugindo de um potencial assaltante que viu em mim uma presa fácil. Terminei o passeio sem chegar ao destino, com a bicicleta embaixo do braço, refugiada dentro da Estação Rodoviária e pedindo socorro ao meu marido pelo telefone.  Sim, o assaltante seguia à espreita, de língua de fora feito cachorro na frente daqueles fornos de frango de padaria.

claqueteCORTA!

Da última vez que resolvi responder à mensagem de texto de um WhatsApp, também era sábado, por volta de meio dia, e eu caminhava na Rua 24 de Outubro, em Porto Alegre. De repente, senti um bafo na nuca. Nem cheguei a virar o pescoço para trás. Bastou um rápido olhar de soslaio para a direita para perceber o iminente roubo que um sujeito de boné e não mais de 20 anos de idade preparava para cima de mim. Por sorte, estava justamente naquele momento em frente ao prédio da minha irmã. Fui mais rápida. Caí rapidamente para a esquerda e pedi ao porteiro que, por favor, abrisse logo a porta. Na recepção, sentei à espera de que o sujeito fosse embora. Na frente do prédio ele ficou por mais de 20 minutos até que eu tive a ideia de pedir ao mesmo porteiro que abrisse a garagem do edifício, localizada na rua lateral, e por lá eu saí em disparada feito criminosa.

claqueteCORTA!

Da última vez que meu marido e eu não olhamos simultaneamente pelos três retrovisores do carro ao entrar na garagem de casa, em Porto Alegre, sempre com o coração na boca, fomos surpreendidos por dois homens armados que chutaram, bateram no meu marido e ordenaram que eu entrasse no banco de trás para me levar para algum lugar e fazer comigo sei lá o quê. Meu marido disse que eu não entraria e a única alternativa que tivemos foi sair correndo para dentro do prédio, infringindo as instruções daqueles dois delinquentes, que poderiam facilmente ter dado fim às nossas vidas com dois tiros covardes pelas costas não fosse a luz do edifício espocar na cara deles.

NA HORA CERTA!

A mãe que vai buscar o filho na escola é assassinada com tiros à queima-roupa, a dona de cachorro que sai para passear tem o animalzinho de estimação arrancado dos braços, o pai que entra no posto de conveniência com os filhos pequenos para comprar pão é surpreendido por uma gangue armada até os dentes, o empresário que sai para pedalar após o expediente não volta para casa. É morto a facadas. “Tu é louca de caminhar na rua digitando no celular”, disse uma amiga no episódio da Rua 24 de Outubro.

chocada61HÃ??!!

mulher-questionando1-202x300-336x499A LOUCA SOU EU??!!

Estou privada de falar no celular enquanto passeio em uma via pública, estou impedida de pedalar minha bicicleta sob pena de ser esfaqueada, tenho síndrome do pânico cada vez que abro a garagem de casa para entrar com o carro, deixei de curtir o passeio matinal com meus cachorros com medo de sequestro animal e, depois das 9h da noite, eu que não seja imbecil de cruzar as grades do edifício para ir até a esquina comer um sorvete. Afinal de contas, se algo me acontecer, a culpa é minha. Quem mandou sair de casa numa hora dessas?

ma%cc%83os-nas-grades-730x575QUIETINHA AÍ!

Dia desses, assistia uma entrevista com José Padilha, diretor de Tropa de Elite e de uma futura série obre a Operação Lava-Jato, quando ele resolveu falar pela primeira vez sobre o porquê de ter deixado o Rio de Janeiro e levado a família embora para Los Angeles. Vítima de uma tentativa de sequestro, foi imediatamente aconselhado a andar cercado de seguranças. Não só ele, como a mulher e os filhos. O que fez? Preferiu dar um adeus para o Brasil, partir para bem longe e ganhar a liberdade de volta.

3841285CERTÍSSIMO, PADILHA!

Uma frase dita por Zé Padilha sintetizou magistralmente tudo o que está se passando conosco, vítimas deste país corrompido, marginal, que furta de todos nós, diariamente, o direito básico de ir e vir com segurança. Falou Padilha: “O brasileiro perdeu a sensibilidade para o absurdo”.

WOMAN-CONFUSED-facebook-752x376ESCUTARAM?

“O brasileiro perdeu a sensibilidade para o absurdo”.

Esta temporada de liberdade a qualquer hora do dia ou da noite que tenho desfrutado aqui no Uruguai e em qualquer país com o mínimo de decência só me abriu ainda mais os olhos para esta sensibilidade para o absurdo que andava perdendo. É a falta dela que vai nos matar enquanto cidadãos de bem. É dela que precisamos para não achar todo este disparate normal. Não é normal. Nunca foi normal – e nossa sensibilidade para o absurdo jamais permitirá que seja normal. Que não a percamos, pois.

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mariana kalil

mariana kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

5 Comentários
  1. Bah, Mari…sem palavras!
    Falou tudo! Tô contigo nessa – vivemos um absurdo. Vivemos nós atrás das grades, longe da liberdade.
    Tomara….tomara que um dia- nem sei se estarei viva até lá- a coisa mude e quem fique atrás das grades sejam os maus.

  2. Falou tudo. Não suporto mais ter que andar num eterno estado de tensão, ficando à espreita, esperando pelo bote do predador. É como levar uma injeção no braço. A maioria fica ali, de olhos fechados, esperando a picada. Me sinto assim em Porto Alegre e outras cidades grandes. Depois de ler teu texto fiquei pensando que eu também comento “que retardado, dando banda no alto Petrópolis com um carro daqueles era certo que daria merda”.
    Adoro o Uruguai. Não é um país perfeito e Punta é uma pequena ilha no meio daquela gente mais simples na volta. Mas veja que, mesmo assim, não acontece nada. Estive no mercado público em Montevideu e fomos alertados sobre ter cuidado por ali. Ok, o local é velho e parece que vai sair alguém de dentro daquelas casas antigas para te pegar. Mas… cheguei a pé no Teatro Solis e nada aconteceu.
    Sempre tive um sonho oculto de sair daqui. Mesmo que fosse para morar em um país como o Uruguai, o qual adoro.
    Me desculpem os puristas e nacionalistas ao extremo: mas estamos só uns 500 anos atras dos europeus e não conseguirei ficar vivo até lá. Se quiserem ficar e tentar mudar 500 anos de atraso, go for it. Eu vou largar de mão e levar minha esposa e o filho na sua barriga para um lugar que eu possa viver de verdade, e não ser parte de um rebanho alimentado por medo.

  3. Bah Mari, teu texto veio a calhar, ontem, minha irmã sofreu um sequestro relâmpago em POA, na Dona Laura. Graças a Deus, o ladrão levou dinheiro e outros pertences, danos materiais, mas não fez nada com ela. Ficamos apavorados. Ela se cuida tanto, isso aconteceu meio dia, a rua movimentada, ela viu que o cara iria abordá-la, mas estava presa entre os outros carros. Muito triste nossa cidade. Eu estou morando no interior, mas fico muito preocupada. Aqui, esse tipo de assalto é raro, mas temos furtos, não se pode deixar nada no pátio. Um beijo e aproveite por aí.

  4. Parabéns disse tudo que eu achava. Nós brasileiros empresários, trabalhadores, estamos sitiados pela bandidagem. Temos que ficar indignados com está situação. Por este motivo saí de Porto Alegre, estou morando no interior.

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