Diário da Mari: “Paula”, o livro que me fez chorar (copiosamente) pela primeira vez

Todos os amantes da leitura têm sua lista de escritores preferidos. Os meus variam em tudo – estilo, nacionalidade, linguagem, sexo, época. O japonês Haruki Murakami, o colombiano Gabriel García Márquez, o peruano Mario Vargas Llosa, os argentinos Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, o espanhol José Ortega y Gasset e os brasileiros David Coimbra, Ivan Martins e Luiz Felipe Pondé vivem no meu coração de leitora, assim como a norte-americana Elizabeth Gilbert, a inglesa Jane Austen, a espanhola Rosa Montero, minha conterrânea Martha Medeiros e a chilena Isabel Allende. É sobre esta última que quero falar: Isabel Allende foi a primeira autora a me fazer chorar.

Em uma viagem de dez dias ao Chile, levei “Paula” comigo por recomendação da minha mãe, que acabara a leitura aos prantos.
– É tão triste assim, mãe? – perguntei, um pouco ressabiada diante da equação leitura pesada versus férias divertidas.
– Lembrei muito de ti lendo o livro, minha filha – ela respondeu.
– De mim, mãe? Por quê?
– Olha a capa! – ela mostrou. – Vai dizer que vocês não são parecidas?

paula-isabel-allende-679x1024CAPA DE PAULA

Pior é que minha mãe tinha razão. Havia um quê de Paula em mim; ou de mim nela. Uma foto em preto e branco da filha de Isabel Allende estampava a capa da segunda edição da obra que levava seu nome. Ela usava cabelo inteiro e comprido, era morena e sardenta, como eu. Prontamente houve uma identificação entre nós, com importante ressalva: o livro havia sido escrito pela mãe, Isabel, no leito de morte da filha, Paula, que sofria de uma doença degenerativa. Nada tinha a ver com a história da mãe, Iolanda, e de sua filha, Mariana, que gozava de plena saúde. Mas vai enfiar isso na cabeça de uma hipocondríaca?

Passei dez dias no Chile vivendo as dores de Paula. Embarquei de tal forma naquela viagem insana de me achar parecida com ela em tudo que logo me senti também paciente em estado terminal de porfiria. As porfirias constituem um grupo de pelo menos oito doenças, herdadas e adquiridas, que ocorrem em decorrência da produção excessiva e do acúmulo de substâncias químicas que produzem porfirina – proteína responsável pelo transporte de oxigênio na corrente sanguínea, essencial para a produção de hemoglobina. Eu nunca tinha ouvido falar dessa doença na vida e agora me sentia íntima dela e à beira da morte, feito Paula.

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A diferença entre nós duas era, digamos assim, básica. Enquanto a Paula verdadeira agonizava num quarto de hospital em Madri, vítima de um problema real, a Paula falsa tomava banho de sol na piscina do hotel Grand Hyatt, com direito a caipirinhas à disposição, decoradas com sal e rodelas de limão no copo, delirando com uma doença imaginária. Prisão de ventre, insônia, ansiedade, dormência e formigamento são alguns sintomas de porfiria. Eu sentia todos. Se acordava de manhã com o braço formigando porque havia dormido em cima dele, ia morrer. Se despertava no meio da noite e demorava para dormir, ia morrer. Se ficava dois dias sem ir ao banheiro, está vendo? Porfiria!

mulher-hysteria3EU VOU MORRER

Só faltou lembrar que todos esses sintomas são normais e comuns em qualquer viagem que faça. Sempre. Se tivesse que morrer de prisão de ventre, teria morrido na Inglaterra, quatro anos antes, quando fiquei quinze dias sem ir ao banheiro. Na terra da rainha, passei a quilômetros do trono. Agora, no Chile, alternava momentos de encarnação em Paula e momentos desencarnados em Mariana. Nos momentos Mariana, me divertia, visitava lugarzinhos inusitados e pontos turísticos de Santiago, desfrutava das delícias do hotel cinco estrelas, frequentava o SPA, fazia massagens. Nos momentos Paula, mergulhada nas páginas do livro, meus ombros caíam e meus olhos fixavam um ponto perdido, derramando lágrimas e lágrimas em cima das palavras de Isabel Allende.

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No quarto do hotel, de pijama, me olhava no espelho e mal me reconhecia. Enxergava um ser moribundo, com os dias contados, tentando encontrar qualquer motivo para aquela infelicidade de ter a vida interrompida assim, tão brusca e dolorosamente.

bento1124ELA ACREDITA QUE É BEM CERTA

Paula é considerado até hoje, vinte e um anos após sua publicação, o trabalho que teve a melhor resposta do público, segundo a autora. Isabel guarda milhares de cartas e mensagens de leitores endereçadas a ela oriundas de todas as partes do mundo. Faltou a minha para contar que, durante os dez dias em que passei no Chile, convivi com Paula na antessala da morte e só desencarnei de vez quando terminei a leitura, dois dias antes de voltar para casa. Para felicidade da minha mãe verdadeira, ressalte-se, mas sobretudo para minha própria sorte, que escapei de morrer de porfiria, mas poderia ter passado um bom tempo internada na solitária de algum manicômio mais próximo – com causa mais do que justificada.

capa livro tudo“A primeira vez que chorei lendo um livro” é parte integrante de “Tudo tem uma Primeira Vez”, meu terceiro livro.

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mariana

mariana

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é sócia-diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

2 Comentários
  1. Encontrei o seu Blog por mero acaso e a Página no Facebook, encontrei-a aqui.
    Gosto da sua maneira de escrever. Vi a sua lista de escritores, tenho pena que não conste nenhum português, pois existem muitos… e bons.Deixo alguns nomes de escritores consagrados da literatura portuguesa: Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, José Saramago (prémio Nobel da Literatura) Al Berto, (poesia) Alexandre Herculano, Eça de Queiroz, Alexandre O’Neill, Almeida Garrett, Miguel Esteves Cardoso, Rita Ferro, Natália Correia, António Lobo Antunes, António Ramos Rosa, Florbela Espanca, Luís de Camões-Renascimento, considerado um dos maiores poetas, não só da literatura portuguesa, mas da língua portuguesa, até hoje. Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga, Júlio Dinis, Antero de Quental, Miguel Sousa Tavares.Estes são os que me vieram à memória, existem os mais recentes, mas provavelmente não devem estar â venda no Brasil. Desta pequena lista espero que consiga encontrar algum…

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