O aperto no peito é ansiedade. Não sou a única. Somos muitas!

Conheço Adriano Silva de longa data. Trata-se de um jornalista genial. Trabalhei uma única vez com Adriano, à distância, quando vivia em Barcelona – e de frilas (trabalhos avulsos que jornalistas fazem para veículos de comunicação). Na época, setembro de 2003, Adriano era diretor de redação da revista Super, da Editora Abril, e entreguei para ele um texto enorme intitulado Visto, Logo Existo (se tiverem curiosidade de ler, basta clicar no título!). Eis o resumo da reportagem: Mais do que um artefato no mercado das vaidades, a roupa ajuda tanto a definir um indivíduo quanto a explicar a humanidade.

Como comentava aqui ontem, ando me sentindo fechada para balanço, olhando para frente, para trás, me olhando no espelho…. Sempre com um sentimento de alguma coisa estranha apertando o peito. Tristeza? Melancolia? Apreensão? Sabe quando a gente não sabe ao certo identificar o que é? Pois eu não sabia até topar com um texto que o Adriano escreveu. Resposta: ansiedade.

galvaoPODE ISSO, ARNALDO?

Sim, pode. O texto do Adriano foi um alento na minha vida, porque me deu um diagnóstico – e me deixou aliviada. Finalmente, eu havia descoberto que estranha sensação era essa. Não que eu tenha ficado feliz, ressalte-se.

mulher-doidissima5-594x4991SENTIMENTO MALDITO

Então, me deu uma vontade louca de compartilhar o texto do Adriano aqui no site. Escrevi para ele, que hoje é publisher do Projeto Draft – um dos sites brasileiros mais bacanas que conheço e sugiro muito a todas vocês, se ainda não conhecem, visitarem e colocarem entre os favoritos. Adriano gentilmente liberou o artigo para o site MK, que está publicado em seu último livro, lançado no ano passado.

prefacio_ansiedadecorporativaVALE A LEITURA
“Ansiedade Corporativa – Confissões sobre estresse e depressão no trabalho e na vida” (Rocco, 2015), o segundo episódio da série O Executivo Sincero.

adriano_silva_projeto_draft_confeitaria_magOBRIGADA, ADRIANO SILVA!

shouting-woman1APROVEITEM!!

Ansiedade é pior que câncer
Por Adriano Silva

É ridículo, é estúpido, é cruel. Mas é verdade. A ansiedade é um processo doentio que pode fazer o sujeito sofrer mais do que uma doença física.

O ansioso não sofre com a realidade, mas com a expectativa. O ansioso se lastima menos com uma situação real, ainda que terrível, do que com a antecipação dessa situação, que ele sofre terrivelmente.

O ansioso prefere a falência do seu empreendimento, uma situação concreta para ele enfrentar, do que uma possibilidade de sucesso, de onde advém toda sua angústia e sua insônia.

E qual é a primeira coisa que o ansioso fará, logo depois de resolvida uma situação que atiçava a sua ansiedade? Vai recusar o momento de relaxamento e procurar, ou engendrar, tão logo quanto possível, outra situação que lhe sirva de fonte de desassossego, para voltar a roer as unhas e produzir suco gástrico.

Mal atingem uma determinada meta, os ansiosos já se impõem um novo desafio. De preferência mais espinhoso e inexequível. Ou seja: já começam a sofrer de novo. Sofrimento non stop. Ansiosos são estoicos. Mais do que isso: são masoquistas.

Eis o que o ansioso não percebe: o sucesso não é uma meta, é um processo. Estamos sempre em movimento e o êxito não é senão continuar caminhando com alegria, esperança e serenidade em direção a ele. O sucesso não é um patamar fixo a ser alcançado – mas um movimento diário, em que a única coisa garantida é a necessidade de continuar em movimento, andando, um passo de cada vez, um tombo hoje, uma vitória amanhã.

Os ansiosos se esfalfam pelo caminho. Colocam toda a recompensa pessoal pelo sacrifício na linha de chegada. Não apreciam a frase, muitas vezes bonita, que vão escrevendo pela vida – estão sempre afogueados por cravar o ponto final na sentença, como se só ele importasse. Uma coisa maluca. Ansiosos aceleram tanto que se esquecem de apreciar a paisagem. De olho da bandeirada final, nem sabem direito por onde passaram. Sempre haverá lacunas em nossa trajetória. Espaços vazios a serem preenchidos só somem da vida da gente quando a vida da gente termina.

Mas o ansioso não reconhece o quanto já conquistou. Não celebra o tanto que caminhou. Está sempre em dívida consigo mesmo, se sentindo atrasado. A ansiedade cobre a visão do sujeito com uma névoa de pessimismo – ele passa a enxergar somente as tragédias possíveis, só o que pode não dar certo, e as decepções e rejeições que ele tem certeza que pontuarão seu caminho.

O ansioso é um escravo das expectativas que há sobre ele. Seja a que vem dos outros. Seja a que brota dele mesmo – aquela que ele imagina que os outros nutrem e que, assim, incorpora ferozmente à sua rotina. Dê muita responsabilidade a um ansioso crônico e você terá fabricado um depressivo. Deposite grandes expectativas num ansioso limítrofe e você terá criado um suicida em potencial.

Peraí… ansiosos são depressivos? Se uns sofrem por querer antecipar tudo e por acelerar até o limite, enquanto outros sofrem pela letargia diante da vida e pelo desgosto diante das oportunidades, eles não seriam diametralmente opostos?

Aprendi esses dias: o ansioso é um cara adrenalinérgico (nome oficial de quem vive se bombarbeando com adrenalina). Só que uma hora o sujeito desaba com tanto hormônio. Funciona como uma espécie de botão de desligar do corpo, devastado pelas descargas químicas. De tanto ficar ligado, o sujeito cai em depressão. Como uma compensação do organismo, o sono letárgico depressivo vem como reação aos píncaros de atenção e de vigília para onde o sujeito se levou com a sua ansiedade.

Nessa perspectiva, a depressão não seria a tristeza absoluta, vinda do espaço sideral como um castigo cósmico aos muito melancólicos, mas como uma resposta do organismo a estados de alerta e de tensão elevadíssimos, sustentados por um tempo longo demais.

A ansiedade é o novo mal do século. Há psicólogos dizendo que quase todos os males psicológicos têm na base a ansiedade. Eis o nome completo da loba: ansiedade antecipatória. Algozes como depressão e crise do pânico seriam faces diferentes desse mau hábito da mente de olhar para o futuro e para a vida ao redor com a sanha de controlá-los, de imunizá-los, de ordená-los, de castrá-los, de securitizá-los.

A ansiedade antecipatória aflige dez entre dez pessoas, impactando-as com níveis diferentes de sofrimento psíquico. Vai desde quem dorme mal por conta de um compromisso no dia seguinte até quem desiste em definitivo da vida por sentir que não é mais possível suportar o grau de incertezas que ela impõe.

Os psicólogos ensinam alguns exercícios bacanas para quem quiser olhar esse bicho cabeludo nos olhos – e enfrentá-lo. Exercícios que passam por mudanças no funcionamento do indivíduo no seu dia a dia. Sim, é possível vencer a ansiedade. Mas para deixar de sofrer você terá de estar disposto o alterar de verdade alguns hábitos. Porque a ansiedade advém do comportamento – e é lá que você precisa debelá-la.

Um dos pontos é focar no processo e não na falta. Trata-se de não jogar a satisfação somente na conclusão da tarefa, ou as alegrias apenas no atingimento de uma meta, mas obter prazer durante, e compreender que não há ponto final em nada que vivemos – tudo é fluxo.

Uma coisa conecta na outra, um evento se entrelaça ao próximo, pessoas e problemas e soluções estão sempre gerando intersecções que se formam, e que desaparecem no momento seguinte, à medida que vamos vivendo. Então, só é possível ser feliz se percebermos esse movimento ininterrupto e decidirmos obter prazer no próprio processo. Ainda que muitas vezes ele pareça – e seja mesmo – um redemoinho.

O ansioso foca sempre no que ainda não está ganho e garantido. E essa conta será sempre negativa. Porque nada está ganho e nada está garantido. Daí o negativismo do ansioso, que só consegue ir adiante fazendo essa conta – e se desesperando diante das variáveis incontroláveis, e dos riscos inevitáveis, que sempre serão maiores do que as certezas.

O que ainda falta realizar representará sempre um campo maior do que aquilo que já foi realizado. Se esse for o parâmetro, estaremos fadados ao sentimento eterno de frustração – mesmo tendo construído obras magníficas por onde passamos.

A vida não é chegar, a vida é caminhar. Então curta o andar da carruagem, a grandeza da trajetória. Aprenda a extrair prazer e compensações do seu dia-a-dia. De que vale passar a vida toda agastado, sempre chutando a felicidade e a satisfação para o dia seguinte?

Viva hoje. Aproveite a jornada. Enjoy the ride. É aqui que a vida acontece.

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mariana

mariana

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é sócia-diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

2 Comentários
  1. O artigo é muito interessante e acrescenta de forma fantástica considerações importantes na vida de todos nós e principalmente aos que sofrem mais desta “terrível ansiedade”.

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