Por que o cinema argentino é tão incrível; e Ricardo Darín tão especial

Fim de semana passado, tirei meu atraso do cinema argentino. Sou absolutamente apaixonada pelo cinema argentino e pelo cinema espanhol (não por acaso fiz pós-graduação em cinema na Espanha). Adoro inúmeros atores e atrizes desses dois países. Meu preferido não é nenhuma escolha fora da curva. Acho que deve também ser o preferido de muita gente. Chama-se Ricardo Darín.

o-ator-ricardo-darin-na-revista-dufry-world-1386010319177_300x300HOLA, DARÍN!

Procuro não perder nenhum trabalho de Darín porque não raro seus filmes são garantia de qualidade. Neste último final de semana, assisti a dois filmes com ele: Relatos Selvagens e Sétimo. Se me permitem dar um conselho, não deixem para amanhã o que vocês podem fazer hoje. Não deixem de assistir a Relatos Selvagens.

Woman-prayingPEÇO DE JOELHOS

 Relatos Selvagens é o candidato da Argentina a disputar o Oscar e foi sucesso de bilheteria: fez 3 milhões de espectadores e se tornou o longa mais visto do ano na Argentina. Apresenta o tipo de humor que eu mais venero: o humor sofisticado e inteligente, tão difícil de se encontrar hoje em dia em qualquer seara cultural. O diretor Damián Szifron acertou ao escolher contar os episódios em tom tragicômico. Ao mesmo tempo em que diverte, o filme é reflexivo e discute injustiça social, intolerância e outros problemas da vida nas cidades.

Em vez de uma história, o filme apresenta seis tramas diferentes e sempre com uma unidade em comum: são protagonizadas por personagens fora de controle, que decidem fazer justiça com as próprias mãos. Há um aspirante a músico que reúne todos os seus desafetos em um só lugar; uma garçonete que tem a chance de se vingar do homem que arruinou sua família; uma briga de trânsito que termina em violência; um engenheiro indignado com uma multa indevida e a burocracia sem limites; um milionário que tenta livrar o filho da cadeia após ter atropelado uma grávida; e uma noiva que descobre a traição do marido em plena de festa de casamento.

Aqui está o trailer!

Os personagens do filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens para um lugar fora de controle. É um filme que faz rir (muito) e faz pensar (muitíssimo também). Faz pensar na selvageria urbana em que a gente vive hoje (sobretudo agora, época das festas de fim de ano em que o mundo parece que vai acabar amanhã).

03mulher-nova-gritando-feliz-thumb89432486FALA SOBRE O OUTRO FILME, MARIANA!

Fiquei tão empolgada com Relatos Selvagens que quase só fiquei falando dele. O outro filme é Sétimo. Muito bom também. Não se compara a Relatos Selvagens, tenho que ser sincera, mas é ótima diversão. Diferentemente do outro, em que Darín é um dos personagens de uma das seis tramas do filme, neste ele é o personagem principal de toda a trama.

O filme gira em torno do desaparecimento de Luca (Abel Dolz Doval) e sua irmã Luna (Charo Dolz Doval) filhos de Sebastían (Darín) e Délia (Belén Rueda). As crianças, numa brincadeira rotineira com o pai, apostam quem chegará em primeiro lugar no hall do prédio. Darín vai de elevador do 7º andar ao térreo. Os filhos descem pelas escadas mas somem sem deixar vestígios. Se falar mais, serei chamada de spoiller.

Por isso, deixo o trailer.

Adoradora de Darín que sou, não poderia deixar de mencionar um antepenúltimo filme que assisti dele. Já faz alguns bons dois anos, mas recomendo até hoje a todo mundo: Um Conto Chinês. Embora muitos críticos não tenham considerado um filme sensacional, eu me sinto perfeitamente confortável em afirmar que é SENSACIONAL!

Ele sintetiza uma dessas qualidades do cinema argentino de extrair tramas tão complexas a partir de vivências banais, algo tão raro no cinema nacional – vem daí minha identificação muito maior com o cinema argentino do que com o brasileiro.

amo almondegasMUUUITO MAIOR!!

 O filme começa de forma surreal quando um grupo de ladrões tenta roubar um rebanho bovino tendo como meio de transporte um pequeno avião. Em seguida, campesinos armados partem em disparada atrás da aeronave, tentando salvar os animais. Os disparos contra os gatunos acabam por desestabilizar o voo. Do céu, já distante da fazenda onde o episódio ocorrera, uma vaca despenca e atinge um barco num lago.

O choque mata uma moça chinesa cujo namorado estava prestes a lhe fazer o pedido de casamento. Inspirado em uma história real que se passou no Japão, na qual um barco de pesca japonês é atingido por uma vaca enquanto navegava em alto mar, o filme argentino Conto Chinês reforça que o absurdo é inerente à vida humana (daí mais um motivo para eu amar tanto o cinema argentino)

O trailer!

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

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