A receita que me fará reatar a amizade com o espaguete de pupunha

Tenho uma relação de amor e ódio com espaguete de pupunha. Quem leu meu último livro, Tudo tem uma Primeira Vez, conhece bem a história. Rendeu até um capítulo exclusivo sobre o tema (que eu, gentilmente, visto que sou um amor, reproduzirei logo mais).

bento1123ELA ESTÁ COM PREGUIÇA DE REPETIR

feliz1O ANIMAL ME CONHECE COMO A PALMA DE SUA PATA

Resumindo a história de forma bem resumida: estava com desejo de espaguete de pupunha, tentei fazer uma receita em casa da minha cabeça e passei a noite em claro, sentindo um alien revirar-se nas minhas entranhas. Não preciso dizer que tem quase um ano que uma embalagem de espaguete pupunha jaz intocada no congelador. Fiquei com trauma, sabe assim?

Foi então que, tantos meses depois (deu tempo até de produzir e lançar um livro, ora veja só!), encontrei uma receita que fez reacender em mim a vontade de voltar a tentar fazer as pazes com o espaguete de pupunha. Detalhe: esta receita é preparada com espaguete tradicional e faz parte do cardápio do restaurante paulista Alucci Alucci. Mas eu achei facílima de preparar, me dei conta de que posso perfeitamente substituir a massa pelo pupunha, lembrei que tenho todos os ingredientes em casa, que esta mesma receita combina com o cardápio da minha reeducação alimentar e decidi que esta semana que se inicia levantarei a bandeira branca para o espaguete de pupunha.

bento1123TENSO

Vamos à receitinha então! Espero que vocês se animem também, pois parece uma delícia. Para quem quiser saber onde comprar espaguete de pupunha, respondo que existe para vender nesses mercados que possuem produtos mais selecionados. Algumas redes de supermercados já dispõem. Em Porto Alegre, onde resido, encontro na La Gourmandise e no Armazém 196 Culinária.

Olha a foto do nosso espaguete de pupunha ao limão siciliano do Alucci Alucci!

aluccialucci_tbf0912_spaguettini_pupunha_ao_limao_siciliano_com_camaroesOOOOOOOOOHHHHHHHH!!!!!

Ingredientes
500g de espaguete pupunha
Suco de 1 limão siciliano
Raspas de 1 limão siciliano
100ml de azeite
150g de queijo parmesão ralado
6 camarões graúdos
Sal e pimenta do reino a gosto

Modo de preparo
Em uma panela, coloque água e duas colheres de sopa de sal. Leve ao fogo alto. Quando a água ferver, coloque o pupunha e deixe pelo tempo pedido pelo fabricante (não faça como eu e jogue a embalagem fora antes do tempo). Quando estiver pronto, reserve. Em uma tigela grande, onde será servido o espaguete, junte o suco do limão, o azeite e o parmesão ralado. Coloque o pupunha (após escorrer a água em um escorredor) e misture bem, até o parmesão derreter por completo. Tempere com sal e pimenta do reino. Grelhe o camarão em uma frigideira bem quente, acrescente sal e pimenta do reino a gosto. Quando estiver cozido e no ponto, coloque por cima do pupunha e sirva.

shouting-womanNÃO É UMA BARBADA?

E agora, então, o capítulo do livro que me fez passar longe do espaguete de pupunha por quase um ano.

A Primeira Vez que… Fiz Spaghetti de Pupunha

Minha amiga Helena Rizzo é considerada a melhor chef mulher do mundo. A cozinha do Maní, que ela pilota, em São Paulo, ocupa o 36º lugar no ranking dos 50 melhores restaurantes do planeta. Experimentei em uma das mesas do Maní um talharim de pupunha com molho parmesão inesquecível. Algo simplesmente delicioso e extraordinário, perfeitamente decorado em um prato fundo com brotos, flores e um fio de azeite de oliva.

Tenho algumas ideias que não se explicam. Uma delas é acreditar que posso reproduzir obras de arte culinárias na cozinha de casa. Minha biblioteca de livros de gastronomia ocupa dois andares do armário ao lado da geladeira. Há títulos para todos os gostos, culturas e idiomas. Do bê-à-bá da bruschetta ao universo Cordon Bleu. Quantas vezes consegui ler uma receita até o fim, comprar os ingredientes e aplicá-la? Nenhuma. Mas isso não é nada diante do fato de que continuo investindo em livros e acreditando que é tudo uma questão de tempo. Ou da falta dele – e de talento, claro.

Aquele talharim de pupunha viveu anos e anos povoando a memória das minhas papilas gustativas até o belo dia em que acordei convicta de que prepará-lo não poderia ser tão difícil assim. Precisaria apenas encontrar talharim de pupunha em algum canto da cidade. Recorri ao Google e, em segundos, apareceu o endereço de uma loja de produtos gourmet. “Mais fácil do que imaginava”, pensei. “Por que demorei tanto tempo para ter essa ideia de gênia?”. A loja era um espetáculo: a Disneylândia dos chefs, cozinheiros e da Mariana, claro. Oito mil e quinhentos itens nacionais e importados espalhados em diferentes salas. Me agarrei numa cestinha de compras e, quando dei por mim, estava prestes a desembolsar quase R$ 500 em produtos que tinham se tornado, numa fração de segundo, artigos de primeira necessidade, como um abridor de latas da Noruega e uma Flor de Sal de Mossoró.

– Posso ajudar? – aproximou-se a simpática vendedora, como uma mãe que recolhe a criancinha perdida entre artigos do Mickey.
– Vim atrás de talharim de pupunha, vocês têm? – perguntei.
– Sim, temos fios de pupunha congelados. Vem que te mostro – ela disse.

Nos dirigimos para o fundo da loja, um ambiente repleto de congelados e especiarias do chão ao teto. Ela abriu a porta de um dos freezers. Havia apenas duas caixas de fios de pupunha, cada uma contendo 400 gramas. Meus olhos brilharam.
– Vou levar as duas – falei, prontamente.
“Vá que nunca mais encontre fios de pupunha na vida”? – pensei
– O que é aquilo? – perguntei, diante de uma bandeja.
– É carpaccio de pupunha – explicou a vendedora. – Além do próprio carpaccio, pode servir como base para saladas e canapés.
– Que interessante! Vou levar também – falei. – E isso ali, o que é? – quis saber
– Picado de pupunha.
– Para que serve?
– Basta descongelar e utilizar em risotos, cremes, recheios de tortas e saladas.
– Me alcança um também? – pedi.
A louquinha da pupunha tinha feito seu estoque.

Ameaçado de extinção pela exploração predatória, o palmito brasileiro tem contado cada vez mais com um forte aliado nos esforços pela sua perpetuação: o crescimento do cultivo sistemático do palmito pupunha, meu príncipe encantado. Aproximadamente 97% da produção nacional de palmitos em conserva são extraídos de forma predatória das palmeiras juçara e açaí, provenientes da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica. Os cerca de 3% restantes referem-se ao pupunha, cujo cultivo sistematizado teve início em 1989, em São Paulo e principalmente no Espírito Santo, onde já existem alguns milhões de palmeiras em plena produção.

Chamado também de palmito ecológico, o pupunha possui algumas características que o diferem do palmito tradicional. Menos fibroso, macio e de sabor mais adocicado, possui uma massa de diâmetro maior, que os produtores convencionaram chamar de coração do palmito. Até alguns anos atrás, era considerado um produto sem apelo comercial. Foi então que os principais restaurantes do país, como o Maní, começaram a inclui-lo em seus cardápios e alçaram o produto à estrela de primeira grandeza da culinária nacional. O mercado aproveitou-se da propaganda, percebeu o espaço aberto por ela e tratou de oferecer o pupunha em lojas especializadas para consumidoras deslumbradas feito a Mariana.

Voltei para casa com o porta-malas do carro lotado de pupunha. Estava virada em uma verdadeira contrabandista de palmito. Separei aquela exposição de novas compras em cima da mesa e fiquei imaginando o menu de degustações de pupunha que me esperava mais tarde. Ia tirar o pé da jaca daquela abstinência inglória. Teria contribuído para o sucesso do meu evento uma nova olhadinha no Google ou uma folheada nos livros da biblioteca culinária a fim de encontrar alguma receita, mas não. O que poderia ser tão complicado no preparo de fios de pupunha semelhantes ao da melhor chef do mundo, que já estavam pré-cozidos e bastava apenas descongelar em uma panela com água quente? Nada – e tudo.

Quando a noite caiu e a grande hora chegou, abri uma garrafa de vinho tinto para tornar aquele um momento ainda mais solene. Havia decidido que a receita de spaghetti de pupunha da Mariana teria a companhia dos cogumelos shitake e shimeji, além de tomatinhos cereja e manjericão. Depositei todos em uma panela de cozimento a vapor e mergulhei a embalagem congelada de pupunha na água quente. Quem precisa de tempero, não é mesmo? Passados 10 minutos, calculei que havia dado tempo suficiente para o preparo de tudo, desliguei o fogo da panela, retirei os fios da embalagem e depositei no prato. Era uma quantidade considerável de pupunha. Quase meio quilo. Quatrocentas gramas que tomavam conta do prato inteiro. “Quantas calorias tem esse treco?”, pensei. Olhei atrás da embalagem: 37 por cada 100 gramas. “Ainda por cima não engorda. Óbvio que vou comer tudo”.

Colhi os legumes da peneira, despejei em cima do spaghetti, dei uma misturadinha, joguei um pouco de azeite, um fio de shoyo e folhas de manjericão frescas e acendi uma vela para um jantar romântico com meu pupunha. Logo na primeira garfada, por volta da segunda mastigada, achei algumas partes dos fios meio cruas. “Dane-se”, pensei. Dei a segunda garfada e bebi um gole de vinho, mais uma garfada, mais um gole de vinho, a terceira garfada, outro gole de vinho. Comia, comia, comia – e o prato parecia intocado. “Exagerei na dose”, pensei. Não deixei um fio para contar a história. A receita, obviamente, não tinha gosto nenhum, exceto de tomate misturado a cogumelo com shoyo, o que não impossibilitou de saciar em parte meu desejo. Fui dormir sonhando no encontro com os anjos. Dei de cara com um pesadelo.

Escalava um prédio muito, muito alto – um típico arranha-céus dos Emirados Árabes. Usava uma técnica para chegar ao topo desse prédio: fios e mais fios de palmito pupunha. Os fios funcionavam como a teia do Homem-Aranha. Virava a palma da mão para cima e despegava um mar de fios de pupunha. Quanto mais fios prendia no prédio, mais alto subia. Só que tenho pânico de altura e logo comecei a ficar mareada. O aroma de pupunha ao redor só contribuía para piorar a escalada. O enjoo foi ficando mais e mais forte, e perdi o controle do acionamento da teia. Minha mão começou a disparar quilômetros de fios de pupunha, que também começaram a se enroscar no meu corpo, vendar meus olhos e entrar pela minha boca, infiltrando-se goela abaixo. Então despertei.

Sentei sobressaltada na cama de olhos arregalados, suando frio. Foi o tempo de chegar ao banheiro e abraçar a privada. Voltei para a cama, voltei para privada, voltei para a cama, voltei para a privada, voltei para a cama, fui até a cozinha, fiz um chá verde, sentei na cama. Olhei no relógio: 5h30min da manhã. “Qual seria o ensinamento disso tudo?”, pensei, tentando encontrar alguma resposta empírica para aquela situação miserável. “O famigerado pecado da gula?”. Ouvi a porta de casa abrindo. Era o Chico, meu marido, chegando de viagem. Coitado. Entrou no quarto todo doce e deparou com a esposa azeda.
– O que está acontecendo aqui? – quis saber.
– Fiz um spaghetti de pupunha que não deu muito certo – respondi.
“Graças a Deus, estava bem longe de casa”, ele deve ter pensado.

Não tiro a razão do coitado. A última vez que tentei surpreender meu marido com alguma gastronomia excêntrica, quase assassinei o infeliz com meia dúzia de espinhas de sardinha entaladas na garganta. Meu evento, semelhante à tradicional festa da sardinha portuguesa, realizada em Lisboa, por detalhe, não terminou em tragédia.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

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