Faísca atrasada

Sou o tipo de pessoa que costuma reagir tardiamente a situações inesperadas. É como se a ficha demorasse a cair. Quando era adolescente, fui quase degolada por um ladrão que queria a todo custo arrancar a corrente de ouro que eu levava no pescoço. Foi ali no Parcão, por volta de 2 horas da tarde.

COM SOL ALTO E NENHUMA SEGURANÇA POR PERTO

Como estava com uma turma de amigas, e o ladrão veio por trás, eu não vi o que se passava. Achei que era alguma brincadeira de mau gosto das gurias. Só sentia aquela corrente cortando meu pescoço, mas não via nada.

DÁ PRA PARAR?
NÃO ESTOU ACHANDO GRAÇA NENHUMA!

Minha inocente gritaria provocou alarde e acabou afugentando o ladrão. Só fui perceber do que se tratava quando ele já virava a esquina, fugindo, frustrado e de mãos vazias.

BEM FEITO!

Há poucos anos, em outro infeliz episódio que envolve a falta de segurança da nossa cidade, fomos atacados, meu marido e eu, na entrada da garagem de casa. Aquela coisa de arma na cabeça, desce do carro, entrega a bolsa, não olha pra mim, passa a chave, se tiver bloqueador eu mato vocês.

TU FEZ TUDO AO CONTRÁRIO, LEMBRA?

Eu fiz tudo ao contrário. Eu desci do carro como uma lady prestes a entrar em um baile, coloquei a bolsa no ombro e fiquei encarando os bandidos.

SÓ FALTOU DAR UM PIVOT À LA GISELE BÜNDCHEN

E assim, bem bela, abri o portão de casa e fui entrando, enquanto eles davam pontapés no meu marido e arrancavam com o carro.

HÃ?!
TU NÃO GRITOU?
NÃO CHOROU?
NÃO SE REVOLTOU?

Eu só fui assimilar o golpe na manhã seguinte, quando não consegui levantar da cama. Tinha um febrão e passei os dias seguintes muito deprimida: a tal da história de a ficha demorar a cair, como eu iniciei contando. É a minha maneira involuntária de reagir diante de situações críticas.

FOI A MANEIRA COMO EU REAGI À TRAGÉDIA DE SANTA MARIA

Levantei no domingo de manhã com a notícia e vim diretamente para a redação. Passei o dia hipnotizada diante do horror, como se todo o horror não me atingisse. A ficha demorou a cair. E então, a noite chegou, e eu não dormi. A manhã chegou, e eu estava tomada por uma completa apatia.

NOSSO PASSEIO FOI NO MAIS COMPLETO SILÊNCIO

A terça-feira chegou e eu não sentia vontade de falar com ninguém. E tinha asensação de que ninguém queria falar com ninguém. Até comentei com o Bento:
– Como a rua está silenciosa… As pessoas não buzinam, os pedestres não conversam, quem vai e vem parece ter o olhar perdido em algum lugar.

FAZIA UM LINDO SOL E TUDO ESTAVA CINZA

Para compreender melhor esse comportamento coletivo, procurei auxílio do médico José Outeiral, psiquiatra, especialista em psiquiatria de adultos, crianças e adolescentes, autor de livros e trabalhos publicados no Brasil e no Exterior.

O QUE TU PERGUNTOU, MARIANA?

Comentei com ele que tragédias semelhantes tinham acontecido em boates em outras boates do mundo. Por que, então, estávamos todos particularmente tocados por este episódio de Santa Maria?

E O QUE ELE RESPONDEU?

Ele disse que temos  como um mecanismo primitivo de defesa imaginar que determinadas situações (doenças, acidentes, tragédias) somente acontecem com os  “outros”.  Nós não percebemos todos os seres humanos como “iguais”. Existe o “Outro”, o vizinho, o de outra raça ou condição social, o estrangeiro… Por isso existem as brigas de torcidas, as guerras, os enfrentamentos. Quando acontece algo muito trágico e muito próximo, nos identificamos imediatamente com o sofrimento alheio. Poderia ter sido conosco ou com alguém querido. Choramos pelo “Outro” e por nós mesmos. Nossa onipotência e impunidade ficam perdidas. A tragédia é demasiadamente próxima.

SÓ MAIS UMA QUESTÃO!

Perguntei a ele se era impressão minha ou se, nesses dias pós-tragédia, as pessoas estavam mais tolerantes e gentis umas com as outras, inclusive em situações banais do dia a dia, como no trânsito, por exemplo?

E ELE, O QUE DISSE?!

Ele disse que minha percepção é correta. É como se esse destino funesto, a tragédia, mobilizasse em cada um de nós apenas bons sentimentos, como o altruísmo e a solidariedade.

SENTIMENTOS NOBRES QUE NÃO DEVERIAM PRECISAR DE TRAGÉDIAS PRA SE MANIFESTAREM, NÉ?



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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

Sem comentários ainda.
  1. Mari,

    tbm fiquei fora do ar e deprimida por dias… foi muito estranho e difícil. aos poucos fui voltando a vida normal, mas o aperto no coração não passou. ouvi de uma amiga, que nunca mais seremos os mesmos, depois do que aconteceu em SM, mesmo aqueles que não perderam alguém próximo. e sim, notei que as pessoas estão mais gentis e cuidadosas, umas com as outras…..

  2. Mari,

    tbm fiquei fora do ar e deprimida por dias… foi muito estranho e difícil. aos poucos fui voltando a vida normal, mas o aperto no coração não passou. ouvi de uma amiga, que nunca mais seremos os mesmos, depois do que aconteceu em SM, mesmo aqueles que não perderam alguém próximo. e sim, notei que as pessoas estão mais gentis e cuidadosas, umas com as outras…..

  3. Mariana, acabei de ler na Zh teu texto. Fiquei surpreso poque tive a mesma impressão na ultima segunda feira. Todos pareciam diferentes, no transito, no trabalho, na rua. Mais condescendentes mais educados, sei lá. Pensei que era impressão minha ou eu que estava vendo as coisas deste jeito. Levei dias a voltar e ver as coisas normalmente. (se eh que ainda voltei ao normal). Ótimo texto, parabéns. Parece que nao foi impressão minha.

  4. Mariana, acabei de ler na Zh teu texto. Fiquei surpreso poque tive a mesma impressão na ultima segunda feira. Todos pareciam diferentes, no transito, no trabalho, na rua. Mais condescendentes mais educados, sei lá. Pensei que era impressão minha ou eu que estava vendo as coisas deste jeito. Levei dias a voltar e ver as coisas normalmente. (se eh que ainda voltei ao normal). Ótimo texto, parabéns. Parece que nao foi impressão minha.

  5. Infelizmente tu descreveste o sentimento de todos nós essa semana, mesmo aqueles que não perderam alguém na tragédia. Na verdade, acho que todos nós perdemos alguma coisa. Aqui em Santa Maria tudo parecia ainda mais potencializado: o silêncio, o frio, a dor. Eu cometi o sacrilégio de não ler tua coluna por vários dias! Nada parecia engraçado o suficiente para me fazer rir. E esse Bento é mesmo um sábio! Se todos fossemos SEMPRE altruístas, solidários e responsáveis, uma tragédia como essa não teria acontecido.
    Ótimo final de semana pra vocês.
    Coçadinhas nas orelhas do Bento!
    Beijos,
    Naiara

  6. Infelizmente tu descreveste o sentimento de todos nós essa semana, mesmo aqueles que não perderam alguém na tragédia. Na verdade, acho que todos nós perdemos alguma coisa. Aqui em Santa Maria tudo parecia ainda mais potencializado: o silêncio, o frio, a dor. Eu cometi o sacrilégio de não ler tua coluna por vários dias! Nada parecia engraçado o suficiente para me fazer rir. E esse Bento é mesmo um sábio! Se todos fossemos SEMPRE altruístas, solidários e responsáveis, uma tragédia como essa não teria acontecido.
    Ótimo final de semana pra vocês.
    Coçadinhas nas orelhas do Bento!
    Beijos,
    Naiara

  7. Oi, Mariana. Simpleste amo os teus textos. Tem uma leveza, uma graça e ao mesmo tempo nos faz pensar.Conheci os teus textos através do Jornal Zero Hora e sempre curiosa sobre o próximo tema.
    Parabéns!!!

  8. Oi, Mariana. Simpleste amo os teus textos. Tem uma leveza, uma graça e ao mesmo tempo nos faz pensar.Conheci os teus textos através do Jornal Zero Hora e sempre curiosa sobre o próximo tema.
    Parabéns!!!

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