Xavier260: o restaurante de comida catalã e a etiqueta na prática

Estávamos sentados no sofá, aquela coisa mezzo sentados mezzo deitados, posição típica de sábado à tarde na frente da tevê, quando soou o Whats App do celular do Chico. Era o Georginho no mesmo horário e mesmo dia de sempre e com a pergunta de sempre: “Onde vai ser hoje?”. Traduzindo: qual é o lugar que a Mariana vai descobrir para a gente jantar?

chaves01TUDO EU, TUDO EU

Sim, já contei aqui em outra ocasião que sou sempre eu que tenho que inventar algum lugar novo, porque, na cabeça deles, eu trabalho com comunicação, eu sou bem informada e a melhor pessoa da turma para sugerir algo. Esquecem que nem sempre estou a fim de sugerir alguma coisa e gostaria apenas de ser conduzida, mas este é assunto para outro post. O que eu fiz, então: resgatei a Veja Comer & Beber 2015 e fui atrás de algum lugar que ainda não conhecíamos. Perguntei antes: “O que vocês estão a fim de comer e de beber?”. A resposta: “O que tu decidir está bom”.

woman-looking-crazy-feature-280x1253NUNCA ACREDITE NESSA RESPOSTA

Escolhi um restaurante de comida tradicional catalã (para matar a saudade de Barcelona), cujas fotos dos pratos eu havia visto nas redes sociais da vida e muito me encheram os olhos. Chama-se Xavier260, localizado no número 260 da Rua Auxiliadora, em Porto Alegre. Eis o texto de apresentação do lugar:

A culinária do XAVIER260 tem como base as raízes da cozinha tradicional catalã, apoiada a técnicas contemporâneas. A proposta prioriza o uso de ingredientes gaúchos, assim como os do sul do Brasil, procurando sempre sua origem orgânica. A pesquisa continua dos insumos, oferece ao comensal uma redescoberta de ótimos produtos da despensa regional, por vezes desconhecidos. O cardápio, renovado mensalmente, se apresenta como uma proposta original e cheia de criatividade, emocionante para os sentidos. Comandado pelo chef Xavier Gamez, o XAVIER260 funciona nos jantares de terças a sábados, exclusivamente com menu degustação.

Olha!

Xavier260(13)AQUI ADENTRAMOS!

Fomos simpaticamente recebidos e encaminhados para o segundo andar do restaurante, uma sala fechada, sem janelas e com três mesas apenas. O salão no andar de baixo, segundo nos informaram, estava com as reservas esgotadas (alô, crise?). Georginho e Paulinha avisaram que se atrasariam uma meia hora – e sentamos à mesa para esperar. Percebi meu respectivo marido um pouco incomodado.
– Preferia ter sentado lá embaixo – ele disse.
– Ok, mas agora não tem o que fazer. Vamos ficar aqui – respondi, baixinho.
– Estou me sentindo meio apertado e claustrofóbico. Fora que vamos ter que passar a noite cochichando, pois todas as mesas vão ouvir o que estamos conversando e nós vamos ouvir a conversa dos outros – ele continuou. – Não sei se era bem esse o clima que tinha imaginado para esta noite…
– Abstrai – eu disse. – Vamos pedir algo para beber? – emendei, querendo mudar o foco do assunto.

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De nós dois, embora não pareça, eu sou mais tolerante com produtos, serviços e lugares. Ok, a situação pode não estar muito do meu agrado, mas eu abstraio e dou um jeito de mudar a perspectiva da coisa. Chico, não. Principalmente quando trata-se de mesas em restaurantes. O lugar em si realmente faz a diferença na refeição e no programa dele – e vi que realmente não estava à vontade. Então, chamamos o garçom para, como recomendei, abstrair.

– Por favor, vou querer uma caipira de vodka e limão sem açúcar – Chico pediu.
– Não temos caipira, senhor – o garçom respondeu.
“Houstou, we have a problem”, pensei comigo.
– Puxa vida… Estava louco para beber uma caipira gelada… – Chico brincou. – Mas ok, pode ser uma cerveja então. Com quais marcas vocês trabalham? – perguntou.
– Não temos cerveja, senhor – o garçom respondeu.
“Houston, we have a BIG problem”, pensei comigo.
– Não tem cerveja? – Chico quis certificar-se.

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O garçom explicou que havia tido um problema no freezer e mais alguma coisa que eu não ouvi direito porque comecei a me sentir responsável por meu marido não estar à vontade no programa que eu havia escolhido. Sim, eu sei que eles haviam me delegado a tarefa de escolher, que qualquer coisa que eu sugerisse estaria ótimo e tal, mas faz parte da minha natureza sentir culpa numa hora dessas.

mulher-doidissima5-594x4994SEMPRE ME SINTO CULPADA

– Posso trazer a carta de vinhos, senhor – o garçom ofereceu.
– Por favor – falou o Chico.
Silêncio na sala fechada e sem janelas onde,  até aquele presente momento, havia só nós dois.
– Sabe o que é? – Chico começou. – Está uma baita noite e eu estava louco para beber uma caipira e uma cervejinha gelada.
– Mas e um vinhozinho branco gelado? – sugeri.
– Não estou pra vinho…
Silêncio na sala.
– Tu quer ir embora? – perguntei.
– Eu quero – ele respondeu.

Crazy-WomanIXI… E COMO FAZ ISSO?

Então esbarramos em um momento “etiqueta contemporânea”. Vocês me perguntarão: “O que se faz numa hora dessas, Mariana?”. Não sei, nunca li nada a respeito, nunca ninguém me ensinou.  Respondo dizendo o que fizemos:
– Bom, tu fala com o garçom, então – falei. – Eu sei que não tem maiores motivos, mas eu estou com um pouco de vergonha…
– Deixa pra mim – ele respondeu. – Vou simplesmente falar a verdade.
O garçom aproximou-se com a carta de vinhos. Chico foi sincero:
– Cara, olha só: eu saí louco para beber uma caipira e uma cervejinha. Não quero de forma nenhuma que tu nos leve a mal, mas vamos guardar a oportunidade para conhecer a cozinha de vocês quando esfriar mais um pouco. Daí viemos e bebemos um vinho tinto e tal. Ouvimos falar super bem do restaurante e será um prazer voltar. Tu não nos leva a mal?
Senti que, por um momento, o garçom ficou processando toda aquela novidade na cabeça, porque, obviamente, esperava que escolhêssemos o vinho e não que disséssemos que voltaríamos outra hora. Mas logo respondeu:
– Claro que não, senhor. Fique à vontade.
Levantamos e fomos embora.

mulher com nojoQUE SITUAÇÃO…

Por curiosidade, procurei em sites especializados em etiqueta qual deve ser a atitude quando algo assim acontece. Fomos educados? Fizemos certo? Poderíamos ter ido embora? Deveríamos ter ficado mesmo a contragosto? Não achei nada, acredita? Achei trocentos ensinamentos de como se comportar em um restaurante, como lidar com talheres e tal, onde colocar o caroço da azeitona…. Mas nenhum ensinamento sobre como pedir licença educadamente, caso você tenha se arrependido de ter entrado e sentado em algum lugar, ou não tenha ficado satisfeito com o cardápio ou algo do gênero. Considero que meu respectivo marido se saiu super bem na empreitada. E concluí que tudo, tudo, tudo na vida, mais do que regras preestalebecidas de etiqueta, é maneira de falar, é transparência, é verdade e educação.

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Termino este post contando o que eu poderia ter escolhido no Xavier260 naquela noite que não jantei por lá, mas que pretendemos retornar assim que o clima favorecer a um jantar mais intimista (com direito a sentar no salão!)

Xavier260_restauranteMUITO PRAZER, SOU O SALÃO DO XAVIER260

Olha a galeria de imagens dos pratos e repara, por favor, na plasticidade de cada um! E não esquece de clicar na foto para ver maior (sim, eu sempre repito isso!) Nham Nham!!

 

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

5 Comentários
  1. Querida Mariana, adoro os seus posts e comentários, sou sua fã! Te digo que dificilmente ensinamos aos filhos como enfrentarem situações inusitadas. Igualmente faltei a esta aula de etiqueta! E, minha Mãe também não me ensinou. Penso que seu marido foi elegante, gentil e bem humorado ao conversar com o garçom, demonstrando sutilmente a sua contrariedade. Foram perfeitos! Vivendo e aprendendo!

  2. Oi Mariana, que coicidencia, eu estava lá no sábado e vi vocês saindo! Rsrs! Uma pena a questão da bebida, porque a comida estava demais! Sem exageros, o segundo prato principal foi uma das melhores coisas que já comi na vida .. e olha que experimentar comidinhas está entre os meus esportes favoritos!!!

  3. Olá Mariana,
    Que situação! Mas acho que vocês foram bem educados e sinceros.
    Estou indo para Barcelona na terça que vem, por 6 dias a trabalho. Na verdade vou para Lleida. Terei 1 dia livre em Barcelona… se tu pudesse dar umas dicas, adoraria. Nunca estive lá.
    Beijos e obrigada

  4. Eu também acho que foram bem educados. Não vejo nenhum mal em levantar-se de um restaurante e ir embora, especialmente quando há essa restrição quanto às bebidas. Acho bem tranquilo e não deve haver qualquer constrangimento.

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