Lilia Cabral: A humildade faz a diferença na trajetória de uma veterana em ascensão

Aos 60 anos, Lilia Cabral vive o auge da trajetória profissional que já contabiliza 37 anos, 33 deles na Globo. Até 2007, era tida como uma atriz competente, mas não estelar. Uma profissional segura para papeis secundários, cômicos ou dramáticos, sem maior repercussão. Foi quando a personagem Marta, da novela Páginas da Vida, ganhou o horário nobre e, apesar de quase vilã, a empatia do telespectador. A mulher cruel que desprezava a neta com síndrome de Down e humilhava o marido rendeu a Lilia a indicação ao Prêmio Emmy Internacional de melhor atriz – o Oscar da televisão. Três anos depois, em 2010, ela recebeu a mesma indicação, desta vez como Teresa, de Viver a Vida. A partir de então, passou a ocupar o topo da pirâmide das grandes estrelas brasileiras. Era só o começo.

Sua carreira estourou mesmo com Mercedes, a mulher de meia-idade que vivia às voltas com a alegria e os desafios de sua época, desabafando as glórias e os infortúnios no consultório do analista na peça Divã, baseada no livro homônimo da escritora gaúcha Martha Medeiros. Divã tornou-se uma marca poderosa nas mãos de Lilia. Estreou no teatro, ganhou adaptação para o cinema e chegou à televisão, sempre com enorme sucesso em todas as três plataformas. Foi a primeira série da Globo a ter locações no Exterior, com 12 dias de gravação em Nova York.

No palco, Divã foi assistido por mais de 250 mil pessoas. Completou 240 apresentações em 11 cidades brasileiras e cumpriu temporada de 40 dias em Lisboa, Portugal. No cinema, vendeu 1,8 milhão de ingressos e faturou R$ 16,5 milhões. Na televisão, a temporada de oito episódios obteve índice de 16 pontos de audiência, considerado excelente para o horário, levando-se em conta que a série começava a ser exibida às 23h. Todo esse êxito deve-se – e muito – à feliz união da atriz com a personagem, graças à capacidade de Lilia de transitar sem percalços entre o timing cômico e o drama sem dramalhão.

Nesta entrevista em sua casa, no Rio de Janeiro, conversamos sobre vida e profissão.

lilia-cabralLILIA CABRAL: UMA ATRIZ SEMPRE EM ASCENÇÃO

Estudando sua trajetória, parece lógico afirmar que sua carreira está dividida entre antes e depois de Mercedes. Essa afirmação é um exagero?
Não é exagero nenhum. Minha carreira se divide, sim, entre antes e depois da Mercedes. Tive muitos altos e baixos profissionais, em teatro principalmente. Na televisão, sempre fui muito bem-sucedida, interpretei grandes papeis. Mas Divã veio consolidar um projeto de vida que sonhei durante muito tempo, tanto no teatro como na tevê. O sucesso da Mercedes coroou toda uma trajetória profissional e chegou exatamente em uma fase em que eu estava pronta para receber este trabalho. Talvez, se a Mercedes tivesse chegado para mim quando tinha 30 anos, eu não tivesse executado tão bem. Mercedes e Divã são, sem dúvida, um divisor de águas.

Você vive uma ascensão vertiginosa em uma idade em que a maioria das atrizes está com a carreira estabilizada. A que se deve essa conquista?
Considero fundamental você saber escolher um bom papel. Muitas vezes, porém, você não tem essa chance. É a emissora, ou autor, que designam você para aquele determinado personagem. O que eu acredito muito é na disponibilidade do ator para a profissão. Não pode haver apenas o desejo por papeis principais. Vou te dar um exemplo: quando eu terminei de fazer a Marta, de Páginas da Vida, fui designada para interpretar a Catarina (a dona de casa submissa e tolerante às traições e à agressividade do marido, interpretado pelo ator Jackson Antunes, na novela A Favorita). A Catarina era bem menos importante do que a Marta, mas nem por isso eu deixei de aceitar aquele papel.

“Se você acha que sabe tudo, não vai a lugar nenhum. Agora, se você acredita que cada papel é uma oportunidade de se colocar a serviço da profissão e de aprender, então você cresce, sempre. Eu prefiro sempre achar que posso aprender do que me considerar a rainha da cocada preta.”

A Rua Zara é uma ruazinha muito simpática, estreita, localizada no alto do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, em meio a uma vegetação úmida e quase selvagem. É tarde de quinta-feira, o Rio de Janeiro sucumbe ao calor, mas ali, na Rua Zara, a sensação remete à Serra. Corre um ventinho fresco, e o som dos pássaros se sobrepõe ao ruído das buzinas na hora do rush.

A Rua Zara é o endereço da casa da atriz Lilia Cabral, e a casa é a cara da dona. Esconde-se atrás de um portão azul e vive com a porta da frente aberta. Dois chaveiros com olho de tigre turquesa pendurados na fechadura tratam de manter a boa energia que emana do lugar. Orquídeas brancas dispostas em vasos transmitem uma atmosfera de paz. Livros de Carlos Vergara, Pablo Picasso e Fellini misturam-se a dezenas de outros títulos pousados na mesa de centro da sala, em meio a velas de diversos tamanhos e formatos. Tudo que ali está, está por algum motivo, dá sinal de vida em movimento, diferente de outras casas, essas que a gente vê em revistas de celebridades, em que não há nada fora do lugar, tudo é clean demais, limpo demais, inverossímil demais.

Lilia poderia tomar emprestadas para si as palavras da atriz Kate Winslet. Em entrevista recente, a vencedora do Oscar sentenciou: “Não sou uma estrela, sou uma atriz. Estrelas são aquelas que têm seguranças, preparadores físicos, aviões. A única coisa glamourosa que costumo fazer é, vez ou outra, submeter-me a uma limpeza de pele”.

Outra semelhança da brasileira com a inglesa reside no talento, na eficiência, na capacidade camaleônica de vestir personagens antagônicos e convencer sempre o espectador.

Você faz análise?
Eu faço há muitos anos, desde que minha mãe morreu, em 1987. Logo em seguida, procurei ajuda. Fiz terapia com a mesma pessoa durante seis anos – até mudar de analista. Passei a me consultar com o Alberto Godin e com ele estou até hoje. Parei um tempo logo após o término das filmagens de “Divã”.

Era muito divã para uma pessoa só.
(Risos) Eu estava esgotada de ver aquele divã todo dia. Para completar, o final do filme coincidiu com o início da novela A Favorita, em que eu fazia aquela mulher destruída, sem nada, com autoestima no chão. Daí pensei: “Eu não vou para o analista. Vou aproveitar essa mulher que jamais iria para o analista e vou tirar umas férias”.

Ele concordou com as férias?
Eu jamais vou desistir do meu analista – e ele sabe disso. Só que me deu uma gastura de divã, de falar de análise…

Gosto daqueles analistas que falam. Não suporto aqueles outros que ficam parados olhando horas e horas para a sua cara, sem falar nada, como quem diz: “eu estou te analisando, vou fazer você chegar ao seu resultado sozinha e não vou precisar dar um pio”. Acho isso uma enganação. Ou a pessoa não sabe o que dizer, ou está pensando na compra do supermercado. E você ali, se esgoelando. Quando ele abre a boca, é para dizer: “O seu tempo acabou”. Tem pena, né?

Vamos fazer uma brincadeira. Vou usar as letras do teu nome para abordar hobbies e sentimentos. Começamos por “L” de Lilia. Me conte uma “Lembrança”.
Tenho uma lembrança muito especial de Porto Alegre, quando completei cem apresentações da peça “Solteira, casada, Viúva, Divorciada”, em 1993, no Theatro São Pedro. Era a primeira vez que eu viajava com o espetáculo para Porto Alegre. Já na chegada me disseram que todas as sessões, de quinta a domingo, estavam com os ingressos esgotados. Fiquei impressionada. Aquilo foi de uma expressividade tão grande para mim… Foi a primeira vez que me caiu a ficha e me dei conta: “Poxa, então as pessoas me conhecem, me acompanham, gostam do meu trabalho”. Foi um prêmio de reconhecimento. Para coroar essa temporada, Dona Eva Sopher me presenteou com um lindo quadro lembrando a data. Foi muito emocionante, um prêmio de reconhecimento.

“I” de “Inveja”
Não tenho esse tipo de sentimento. Passei por muitas dificuldades na minha carreira e nunca lancei um olhar destruidor para quem tinha conquistado mais do que eu. Sempre pensei que, se trabalhasse com dedicação, um dia eu também iria usufruir de todos os objetivos que estava buscando.

“A inveja é um sentimento derrotista, que só atrapalha a vida pessoal e profissional. Eu diria até que o verdadeiro ignorante é o invejoso.”

“L” de “Lazer”.
Eu adoro caminhar. Quando saio de casa a pé, vou dar nos fundos do Jardim Botânico. Passo por ali, vou andando até o Shopping da Gávea e, nesse meio tempo, quando preciso, vou ao banco, à farmácia… Hoje mesmo eu caminhei durante uma hora.

“Desisti da função dos paparazzi. Não existe muita coisa para as revistas falarem a respeito de uma foto minha, né? A menos que seja ‘Lilia Cabral andando no Leblon, Lilia Cabral de óculos, Lilia faz compras no supermercado…’ (Risos).”

“I” de “Ira”
A injustiça me incomoda bastante, principalmente quando prejudica uma pessoa para beneficiar outra. Dá um pouco de raiva. A nossa sociedade vive colocando na balança, o tempo todo, a justiça e a injustiça, e o povo sofre com a injustiça. O segredo está em saber trabalhar nosso interior para que, diante de toda essa injustiça, a raiva e a ira não acabem consumindo a gente. Eu acredito que esses sentimentos fazem muito mal à saúde.

“A” de “Análise”
Fiz durante 20 anos. Depois que Divã foi parar nos cinemas, nunca mais voltei para o analista.

Agora, começamos com as letras do teu sobrenome. “C” de “Cobiça”.
Tenho ambição, sim. Principalmente por fazer bons papéis, como tenho feito. Não posso dizer que não sou ambiciosa, sou sim, e muito. Luto pelas coisas e ambiciono o melhor sempre.

“A” de “Amizade”.
Tenho amizades da escola, da faculdade, do trabalho. Tenho muitos amigos, amigos eternos e muito queridos. Daqueles de ficar seis meses sem ver e falar, mas, quando a gente se encontra, é como se convivesse todos os dias. São amigos que cultivo há muito tempo e sei que estarão comigo para o resto da vida.

“B” de “Bem-estar”.
É estar em casa com a família (Lilia é casada com o economista Iwan Figueiredo há 23 anos e tem uma filha, Giulia, de 21). Gosto muito de ficar com eles, em harmonia.

“Em relação a hábitos alimentares, eu não fumo e não bebo nada. Nada mesmo. Não tomo refrigerantes e evito gorduras e frituras. E já que estamos falando em alimentação e bem-estar, adoro ir a Porto Alegre para me fartar de tanto comer aquela carne maravilhosa”.

“R” de “Receio”.
Só da morte. Mas acho que quanto mais velha eu ficar, menos medo eu vou ter.

“A” de “Ameaça”.
Às vezes, a gente se auto sabota, principalmente nesta profissão. Mas atores e atrizes jamais vão admitir que não têm coragem para enfrentar as ameaças. Nós somos uma classe profissional que tem medo de ameaça, sim. Mas também temos muita coragem para enfrentá-las.

“L” de “Luxo”.
É sinônimo de bem-estar. Aqui em casa, temos uma vida normal. A gente não extrapola. Não há nada de riqueza, de ostentação. Nunca gostei disso.

“Sempre primei por ter uma vida reservada e preservada. Luxo é você estar com a consciência limpa, fazendo o que curte, com amor e ao lado de gente que você gosta”.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

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