Outubro Rosa: “Ainda hoje, a reação da maioria das mulheres é ‘não quero saber'”

O Outubro Rosa é um movimento mundial de mobilização pela detecção precoce do câncer de mama. No mundo inteiro são realizadas ações para a conscientização de mulheres das mais variadas idades, culturas e etnias. A parte mais visível desse movimento é a iluminação na cor rosa de prédios e monumentos históricos nas principais cidades dos cinco continentes.

Presidente voluntária da Femama e do Imama RS e chefe do serviço de mastologia do Hospital Moinhos de Vento, a médica Maira Caleffi confunde-se com a cor rosa desta mobilização que a cada ano amealha mais simpatizantes. Tomou para si, como uma espécie de missão de vida, o compromisso de batalhar para que cada vez menos mulheres busquem ajuda em estágios já avançados da doença.

— Quando a gente faz essas campanhas de prevenção de câncer de mama, estamos falando de prevenção de um mal maior. A campanha é pela detecção precoce. A doença já está ali, e o objetivo é detectá-la cedo — disse ela em um bate papo que tivemos de quase duas horas em seu consultório, no alto do prédio do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, onde funciona o Núcleo Mama, um dos maiores centros de mastologia da América Latina e onde são realizadas, em média, 1,3 mil consultas por mês e cerca de 80 cirurgias

Para o Brasil, estimam-se 59, 7 mil casos novos de câncer de mama, para cada ano do biênio 2018-2019, com um risco estimado de 56,3 casos a cada 100 mil mulheres. Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro são os Estados com mais incidência. Apesar de todo o alarde promovido a cada outubro rosa pelo mundo, a falta de informação continua sendo o principal vilão da luta contra o câncer de mama. A maioria das mulheres chega ao tratamento em estágios avançados da doença.

— Ainda hoje, quando falamos em câncer de mama, a reação da maioria das mulheres é “não quero saber” — lamenta Maira.

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Selecionei alguns trechos principais da nossa entrevista.

Apesar da busca pelo tratamento ter aumentado, ainda é inegável afirmar que, mesmo com toda essa bela campanha de conscientização, o câncer de mama continua sendo um assunto velado entre muitas pacientes que recebem o diagnóstico. Há uma explicação?
Medo da mutilação e, claro, da morte. Se olharmos bem para trás, me refiro há mais de 20 anos, o enredo com final infeliz era sempre o mesmo: a paciente tirou a mama e morreu; a paciente tirou a mama, ficou careca e morreu; nossa, mas ela morreu tão jovem! Câncer de mama estava irremediavelmente ligado à morte e à mutilação.

Há recursos para não temer essa mutilação hoje em dia?
Com certeza. A evolução da medicina tem permitido que a gente consiga preservar mais as mamas, dependendo do tamanho do tumor. Mesmo que a paciente seja submetida a uma mastectomia (remoção completa da mama) a gente consegue reconstruir a mama. Esses avanços fizeram também com que a mulher tivesse menos medo da doença. Mas é preciso admitir, como você bem falou, que ainda hoje, quando falamos em câncer de mama, muitas reações são do tipo “eu não quero saber!”.

É o tipo de câncer que menos as mulheres querem saber?
Sem dúvida. E esse comportamento está intimamente ligado à feminilidade, à mulher, à mãe, à fêmea, a toda a sexualidade. Elas não ficam tão aterrorizadas com um diagnóstico de câncer de colo de útero, com um câncer de pulmão – que vem acometendo cada vez mais mulheres ultimamente – como ficam com o diagnóstico de câncer de mama. O câncer de pulmão mata rápido. É pior do que o de mama, na minha opinião. Mas o de mama tem toda essa característica feminina. Embora já existam casos de câncer de mama em homens também.

Fale mais sobre isso.
Claro que a incidência é bem menor. Trata-se de um caso masculino para cada cem mulheres. Se a cada ano temos 57 mil novas mulheres que recebem o diagnóstico de câncer de mama, estamos falando de 570 homens com o mesmo diagnóstico anualmente.

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Como funciona o apoio da família numa hora dessas?
A família fica em choque. Tem casos em que dá uma dó ainda maior da paciente. Não bastasse receber o diagnóstico, ainda tem que segurar a onda da família, sobretudo da mãe. Elas se preocupam muito com a mãe, porque, claro, qualquer mãe faria de tudo para receber um diagnóstico desses no lugar de uma filha. Então, muitas vezes elas escondem essa doença dos pais até vencerem uma primeira etapa e se sentirem bem e fortes para falar sobre a doença.

Vocês fazem algum trabalho de apoio à paciente e à família neste sentido?
Bastante, porque muitas querem esconder a doença até do marido. Nesses casos, incentivamos o contrário: que o marido seja o cuidador primário dela, aquela pessoa que a acompanha nos tratamentos e nas consultas.

Quais são os outros fatores de risco?
O sobrepeso. As mulheres engordaram muito nas últimas décadas. Aquela mulher ativa que tinha filho e logo emagrecia e já tinha outro filho em seguida praticamente não existe mais. As mulheres eram mais magras e mais ativas. De cada 10 pacientes que vêm aqui, oito têm sobrepeso. Além do fato de ser mulher e de ter casos de câncer de mama na família, a obesidade é o grande fator de risco. Muito maior do que postergar a gravidez ou mesmo não ter filhos.

Qual é a situação das gaúchas hoje no cenário nacional da doença?
Há dois Estados top em incidência de câncer de mama por cada cem mil mulheres: Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Alguma justificativa?
No Rio de Janeiro, é a obesidade. Disparado. Quando falo em Rio, não estou falando daquela cidade de lindas garotas de Ipanema. Me refiro ao outro Rio de Janeiro. Lá, a incidência é alta – e a mortalidade é alta também. O acesso à saúde pública no Rio é vergonhoso. Aqui no Estado, nós verificamos a obesidade e a questão de muita gordura na nossa dieta. Não falo só de churrasco, não. Falo daquela dieta de clima frio, rica em gordura, da banha no feijão. Temos o costume de reunir a família em volta da mesa, da confraternização em torno da comida – e as pessoas se jogam. Esses hábitos ajudam a aumentar o índice de doenças crônicas não degenerativas, que inclui o câncer, mas também o diabetes e as doenças cardiovasculares.

Digamos que eu seja uma paciente saudável que vem até aqui para saber o que está a meu alcance fazer no dia a dia para diminuir o risco de desenvolver o câncer de mama. O que a senhora me recomendaria?
É importante dizer que prevenção de câncer de mama não existe. Existe, sim, a prevenção do câncer de colo de útero. Então, temos que pensar numa estratégia para, como você mesma disse, diminuir o seu risco. Quando a gente faz essas campanhas de prevenção de câncer de mama, estamos falando da prevenção de um mal maior. A campanha é pela detecção precoce. A doença já está ali, e o objetivo é detectá-la cedo. O que eu recomendaria: ser magra, não ser sedentária, não prorrogar tanto a gravidez para além dos 35 anos e ser mais blindada.

E o que significa ser mais blindada?
Aprender a dizer não, algo que poucas mulheres conseguem. As mulheres têm que entender que elas não precisam ser queridas com todo mundo, algo que está embutido na nossa cabeça. Elas vão desagradar algumas pessoas e isso é do jogo da vida. A questão é que a gente nasceu para agradar, e isso gera ansiedade no mundo em que hoje vivemos. Porque é impossível de ser colocado em prática. Somos demandadas a ser fortes, líderes, chefes, mães, mulheres… É impossível. É preciso fazer escolhas. E aprender a dizer não. Muitas mulheres chegam aqui oprimidas, desvalorizadas, angustiadas, tristes, sem conseguir reagir com as demandas do mundo lá fora, e ainda por cima se veem obrigadas a enfrentar uma doença como o câncer de mama. É muito duro. É preciso estar forte – e para estar forte é preciso aprender a se impor e a impor limites.

O que a senhora achou da atitude da atriz Angelina Jolie, de se submeter a uma dupla mastectomia e expor publicamente esta decisão? A decisão da atriz resultou em demanda de mais mulheres pelo mesmo procedimento?
Total! Gerou uma banalização da mastectomia profilática. Há muitas mulheres sem aconselhamento genético fazendo o mesmo. Eu recebo propostas diárias para esta cirurgia de mulheres saudáveis e que sequer têm conhecimento da chance de desenvolver ou não a doença. Está uma onda forte de mastectomia profilática sem indicação médica. Está over.

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Qual é a idade em que a mulher deve fazer a primeira mamografia?
A partir dos 40 anos. Se a mulher tem caso de câncer de mama na família, o ideal é que faça o exame 10 anos antes da familiar de menor idade com a doença diagnosticada. Por exemplo: se a mãe dela descobriu o câncer com 39 anos, indica-se que ela comece a fazer mamografia aos 29. Trata-se de um protocolo internacional. Está comprovado que esse procedimento tem um ótimo custo-benefício. Para mulheres saudáveis, que visitam regularmente o ginecologista, não tem sentido fazer a mamografia antes dos 40 anos, exceto aquelas que colocaram prótese de silicone.

Qual é o procedimento a ser seguido por mulheres com prótese?
Mulheres com prótese de silicone tornam-se imediatamente pacientes de mastologistas. Por quê? Torna-se mais difícil apalpar a mama, e o médico precisa saber diferenciar durante o exame clínico o que é prótese e o que é nódulo. Os exames são diferentes, e as biopsias são diferentes. Há um corpo estranho ali, portanto é a um mastologista que ela precisa ir para o acompanhamento das mamas, e não a um ginecologista. Toda mulher que se submeter a uma colocação de prótese precisa ter ciência de que se torna imediatamente paciente de um médico mastologista.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

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