Ouvidos novos para receber o novo ano

O calor continua desgraçado aqui em Punta del Este. Mas o porteiro do prédio comentou há pouco que nos municípios vizinhos já começou a chover. Faz hoje em Punta um calor semelhante ao de Porto Alegre, sabe assim? Quente e úmido, sem chance de conseguir respirar. Ainda assim, sem conseguir respirar, o animal, Chico e eu saímos a desbravar as gramas ao redor da vizinhança: o passeio do animal, claro.

bento1NÃO ABRO MÃO DO MEU PASSEIO

O animal conheceu a Tina ontem. A Tina é uma vira-lata uruguaia pretinha, de porte médio, que foi adotada por um senhor uruguaio que a encontrou na estrada ainda filhote. A Tina tem três anos e o fôlego de uma vira-lata de três anos. Pois o animal, do alto de seus quase 14, achou por bem acompanhar o fôlego da Tina e se botou a corretear pela grama atrás dela. Tina provocava, saía zarpando, e o animal, de língua de fora, feito um Einstein louco, se debulhava atrás. Passados 15 minutos de uma correria infinita, a fim de me precaver de levar o animal para alguma consulta cardíaca, resolvi recolher a criatura. Foi o melhor a ser feito. Passou as últimas 24 horas dormindo, mezzo dos ladeados, mezzo de pelotas.

bento1FIQUEI EXAUSTO

Exausto deixei o animal dormindo hoje de manhã antes do passeio sufocante e me dirigi com meu pai ao consultório de um otorrino. Explico: desde que cheguei, meu ouvido entupiu. Estava há quatro dias com o ouvido entupido, surda do lado direito. Como o ouvido estava entupido, eu andava tonta. Como andava tonta, ficava enjoada. Há quatro dias ando enjoada, bebendo Spritz, andando de bicicleta e surda. Hoje o pesadelo teve fim. O otorrino limpou meu ouvido e voltei a escutar.

bento1TEM COISAS QUE TU NÃO PRECISA CONTAR NO BLOG

Tipo que precisei ir ao otorrino para limpar o ouvido? Pois é, até posso concordar em partes que este é um assunto meio particular demais, mas também traz um serviço de utilidade pública, por isso resolvi me expor dessa forma.

olivia10VERGONHA ALHEIA

bento1MUITA VERGONHA ALHEIA

A questão principal não é que há oito anos meu ouvido entope pelo menos duas vezes ao ano e eu preciso recorrer a um otorrino. A questão principal é que eu alerto: se o seu ouvido entupir, ou se qualquer incidente acontecer com você em Punta del Este, caro leitor e leitora, NÃO VÁ ao Sanatorio Mautone. O Sanatorio Mautone é um lindo e pequeno centro médico localizado na Avenida Rooselvelt, 959. Para lá me dirigi acompanhada de meu respectivo marido a fim de solucionar o problema no meu ouvido com uma simples lavagem – a mesma a qual me submeto com frequência e sem maiores percalços na Clínica Lavinsky em Porto Alegre.

Estacionamos o carro, chegamos na recepção e uma simpática recepcionista nos deu as boas vindas.
– Em que posso ajudar? – perguntou.
– Estou com um problema de ouvido tapado e preciso consultar um otorrino – pedi.
– A senhora tem plano de saúde? – ela quis saber.
– Não. Terá que ser particular – engoli em seco.
– Muito bem. Tome assento, por favor.
Sentamos.

– Vou lhe passar o valor da consulta – ela falou. – São US$ 87.
– Ok, respondi – calculando que meu ouvido tapado estava me custando mais caro que minha adorada Birkenstock comprada na Neutral, que saiu por US$ 72. – Maldito ouvido – pensei. – Poderia comprar mais uma Birken e ainda sobraria troco.
– Como será o pagamento? – ela perguntou.
– Com cartão de crédito – respondeu o Chico, estendendo o cartão e pagando pelo meu ouvido entupido.
– Vou ficar com seu cartão até o final da consulta, vocês podem esperar ali naquelas cadeiras e assim que o médico sair da outra consulta já atende vocês – ela orientou.
– Obrigada – respondemos.

Mautone-4BEM AQUI SENTAMOS PRA ESPERAR

Passados cerca de 15 minutos, o médico se apresentou. Estendeu a mão para nós dois e pediu que o acompanhássemos até o consultório. Adentramos o recinto.
– Em que posso ser útil? – perguntou.
– Doutor, tenho um problema no ouvido direito. Há oito anos ele entope de tempos em tempos e preciso fazer aspiração e lavagem. É este o caso agora – expliquei.
– Está com febre? – ele quis saber.
– Não.
– Tem dor no ouvido?
– Não.
– Dor de cabeça?
– Não.

mulher-doidissima1SÓ TENHO O MALDITO OUVIDO ENTUPIDO

Sente-se aqui, por favor – ele falou, apontando para a maca.
Levantei da cadeira e sentei na maca.
– Vou examinar teus dois ouvidos.
Então, enfiou aquela lupa com ponteira no meu ouvido esquerdo (saudável) e em seguida no direito (tapado). Retirou a lupa com ponteira, me encarou com olhar solene e disse:
– Tienes mala surte (Estás com azar, em tradução livre).
– Hein?
– Está vendo? – perguntou, mostrando a ponteira da lupa. – Isso aqui é pús.
– Negativo – respondi. – Isso daí é cera. Meu ouvido direito produz cera em excesso e por isso entope.

bento1TEM COISAS QUE ELA NÃO DEVERIA CONTAR NO BLOG

– Estás enganada. É pús – ele insistiu. – Estás com o tímpano perfurado e com uma séria infecção no ouvido. Terás que tomar antibiótico e anti-inflamatório por pelo menos 20 dias. Com sorte, ficarás boa em um mês, 40 dias – diagnosticou e saiu da sala. – Volto em um minuto – disse.
Sozinha com o Chico na sala, montei num porco.
– Esse cara é louco. Se eu tivesse com o tímpano perfurado, estaria urrando de dor. Aquilo que ele me mostrou é cera, não é pús porcaria nenhuma. Não tô acreditando!
– E o que a gente faz? – perguntou o Chico.
– Sei lá!
O médico voltou para a sala.
– Vou recomendar por escrito a senhora ao otorrino para que ele avalie seu caso.
– E o senhor é o quê? – eu quis saber.
– Sou clínico geral.
– E como pode dar um diagnóstico assim não sendo especialista? – quis saber o Chico.
– Bem, quanto ao diagnóstico não há dúvida. Vou encaminhá-la para o otorrino para que ele dê o seu parecer e oriente sobre a correta medicação.
– E por que não fomos atendidos diretamente por um otorrino se eu cheguei aqui falando que o problema era no ouvido?
– Porque sempre é preciso passar pela consulta do clínico geral para que ele dê o encaminhamento correto – ele dizia enquanto escrevia num maldito pedaço de papel.

mulher com raivaPICARETA DOS INFERNOS

– Me acompanhem, por favor – disse, abrindo a porta da sala e nos levando de volta para a recepção.
– Essa senhora precisa consultar com o otorrino – ele falou para a recepcionista. – Aqui está o encaminhamento – continuou, estendendo o maldito pedaço de papel para ela. – Passem bem – falou para a gente, virou as costas e saiu.
Estávamos catatônicos. Olhei para a cara do Chico, Chico olhou para minha cara. Vimos dois otários na cara um do outro.
– Sentem-se, por favor – falou a recepcionista, que havia retido o cartão de crédito do Chico na entrada. – Vocês vão pagar já as duas consultas? – ela quis saber.

angry-womanPICARETA DOS INFERNOS

– Não. Apenas uma – respondi.
– Na verdade, não deveríamos pagar nenhuma, já que não fomos atendidos por um especialista. Ou, no mínimo, esse pagamento deveria valer também para o otorrino – disse o Chico.
– São consultas distintas e preciso cobrar duas – ela respondeu.
– Podemos falar com o otorrino agora então? – Chico quis saber.
– Ele não está. Fica de plantão fora. Caso a gente precise, chamamos. Querem que chame para marcar a consulta?
– Não. Por favor, cobra esta e estamos indo embora.

mulher-blusa-vermelha-nao-quero-ver4VOLTAMOS PRA CASA COM O OUVIDO ENTUPIDO E COM 87 DÓLARES RASGADOS

Então, durante as outras mais 24 horas que passei com o raio do ouvido entupido, fui orientada a ir a um centro de consultórios médicos localizado na Parada 10 da praia Mansa. Se você, caro leitor ou leitora, precisar de qualquer atendimento médico – de otorrino a cardiologista – lá é um bom lugar. Deixo até o telefone: 4248-3203 e 4248-9448. Em 10 minutos, o otorrino que me atendeu, doutor Matías Gelós, aspirou meu ouvido, fez a lavagem, disse que meu tímpano estava perfeito, orientou que eu pingue água oxigenada quando estiver com problema de ouvido entupido por excesso de cera e desejou um Feliz 2015.

E com ouvidos limpinhos, prontos para ouvir muitos desejos de Feliz 2015, desejo um Feliz 2015 para vocês também! Como é que a gente diz mesmo, Olivia e Bento?

bento1MUITO DINHEIRO NO BOLSO

olivia10SAÚDE PRA DAR E VENDER

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

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