Mari Kalil: Amiga, não visitá-la na maternidade não significa que não ame você

Eu sigo incomodada com o mundo lá fora. Tenho essas fases, já me acostumei comigo mesma. Eu sigo incomodada com a vida que se posta e não necessariamente com a vida que se vive. Isso continua me incomodando – e eu levei este assunto hoje para a minha terapia. Comentei que havia desabafado publicamente sobre o assunto no texto Pelo Direito de Chorar e só ser Feliz com o que a Vida de Verdade pode Comprar. Foi bom ter desabafado e foi melhor ainda ler os comentários que chegaram aqui no site e na página do Facebook. Não estou sozinha. Como já imaginava, somos maioria. E somos mais!

O que disse a minha terapeuta? Ela disse que eu, você e todas nós, amigas e leitoras,  estamos cobertas de razão. Que ninguém aguenta mais este mundo de falsas aparências – e agora cheguei exatamente na palavrinha mágica que ela mencionou e que eu queria chegar: falsidade. O mundo está falso demais; nossa sociedade anda falsa demais. Tão, mas tão falsa que as pessoas mentem até para si mesmas.

Mentem que gostam de comer essas coisas lindas e insossas que vivem postando no Instagram; mentem que pão sem glúten com tofu é muito melhor do que cacetinho com manteiga; mentem que a vida está ótima, o trabalho está bárbaro, o casamento é romance puro e filhos… Ora, filhos é a experiência mais divina que um ser humano pode experimentar e não há um só dia em que se arrependam de tê-los tido.

shouting-womanMENTIRA

Conversei também sobre certas convenções da sociedade que me incomodam – incomodam muuuito. Por exemplo: visita em maternidade. O assunto veio à tona porque tenho uma querida amiga que deu à luz uma linda menina no domingo passado. Eu estava voltando de viagem do feriado de Páscoa e cheguei meio resfriada a Porto Alegre. Nada de mais, mas espirrando um pouco. Logo ponderei que hospital era o último lugar que deveria passar perto, sobretudo tratando-se de um quarto de recém-nascido.

Mandei uma carinhosa mensagem para minha amiga, desejando saúde, vida longa, felicidade à primogênita – e falei, que assim que ela estivesse tranquila com sua nova rotina em casa, assim que ela se sentisse pronta para receber a visita de amigas, que me avisasse, que adoraria conhecer o bebê e dar-lhe um beijo pessoalmente.

+MARI KALIL: Sobre a náusea que sinto e a esperança que #euacredito

Então, me peguei pensando: “Sabe que, se eu não estivesse resfriada, também teria feito o mesmo?”. Depois que enviei aquela mensagem, me dei conta do alívio que senti, do quão lúcida considerei ter sido minha decisão e do quão à vontade me senti com ela – muito mais à vontade do que se tivesse batido na porta do quarto com um presentinho na mão para fazer uma visitinha, enquanto minha amiga estaria lá querendo ouvir o que o pediatra tem a ensinar, o que a enfermeira tem a ensinar, o que a mãe dela tem a dizer, o que as irmãs têm a orientar. Pensei que estaria dando uma demonstração muito maior de carinho, amor e afeto deixando minha amiga em paz, junto da família e do marido, para entender que vida nova é essa que se apresenta. Para aproveitar os poucos dias com médicos e enfermeiras a fim de aprender ao máximo a lidar com aquele pedacinho de gente que acabara de chegar.

bad-baby-photographyBEM-VINDO, PINGUINHO DE GENTE

Eu sei, eu já li que tem mães que até contratam bufê para receber visitas na maternidade e exibir a criança como um troféu. Tem pais que chamam os amigos para beber cerveja e fumar charuto no hospital. Não estou aqui para julgar ninguém e me abstenho de divagar a respeito do que penso disso tudo. Tampouco quero dizer que condeno quem faz visitas ou gosta de recebê-las. Nem pensar! Quem sou eu para isso? Apenas estou expondo um sentimento que vive dentro do meu coração – o sentimento de preferir pensar antes no outro (no caso, aquela mãe muitas vezes ainda com dor, que sequer aprendeu a amamentar) do que em mim.

Tenho o hábito de pensar em como gostaria de ser tratada para, a partir daí, tratar as pessoas da mesma forma. A tal história “não faço com os outros o que não gostaria que fizessem comigo”. Não tenho filhos e não os terei (já escrevi sobre o tema e posso voltar a ele, visto que leitoras têm me pedido para tratar do assunto). No entanto, conhecendo como me conheço, tenho absoluta certeza de que não gostaria de estar de camisola numa cama de hospital, com um bebê que começo a conhecer, tendo que aprender a amamentar, dar banho, trocar fralda, me dar conta de que eles nem sempre reproduzem na vida real aquilo que lemos nos livros e, simultaneamente, sorrir, tirar fotos, fazer sala e fingir que não estou virada numa morta-viva e necessito dormir um pouco – condição natural que toma de assalto todas as mulheres no começo da carreira de mães.

httpwpclicrbscombrporaifiles201305baby-kiss2gifERA ESSE O DESABAFO POR HOJE

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mariana

mariana

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é sócia-diretora de conteúdo do portal MK. É autora dos livros "Peregrina de Araque - Uma Jornada de Fé e Ataque de Nervos no Oriente Médio" (2011), "Vida Peregrina - Uma Jornada de Desequilíbrios, Tropeços e Aprendizado" (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. Dona do Bento, da Papaqui e tia da Olivia, vive em Porto Alegre ao lado do marido e dos peludos. Escreve diariamente na seção Por Aí, que funciona como uma espécie de blog e diário do site, e também nas outras seções do portal MK.

5 Comentários
  1. Isso ai Mari vamos cair na vida Real… assim como você levo ao pé da letra o ditado ” não faço com os outros o que não quero que façam comigo”, e isso tem funcionado muito bem . Quando nasceram meus 2 filhos senti na pele, a dificuldade de não magoar as pessoas, eu naquele momento não estava nada bem , sob efeitos de anestesia, remédios mais de 32 horas sem me alimentar , como poderia receber visitas? Mas ao mesmo tempo não podia “tocar” as pessoas embora , tive que fazer cara de feliz e agradecer o carinho, para não magoar. Mas agora quando alguma amiga tem bebê, penso muito no que passei e respeito este tempo e só visito a nova mamãe quando o bebê já está com quase 1 mês. A ansiedade em conhecer o rebento de alguém que amamos muito é grande , mas só quem é mãe sabe o pesadelo dos primeiros dias … Eu praticamente não dormia, 24 horas ligada na respiração dos filhos, nos movimentos, no cheiro , no choro, em tudo, parecia uma zumbi. Não venham me dizer que tudo é doce e lindo porque não é , ainda mais na primeira vez. Minha amada vó que teve 12 filhos nunca me disse que ser mãe era maravilhoso e fantástico, ela me dizia assim : o dia que tu tiver um filho vai aprender a cuidar muito melhor de ti e dos outros, ser mãe é cuidar . Beijos Mari .. tudo de bom.

  2. Perfeito! Concordo contigo em todos os motivos que colocastes! Eu tive duas filhas e na primeira, tive visitas que esqueceram o horário de voltar pra suas casas! Lidar com toda a novidade e a vontade de dormir imperiosa, é um absurdo, na vida da nova mãe! Tenham piedade e só visitem muitos dias depois!! Mamãe e bebê agradecem comovidos!!

  3. Super concordo contigo, Mari. Minha primeira filha nasceu em janeiro de 2015 e eu optei por não receber visitas de amigos no hospital. Muita novidade, desconforto pós parto (muito desconforto, por sinal) e muito cansaço para ter de ficar fazendo sala. Meus amigos compreenderam a minha decisão (acho que sim, pelo menos!) e foram conhecer a minha filha aos poucos quando já estávamos mais acostumados com a nova rotina em casa. Não me arrependo e farei de novo se tiver um segundo filho.
    Parabéns pela tua sensibilidade.
    Um beijo pra ti.

  4. Mari, concordo contigo em tudo! Gênero, número e “degrau”. Coisa mais chata essa vida de falsidades que as pessoas levam!
    Mas, onde mais concordei foi na visita da maternidade. Depois de 2 gestações, onde tive visitas completamente sem “simancol”, que ficaram até as 2h da madrugada do dia em cheguei em casa com meu bebê, ou que ficaram no quarto do hospital até às 22h, aprendi! Aprendi que, se tivesse mais filhos, enxotaria todo mundo. Confirmei uma coisa que já fazia: só visito depois de um mês, pelo menos!!
    E me valho muito dessa máxima: pros outros, só o que quero prá mim! Porque tem que ser sempre assim, em tudo! Sempre!!
    Beijo grande!

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