Diário da Mari: “A vida esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa. O que ela quer da gente é coragem”

Minha irmã costuma dizer que vejo o mundo com um par de óculos cor de rosa particular – ao que minha mãe, detalhe, concorda. Segundo elas, tudo funciona à sua maneira e ao seu ritmo no “fantástico mundo de Mariana”. No fantástico mundo de Mariana, há um otimismo que quase beira a irresponsabilidade. Há inquietude, curiosidade, idealismo e, sobretudo, uma busca incansável e às vezes frenética de viajar ao redor do mundo e da mente buscando o sentido da vida.

bento1124É DE DEIXAR A GENTE TONTO

Fiquei sabendo dia desses de uma conversa reservada da minha irmã com nosso pai (segredos duram pouco em família, sabe como é….). Lulu estava temerosa com a minha iniciativa, um ano e meio atrás, de deixar a estabilidade de um emprego para empreender e ser dona do próprio negócio e do meu nariz.

– Este é o modus operandi da Mariana – nosso pai respondeu, tranquilizando a caçula. – Durante toda a vida, ela sempre deixou isso muito claro com as mudanças de emprego, de cidade, de país, de idas e vindas. A Mariana agarra um desafio, não sossega enquanto não vence e, então, deixa a estabilidade conquistada para começar tudo outra vez. Não te preocupa com ela. Ela sempre venceu e sempre vencerá.

crying2-425x499OBRIGADA POR ACREDITAR, PAI

Podemos levar uma vida inteira até adquirir alguma noção de quem somos e onde é que nos encaixamos. Faço aniversário no próximo dia 19 e ainda não tenho certeza se já cheguei aonde queria ou se realmente sei aonde quero chegar.

HS2598SÃO MUITAS DÚVIDAS

Me incomoda uma trajetória linear, sem solavancos. Preciso experimentar o oito e o 80; subir ao céu e descer ao inferno; ter sempre novos começou e finais. Ao longo dos meus 20, 30 anos, fui muitas Marianas em uma só: com dinheiro aplicado, previdência privada e também sem um tostão na carteira e no banco. Tive caminhonete e bicicleta; andei de salto e Havaianas; o cabelo já foi bem curto e bem comprido; joguei handebol, vôlei, tênis, tive personal trainer e instrutor de ioga hindu.

bento1122ELA SEMPRE FOI CAÓTICA

Cada movimento, cada convivência e conhecimento adquiridos com diferentes lugares e pessoas possibilitou que encaixasse mais uma pecinha no meu quebra-cabeça. Para tudo isso foi preciso apenas uma coisa: coragem. Se me perguntam o que mais temo na vida, não digo que é a morte. Temo perder a coragem – e é para a tatuagem “coragem” escrita em árabe no meu pé esquerdo que olho a cada manhã ao levantar da cama.

coragemCORAGEM EM ÁRABE

A palavra coragem  surgiu originalmente do latim “cor”, que significa “coração”, e a definição original da palavra era “contar a história de quem você é com o coração”. Não é lindo? Coragem significa ser quem a gente é e nos expressarmos assim, apesar do que o mundo possa pensar a nosso respeito. Significa defender aquilo em que acreditamos, correr atrás dos sonhos, lutar pela nossa liberdade. Coragem não significa a ausência do medo, mas a ação apesar dele.

homem-vade-retroVADE RETRO

Daqui pouco mais de uma semana, quando a nuvem negra do Inferno Astral tiver se dissipado da minha cabeça para dar início a mais um ano de jornada, só desejo continuar vivendo segundo as palavras de Guimarães Rosa, para quem a vida sempre foi assim: “esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Woman-prayingAMÉM

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

2 Comentários
  1. Já deves saber disso… mas vou dizer mesmo assim kkkkk, tens o dom da palavra, quando escreves me identifico muito, e tuas palavras sempre me deixam muito feliz! Adriana

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