Mari Kalil: Como estamos vivendo e o que queremos para o ano que se inicia

Vinha caminhando neste calor de Forno Alegre, atravessando o Parcão, com um humor do cão debaixo do sol do meio-dia, quando o celular apitou avisando de uma mensagem que havia acabado de chegar por WhatsApp. Espiei.

scared-woman-679x4991AAAFFFF

closeup of cross-eyed woman with nostrils pinched shutMAIS UM VÍDEO IDIOTA

bento1122ELA É MUITO MAL HUMORADA

Interrompi a caminhada no deserto devido à visão paradisíaca de um carrinho de água de coco e aproveitei a pausa para dar o play no vídeo. “Vamos ver qual é a mensagem imbecil repleta de rosas, arco-íris e potes de ouro pulando na tela que mandaram agora”, pensei. Então, o vídeo iniciou com a voz de um daqueles locutores que se dedicam a narrar amores não correspondidos nesses programas de rádio da madrugada. Começou assim:

Nós bebemos demais. Fumamos demais…

Dei um “pause”, peguei minha água de coco e sentei à sombra de uma árvore. “Ok, vou ser menos azeda e tentar assistir”, ponderei. Voltei a dar o play – e assim continuou:

Gastamos sem critérios. Dirigimos rápido demais. Ficamos acordados até muito mais tarde. Acordamos muito cansados. Lemos muito pouco, assistimos tevê demais e oramos raramente. Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nosso valores. Nos falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente. Aprendemos a sobreviver, mas não a viver.

Adicionamos anos às nossas vidas, mas não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos da Lua, mas temos dificuldade de atravessar a rua e encontrar um novo vizinho. Conquistamos o Espaço, mas não o nosso próprio. Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores. Limpamos o ar, mas poluímos a alma. Dominamos o átomo, mas não o nosso preconceito.

Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planejamos mais, mas realizamos menos. Aprendemos a nos apressar e não a esperar. Construímos mais computadores para armazenar mais informação e produzir mais cópias do que nunca. Mas nos comunicamos menos. Estamos na era do fast food e da digestão lenta. Do homem grande de caráter pequeno. Lucros acentuados e relações vazias”.

Esta é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das pílulas mágicas. O momento de muita coisa na vitrine e muito pouco na despensa. Uma era em que você escuta este vídeo e uma era que te permite dividir esta reflexão com mais alguém ou simplesmente clicar Delete.

save-icon-33ESCOLHI SALVAR

Não apenas salvei, como estou compartilhando neste post. Um pouco piegas? Sim. Autoajuda da mais alta estirpe? Também. Mas independentemente de preconceitos (que estamos cheios, como diz o texto), fala muitas verdades e traz alguma reflexão sempre bem-vinda sobre o momento presente, quem desejamos ser e o que queremos para a nossa vida neste novo ano que se inicia. A você, meu desejo de um feliz 2018. Obrigada por mais um ano de leitura e companhia.

ano-novoA GENTE AGRADECE DE CORAÇÃO

Compartilhar
Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

2 Comentários
  1. Belo texto! Quem dera pudéssemos aprender uma pequena parte de tudo isso… Com certeza, teríamos mais qualidade de vida, mais convivência, mais solidariedade e humanidade…Quem dera! Mas vamos ter esperanças de que 2017 venha com, no mínimo, mais tolerância! Feliz 2018!

Comentar

Seu endereço de email não será publicado

Utilize as tags HTML : <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Facebook

Instagram
  • Né?!👌🏻#simplesassim #bekind
  • “Nunca mais me convida pra pegar praia em José Ignacio.” #gorda #reportergorducha
  • Dia de praia no @lachozademarparador. Viaja até José Ignacio, caminha na areia quente, procura guarda-sol, carrega geleira, sacola, mochila, faz reportagem para o Band Mulher e sorri pra foto! 🤣🐶
  • Bento envelheceu. Não foi do dia para a noite. Trata-se de um envelhecimento gradativo. Uma enfermidade aqui, uma coisinha crônica acolá – e há uns bons cinco anos vamos levando esses percalços da velhice com acompanhamento veterinário, exames de rotina, troca de medicações, mas sobretudo, com amor, cuidado, amizade, lealdade e fé. Neste último ano, mais precisamente nos últimos meses, Bento deixou de ser um cachorrinho vivaz, de olhos espertos e comportamento ágil para se transformar em um senhor de seus lá 95 anos (equivalente à idade humana) que requer uma série de cuidados e a minha presença e atenção 24 horas por dia. O diagnóstico complicou, como costumam complicar os diagnósticos à medida que a idade avança, e através do olhar do Bento eu enxergo diariamente o reflexo da finitude da vida. Não pode existir sofrimento maior para um dono de cachorro do que essa despedida diária. A cada dia, menos um dia. A cada dia, também uma surpresa. Um dia feliz, caminhando melhor, disposto, com apetite e sorrisos. No dia seguinte, sono, muito sono, xixi nas calças, olhar distante, cabecinha para o lado e alheio ao mundo ao redor. Um dia vivaz; noutro, senil. Deveria ser proibido pela natureza vivermos tal experiência. Bento significa para mim muito mais do que um dos meus grandes melhores amigos.
É meu companheiro de jornada por uma vida de altos e baixos, cheia de mudanças e reinvenções – e da qual foi testemunha ocular e grande conselheiro. Nos conhecemos quando ele tinha 30 dias de vida e desde então cruzamos oceanos até. O que eu quero que ele saiba – e o que eu sei que ele sabe – é que estarei sempre aqui. E hoje estamos aqui. E assim seguiremos juntos. Com sorrisos e mãos dadas. Até o fim. Porque a única certeza que temos é a de que o fim chega para todos nós. E com ele um novo renascer.🐶♥️🙏🏻 #bento #xerife #18anos #companheirodejornada
  • Muito havia ouvido falar de que filhos de nossas irmãs são nossos filhos também. Mas a teoria sempre só faz sentido quando a realidade se confirma. Quando João Benício nasceu, me tornei tia – e ser tia é o maior presente que um irmão e uma irmã podem nos dar. Ser tia é descobrir a maternidade de outra forma, é descobrir um amor que não sabíamos que existia. Quando me tornei tia, passei a enxergar as crianças sob outra ótica, com mais ternura e paciência. Passei a entender também a falta de paciência das mães em muitos momentos. Quando me tornei tia, passei a sentir mais saudade, passei a beijar e a abraçar mais. Passei a me preocupar mais com a humanidade, com o futuro, com o legado das pessoas e das coisas. Quando João nasceu, me tornei um ser humano melhor. Ser tia é amar profundamente uma pessoa que parece ter saído de dentro de nós. É encontrar tempo onde antes só havia falta de tempo. É segurar no colo, é não sentir dor no braço, é aguentar sem reclamar a dor nas costas. É deixar a garrafa de vinho e o Netflix de lado numa sexta-feira à noite para deitar ao lado de quem insiste em se manter acordado. Tias também são mães, são capazes de amar como mães. Tias são a segurança das mães de que, em qualquer ausência delas, amor é o que jamais faltará. Porto Alegre, agosto de 2015. #joãobenicio #amordatia #amordadinda
  • Gula é o desejo insaciável, além do necessário, em geral por comida, bebida. Pecado capital, viu Gorda?