As pausas necessárias

São 22h05min do dia 10 de setembro. E eu me peguei pensando sobre a morte. Perdi uma pessoa querida, uma avó emprestada, e sempre que alguém próximo se vai, querendo ou não, parece que o mundo faz uma pausa, a rotina faz uma pausa, a urgência comezinha das tarefas diárias faz uma pausa, o relógio faz uma pausa, a vida, enfim, faz uma pausa.

Tudo pode esperar

E é no silêncio dessa pausa que a urgência verdadeira se manifesta. A urgência de estar sempre perto de quem é mais importante, das coisas que são mais importantes. A urgência de saber perceber o que são as reais prioridades da vida. E quer saber? Elas não são muitas, e elas são simples. Basta, a cada dia, se dar o direito de fazer essa pausa e espiar, espiar lá dentro, bem lá dentro. Não dá tempo? Sim, dá tempo. O mundo pode esperar.

Tudo pode esperar

Tenho uma mania que me acompanha 24 horas por dia de sempre imaginar, na hora de uma decisão, se eu me orgulharia de mim. Me pego pensando: “Quando eu tiver meus tantos e tantos anos de vida, terei orgulho de ter feito isso?”. Se a resposta for sim, vou lá e faço. Porque acho que, no fim das contas, o que fica é a satisfação de olhar pra trás e pontuar o que de verdade valeu a pena. Lá no fim, eu quero olhar pra trás e ter orgulho de ter vivido tudo o que vivi. E só tem orgulho disso quem presta atenção no dia a dia. E para isso, são tão importantes as pausas da vida.

Apertar o botão “pause”

Parece simples, mas não é. Eu penso muito na morte, eu penso muito na minha morte, penso demais na morte de quem quero bem. E acho que, de certa forma, consigo exterminar o fantasma da morte, tratar essa morte não como um bicho de 7 cabeças, mas como uma transfomação. Uma vez, ao perder um tio muito querido, o tio Pedro, já de volta em casa após o enterro, me peguei sentada diante da minha mãe bebendo uma taça de vinho. E disse a ela:

– Não é a morte em si que me assusta, porque o outro lado deve ser muito legal. O que realmente me assusta é o pavor da ausência do reencontro. É não saber se, quem eu amo aqui e agora, lá fora estará de novo comigo.

– Como assim, minha filha? – ela perguntou.

– Tenho medo, mãe, de não te reconhecer. Tenho medo, muito medo, de te encontrar lá do outro lado, passar por ti e não te reconhecer.

E então, ela segurou bem forte minha mão. Apertou, acariciou e disse:

– Está sentindo, minha filha? Esse é o toque da tua mãe, esta é a mão da tua mãe. Não esqueça desse toque. Quando a gente se reencontrar, onde quer que seja, e tu sentir esse toque na tua mão, serei eu, a tua mãe.

Não sei se ela lembra disso, mas é um dos momentos mais valiosos que tive até hoje. Eu gosto de falar sobre a morte porque ela faz parte da vida, simples assim. A perspectiva da finitude é engrandecedora. Muita gente me tira pra louquinha, nada certinha, mas eu acredito que viver observando a ideia da morte nada mais é do que se familiarizar desde cedo com a certeza de que tudo isso aqui é apenas um intervalo entre muitos que nos concede a arte e o prazer dos encontros e reencontros.

O prazer de um abraço apertado

Tenho duas leituras que gosto demais sobre este tema da passagem para este outro lado desconhecido. Uma é de David Serva-Schreiber: “Podemos Dizer Adeus Mais de Uma Vez”.

A outra é a filosofia de Michel de Montaige: “Meditar sobre a morte é meditar sobre a liberdade; quem aprendeu a morrer desaprendeu de servir; nenhum mal atingirá quem na existência compreendeu que a privação da vida não é um mal; saber morrer nos exime de toda sujeição e constrangimento”.

Diz ele, no livro que já citei aqui e recomendo demais, “Como Viver”:

“Se você não souber como morrer, não se preocupe; a Natureza lhe dirá na hora o que fazer, completa e adequadamente. Ela executará perfeitamente este trabalho para você; não ocupe sua cabeça com isto.”

Pode existir liberdade maior de viver depois dessas palavras? Eu acho que não.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

Sem comentários ainda.
  1. Mari, lendo isso que tua mãe me disse me deixa realmente emocionada pq te digo, não consigo entender a morte (a louca!) mas quem sabe um dia entenda melhor, eu já perdi pessoas mtos próximas, amigos enfim…é um buraco que não fecha, a dor ameniza mas o buraco não fecha, torço mto poder encontrar todas as pessoas que já foram, mesmo não tendo a certeza deste encontro, torço mto p que aconteça!E com filho???????Guriaaaaaaaaaaa, tudo piora hehehehe dá mais medo da morte ainda….nem quero pensar na morte de ninguém mas que eu ODEIO, sim, EU ODEIO!!” VAMOS VIVER TUDO QUE HÁ PARA VIVER, VAMOS NOS PERMITIR”….bj

  2. Mari, lendo isso que tua mãe me disse me deixa realmente emocionada pq te digo, não consigo entender a morte (a louca!) mas quem sabe um dia entenda melhor, eu já perdi pessoas mtos próximas, amigos enfim…é um buraco que não fecha, a dor ameniza mas o buraco não fecha, torço mto poder encontrar todas as pessoas que já foram, mesmo não tendo a certeza deste encontro, torço mto p que aconteça!E com filho???????Guriaaaaaaaaaaa, tudo piora hehehehe dá mais medo da morte ainda….nem quero pensar na morte de ninguém mas que eu ODEIO, sim, EU ODEIO!!” VAMOS VIVER TUDO QUE HÁ PARA VIVER, VAMOS NOS PERMITIR”….bj

  3. Mariana!

    Muito legal, hoje conheci uma outra Mariana, densa, profunda, muito diferente de quando tratas de assuntos do cotidiano, que rendem posts não menos interessantes que eu adoro e recomendo para todas as pessoas que conheço. Precisamos destes momentos de reflexão, para que possamos encontrar significados para a nossa exitência. bejos

  4. Mariana!

    Muito legal, hoje conheci uma outra Mariana, densa, profunda, muito diferente de quando tratas de assuntos do cotidiano, que rendem posts não menos interessantes que eu adoro e recomendo para todas as pessoas que conheço. Precisamos destes momentos de reflexão, para que possamos encontrar significados para a nossa exitência. bejos

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