O sorriso que somente passou para o outro lado do caminho

… E foi então que resolvemos fazer uma reunião de pauta rápida para debater sobre a notícia da morte da americana Britanny Maynard, que foi diagnosticada com um câncer terminal no cérebro em janeiro deste ano, ouviu dos médicos que teria poucos meses de vida e resolveu, aos 29 anos, colocar fim à própria vida de forma voluntária e legal. Britanny morreu no sábado, dia que havia escolhido, “como queria, em paz em seu quarto, em braços de seus entes queridos”, comunicou o porta-voz da associação fundada por ela.

brittanymaynard-1132x751BRITANNY ANTES DO DIAGNÓSTICO DA DOENÇA

Thamis publicou a matéria, no site de DONNA (veja neste LINK), com vídeos de Britanny falando sobre sua decisão pela eutanásia. E agora eu estava aqui, lendo e assistindo aos depoimentos dela, quando fui acometida por uma crise ininterrupta de choro. Impossível não se emocionar com sua história, sua dignidade e, sobretudo, com sua coragem de colocar um ponto final na própria vida de maneira consciente, não deixando este ônus de herança para ninguém.

Eu vinha acompanhando a história dela desde agosto, quando Britanny começou uma campanha para estimular as leis de morte digna e suicídio assistido nos Estados Unidos. Residente em Oakland (Califórnia), ela teve de se mudar para Portland, no estado vizinho do Oregon, para poder se suicidar com assistência médica, já que esse é um dos cinco estados do país que regulam essa prática.

Britanny mudou-se para lá com a família (era filha única) para poder receber legalmente, por sua própria vontade, uma receita médica de drogas que acabaram com sua vida no último sábado. A decisão de tornar o processo público tem como objetivo ampliar essa possibilidade a todo o país.

A campanha, difundida pela organização Compassion&Choices, foi formada por vários vídeos nos quais Britanny contava sua evolução desde que em 1º de janeiro deste ano foi diagnosticado um glioblastoma, uma forma de câncer no cérebro agressivo e incurável. Tinha se casado em 2012 e estava tentando engravidar.

Em sua lista de coisas a fazer antes de morrer, estava visitar o Grand Cânion do Colorado e comemorar o aniversário do marido, na semana passada. Em 21 de outubro Britanny publicou fotos no Parque Nacional do Grand Cânion. Na quinta-feira passada, em um vídeo publicado apenas dois dias antes da data escolhida,  expressou suas dúvidas. Sentia-se bem para continuar vivendo, dizia, e deixava a porta aberta para postergar sua decisão, mas ao mesmo tempo tinha consciência de que algum dia não seria capaz de tomá-la.

A página da web da campanha já não mostrava na tarde de ontem nenhuma nova mensagem de Brittany, exceto um obituário que começa com a frase: “Um dia, sua vida passará em um instante diante de seus olhos. Garanta que vale a pena vê-la”.

É muito difícil imaginar o que eu faria no lugar dela, pois acredito que só conseguimos tomar certas decisões tão drásticas como esta quando passamos por experiência semelhante. Hoje, daqui deste meu cantinho no mundo, assistindo a esta história tão terrivelmente emocionante e que chamou a atenção de um planeta inteiro, sou capaz de afirmar que faria o mesmo. Tomaria a mesma decisão de Britanny.

Devemos ter o poder de decidir pela nossa própria vida em casos extremos, quando não há mais luz no final do túnel. É algo terrível de se fazer. Se a despedida provisória de quem amamos já é algo que aperta demais o peito, imagina a despedida para todo o sempre?

bento1FALA DAQUELE TEXTO DE SANTO AGOSTINHO

Tão lindo… Muito bem lembrado, Bento querido. Conheci este texto no velório da minha querida amiga e colega Bela Hammes. Me emocionei tanto, mas tanto… Encontrei nas palavras de Santo Agostinho um conforto tão grande para a perda que fazia alguns dias vinha tentando encontrar uma forma de encaixá-lo aqui no blog, em algum post que não fosse a quantidade de zoeira que costumo postar diariamente.

bento1AINDA BEM QUE ELA TEM NOÇÃO

Buscava muito uma forma de compartilhá-lo. Então, este ato voluntário de despedida da vida que foi tomado por  Britanny Maynard me inspirou a publicá-lo. Um texto sábio, que todo mundo deveria ter em mente a cada momento de dizer adeus.

A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me dêem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

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