Por que ouvir música clássica pode transformar a nossa vida

Bate um solzinho aconchegante que entra pela janela e torna ainda mais azul a paisagem do porto de Punta del Este. Estou sentada justamente neste feixe de luz. Mal sentada, aliás. No sofá, sem encosto, dedilhando os teclados do notebook apoiado em duas almofadas, uma em cima da outra. Com a coluna torta e olhando para a tela, que está baixa e força minha cervical. Tudo, tudo errado. Mas tenho um bem-estar tão, mas tão grande que todo esse esforço vai valer a pena – e depois é só fazer 10 minutos de alongamento que as vértebras voltam para o lugar, vai dizer?

– Gostou da seleção musical? – me pergunta agora, meu respectivo marido, ao passar por mim e perceber que meu olhar anda bem longe.
– Adorei. Estou viajando. Dá uma paz muito grande, não sente?
– Muito. Tira a gente dessa roda viva, né?
– Completamente.

Do que estamos falando? Que seleção musical é esta?

shouting-womanMÚSICA CLÁSSICA

Não sou uma pessoa movida à música. Ou melhor, não sou uma pessoa movida a barulho. De música eu gosto. Mas sempre tenho algo mais urgente a fazer antes de selecionar músicas para ouvir. Chico, meu respectivo marido, é o oposto. Precisa de música para viver. Como sabe que música barulhenta me incomoda muito, resolveu tirar um tempo para fazer uma seleção de músicas clássicas e deixar tocando pelo apartamento. Foi a melhor coisa que ele poderia ter feito por mim nos últimos tempos.

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Muito já tinha ouvido sobre os efeitos da música clássica no nosso cérebro. Mas nunca tinha parado para me aprofundar a respeito até porque nunca tinha sentido essa maravilhosa sensação. “A hora é agora”, pensei. “Vamos já entender o que está se passando com meu cérebro”, continuei pensando. “Porque não é possível a capacidade deste tipo de música de tirar com a mão a ansiedade do peito”.

Fui pesquisar a respeito. De fato. Dois elementos importantes da música clássica a tornam tão intensamente atraente: ritmo e melodia. O ritmo atua como um estimulante para o cérebro enquanto a melodia desperta a mente. Melodia e ritmo quando combinados afetam o desempenho e organização do cérebro no sentido positivo.

flying womanFAZEM A GENTE LEVITAR

Estudos têm mostrado que a produção de serotonina é elevada no cérebro quando uma pessoa está absorvida na música. Trata-se de um hormônio que também age como antidepressivo. “Quando sua mente está sintonizada com as notas de música clássica, então você pode detectar automaticamente uma aura agradável em torno de você. A vibração calmante que você se sente em torno de si mesmo é o resultado de serotonina que é liberada sob o efeito da música clássica. Os cientistas também dizem que a música clássica pode trazer para baixo os níveis de hormônio de cortisona, cuja presença excessiva pode causar estresse, ansiedade e depressão”, afirmam artigos sobre o tema.

balloon-womanNUNCA MAIS VOU VIVER UM DIA SEQUER SEM MÚSICA CLÁSSICA

Havia acordado ansiosa hoje de manhã. Apesar de um dia sem qualquer compromisso, me sentia atrasada, devendo algo para mim, algo para não sei mais quem. Queria aproveitar o sol, queria tomar café da manhã com calma, queria passear sem pressa com os cachorros, queria ler, queria escrever, queria fazer uma caminhada e queria que o tempo não passasse – e todo esse quero-quero foi me gerando angústia. Foi quando sentei aqui na sala do apartamento de Punta, depois do meu café e da volta na quadra com os cachorros e meu marido teve a feliz ideia de colocar sua seleção de música clássica para tocar. O dia ganhou outras cores, outros ares. De repente, fiquei feliz.

levitarPRATICAMENTE VOANDO DE TÃO LEVE E FELIZ

Lendo um pouco mais a respeito desse resultado fascinante na mente da gente, aprendi que a harmonia nas notas e a melodia suave tocada pode melhorar nosso poder de concentração e podemos recorrer a esta forma de música quando estamos sofrendo de exaustão, ansiedade e inquietação. “A música clássica também incentiva os instintos criativos, que é um resultado direto dos efeitos que tem no seu cérebro”, diz uma das reportagens sobre o assunto.

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Sempre ouvi falar a respeito de gestantes que colocam música clássica para os bebês ouvirem ainda na barriga. Tem toda uma explicação para isso. Os efeitos da música clássica em bebês estão diretamente relacionado com o  desenvolvimento de habilidades e talentos. Crianças criadas em um ambiente de diferentes formas de música clássica têm maior QI espacial, além de melhoria considerável no funcionamento dos neurônios.

Escutar música clássica com frequência ativa os genes associados à função cerebral e ajuda a prevenir as doenças neurodegenerativas, segundo um estudo divulgado por cientistas da Universidade de Helsinque, na Finlândia. De acordo com reportagem publicada no portal G1, até então os especialistas sabiam que escutar música representa uma complexa função cognitiva do cérebro que provoca diversas mudanças neurais e fisiológicas, mas pouco havia sido estudado sobre os efeitos em nível molecular.

MozartMOZART SEMPRE SOUBE DAS COISAS

Os investigadores queriam estabelecer as alterações genéticas ocasionadas pela música clássica. Para isso, foi examinado o sangue de um grupo de 48 pessoas antes e depois de escutarem o Concerto para Violino número 3, de Mozart. Dirigido pelo professor Chakravarthi Kanduri, ele concluiu que escutar música clássica com frequência aumenta a atividade dos genes envolvidos na secreção de dopamina, na neurotransmissão sináptica, na aprendizagem e na memória.

Além disso, a música contribui para tornar menos ativos os genes envolvidos na degeneração do cérebro e do sistema imunológico, o que reduz o risco de contrair doenças neurodegenerativas como o Mal de Parkinson ou a demência senil, segundo os cientistas.

bento1114NO CASO DELA, DESCOBERTA MEIO TARDIA

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Mari Kalil

Mari Kalil

Sou escritora, jornalista, colunista da Band TV e Band News FM e autora dos livros "Peregrina de araque", "Vida peregrina" e "Tudo tem uma primeira vez". Sou gaúcha, nasci em Porto Alegre, vivo em Porto Alegre, mas com os olhos voltados para o mundo. Já morei em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Barcelona. Já fui repórter, editora, colunista. Trabalhei nos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil; nas revistas Época e IstoÉ e fui correspondente da BBC na Espanha, onde cursei pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona. O blog Mari Kalil Por Aí é direcionado a todas as mulheres que, como eu, querem descomplicar a vida e ficar por dentro de tudo aquilo que possa trazer bem-estar, felicidade e paz interior. É para se divertir, para entender de moda, de beleza, para conhecer lugares, deliciar-se com boa gastronomia, mas, acima de tudo, para valorizar as pequenas grandes coisas que estão disponíveis ao redor: as coisas simples e boas.

6 Comentários
  1. Mariana: dentro desa ideia, recomendo a releitura que o alemão Max Richter fez das 4 Estações de Vivaldi. Algo indescretível e que toca fundo em nossa alma

  2. Lindo texto. Uma aula de música clássica. Eu não vivo sem música e só casualmente escuto clássicas. ..vou tentar seguir a dica.
    Abraços Mari e boas férias! !

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  • Penteados e escovados para a primeira de muitas noites de autógrafos de Vida Peregrina, que me levaria à lista dos livros mais vendidos do país e confirmaria Bentolino como um dos personagens mais importantes da minha existência como escritora. Seis anos hoje. Saudade, Xerife. ❤️🐶📘 #tbt #2013 #vidaperegrina #livromarikalil
  • Éramos uma família de bageenses morando no Rio e nossa família multiplicava-se com mais bageenses que chegavam no Carnaval. Tudo começava ao cair do sol com um primeiro chope para brindar a união e terminava com corpos ao mar pra curar o ressacão. Lembrança do nosso primeiro bailinho em que eu me retorci para entrar em uma fantasia de odalisca tamanho 14 comprada em uma loja infantil de Ipanema. É que ainda estava borracha da noite anterior. Borrachos entendem. 🍺
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  • Quem nunca aplicou uma dessas?! 👆🏻
  • Me diga se pode existir desgraceira maior do que chegar ao vestiário de natação molhada em cima de um par de chinelos molhados, com o cabelo todo desgrenhado, com o rosto todo marcado dos óculos e ainda ter que pegar a sacola, botar a sacola em cima de um banco, abrir a sacola, retirar os saquinhos plásticos para guardar o maiô encharcado junto com a touca e o óculos, pegar a nécessaire, sair equilibrando toalha, xampu, sabonete e condicionador até o box, sempre pisando naquele chinelo nojento molhado, tomar banho na companhia de fios de cabelos de terceiros, recolher sabonete, condicionador e xampu, secar um por um com a toalha, se enrolar na tolha, voltar pingando até o armário em cima daquele chinelo nojento molhado, abrir o armário, abrir a sacola, guardar o xampu, o condicionador e o sabonete dentro da nécessaire, retirar o pente, desembaraçar o cabelo cuidando para não deixar fios caírem no chão, passar hidratante na volta dos olhos, sérum facial, creme com proteção solar, hidratante corporal, vestir a roupa toda amassada dentro da sacola, sentar no banco com o pé ainda molhado em cima daquele chinelo nojento com fio de cabelo de terceiros grudados na sola, secar dedinho por dedinho, colocar o sapato, secar o chinelo, ensacar o chinelo e terminar a maratona botando os bofes para fora do calorão que sai daquela quantidade de chuveiros quentes e secadores ligados. 
Me diga: pode existir desgraceira maior?!
  • Tenha coragem para as grandes adversidades da vida e paciência para as pequenas, e quando tiver cumprido laboriosamente sua tarefa diária vá dormir em paz. Deus está acordado. (Victor Hugo).