Fernanda Bizzotto: a força, a fé e a sensibilidade da viúva do craque Fernandão

Jantava em casa quando meu celular avisou o recebimento de uma nova mensagem. Era Fernanda Bizzotto Costa – para muitos e para sempre mais conhecida como a viúva do craque colorado Fernandão. Reproduzo abaixo o texto que ela enviou via Direct pelo Instagram:

fenanda

Conheci Fernanda em novembro de 2014, quando ela aceitou pela primeira vez conceder uma entrevista a um veículo de comunicação sobre a morte do craque em um acidente de helicóptero. Tivemos uma simpatia imediata e recíproca. Naquela noite, depois que respondi a ela, fui reler nossa entrevista e tive vontade de compartilhar no blog aquela data inesquecível em que contabilizei não apenas um furo de reportagem para o meu currículo, mas ganhei também uma querida amiga.

fernandaFERNANDA E FERNANDÃO: casamento feliz interrompido pela tragédia

O goiano Fernando Lúcio da Costa, o Fernandão, foi um profissional diferenciado nos gramados do futebol gaúcho, território em que a rivalidade das torcidas não raro vê-se conduzida por hostilidades e extremismos incapazes de reconhecer qualquer superioridade do adversário. Fernandão conheceu a idolatria de colorados e a admiração de gremistas. Não se estranha, portanto, que a notícia da morte súbita de um dos maiores ídolos de todos os tempos do Internacional tenha unido as nações vermelha e tricolor em uma comoção generalizada.

Cinco meses se passaram desde o acidente de helicóptero, em Goiás, que tirou as vidas do craque de 36 anos, de três amigos e do piloto. Se até hoje o precoce e trágico desaparecimento de Fernandão ainda provoca um certo ceticismo em pessoas que mal o conheciam fora dos gramados, o que deixar para a viúva, Fernanda Bizzotto Costa, 38, e os gêmeos Enzo e Eloá, 12? “Eu ainda vivo uma fase de aparente incredulidade. Parece que a cabeça não processa, sabe?”, explica Fernanda, a voz embargada, quase inaudível.

Estamos sentadas em um café nos arredores da Praça da Encol, no bairro Bela Vista, em Porto Alegre. Desde a morte do atleta, pouco foi noticiado a respeito do destino de sua família – muito em razão do temperamento reservado de Fernanda. Discreta, ela não é dada a aparições e declarações públicas. Conversamos pela primeira vez em meados de agosto, por telefone, sobre o convite para esta reportagem. A partir dali, seguiram-se dois meses de trocas de mensagens pelo celular até a manhã de 23 de outubro, uma quinta-feira, quando o garçom depositou os dois expressos duplos em cima da mesa da cafeteria – e Fernanda pediu a gentileza de uma água sem gás para acompanhar. “Algumas pessoas acham que ainda não caí na realidade, mas caí, sim”, ela comenta, adoçando o café. “Entendi tudo o que aconteceu desde o primeiro dia. Só que tem vezes em que me pego longe, olhando tudo como se fosse uma terceira pessoa.”

O olhar de Fernanda é realmente distante. No dedo anular da mão direita, repousa a aliança de casamento do marido; o punho esquerdo é protegido pelas muitas voltas de um terço prata de contas pretas.

Fernanda e os filhos estão definitivamente radicados em Porto Alegre. A decisão da mudança de Goiânia para cá semanas após a morte do marido foi tomada em comum acordo com os gêmeos e fortemente estimulada por Enzo, que deseja ser jogador de futebol a exemplo do pai e já integra as escolinhas de base do Inter.

“Casar com um jogador de futebol é ser capaz de estar constantemente trocando de lugar e recomeçando”, ela observa. “De alguma forma, a vida sempre me ensinou a recomeçar.”

Trata-se do recomeço mais difícil dos últimos 13 anos, desde que Fernanda Bizzotto adicionou Costa ao sobrenome. Natural de Goiânia, estudante de Educação Física, era professora de uma academia de ginástica da cidade e vivenciava mais um dia rotineiro de trabalho quando assistiu à entrada da equipe do Goiás para uma aula de step. Cenas daquele grupo de homens pulando em pequenas camas elásticas foram registradas por uma emissora de tevê local.

No final, o repórter aproximou-se de Fernandão, o craque do time, e quis saber dele do que mais havia gostado naquela aula. “Da professora”, ele respondeu. “Lembro que odiei aquilo”, conta Fernanda. “O repórter e o cinegrafista vieram atrás de mim, eu entrei correndo no carro e fui embora.”

Na noite do dia seguinte, reencontraram-se em uma boate de Goiânia. “Tudo bem, professora?”, perguntou Fernandão, arriscando uma aproximação. Conversaram, trocaram telefones e começaram a se falar com frequência – ora por meio de ligações, ora por mensagens de texto. Dois meses se passaram nesse chove não molha até engatarem um namoro de dois anos que resultou em casamento e na mudança do casal para a França.

“Poucos dias depois de a gente se conhecer, Fernando já dizia: ‘Eu sei que vou casar com você.’”

Na Europa, Fernanda passou a viver exclusivamente para o marido, primeiro em Marselha, onde Fernandão atuou por quase três anos defendendo as cores do Olympique, depois em Toulouse, com o uniforme que dava o mesmo nome da cidade ao time. Na França, deu à luz os gêmeos e teve sempre por perto a companhia amiga e vigilante de Neide, a ex-funcionária de sua mãe, que se mudou junto com o casal, batizou os recém-nascidos e de quem não se separou mais.

Neide mora com Fernanda, os filhos e Petra, a cadela da raça Bernese que Fernandão amava, em um apartamento no bairro Três Figueiras, próximo à avenida Nilo Peçanha. A família ficou mais completa no início deste mês com a chegada de Alzira, mãe de Fernanda, que veio definitivamente de mudança para Porto Alegre. “Deus levou embora todos os homens que cuidavam de mim, que eram minha referência”, ela comenta, depositando o copo de água sobre a mesa.

Pergunto que outros homens foram esses, além da referência óbvia. “Meu pai faleceu poucas semanas antes de o Fernando morrer, estava bastante doente. Meu irmão foi assassinado aos 14 anos.”

Pergunto se ela tem buscado ajuda médica para auxiliá-la neste momento difícil; ela responde que sim, que andou frequentando consultas com uma psiquiatra e fazendo uso de medicamentos antidepressivos. “Mas sentia muito sono e só queria saber de dormir. Isso estava me colocando ainda mais para baixo. Achei melhor interromper o tratamento.”

A rotina em Porto Alegre é dedicada exclusivamente aos gêmeos, matriculados no colégio Província de São Pedro. Há uma espera pelo resultado do inventário do atleta, que também é pai de Thayná, 15 anos, do primeiro casamento, para que a Justiça defina a divisão dos bens – e para que Fernanda possa, então, planejar com mais clareza o futuro. É ao falar de futuro que ela lembra os sonhos interrompidos do marido: “Fernando queria levar os filhos para estudar nos Estados Unidos. Compramos uma casa em Boca Ratón, na Flórida, fizemos a pré-matrícula dos meninos na escola. Tínhamos decidido nos mudar. Poucos dia antes, ele recebeu o telefonema de um amigo para entrar de sócio em uma empresa de Goiás e decidimos ficar. Fernando estava extremamente entusiasmado com o trabalho de comentarista de futebol, enxergava a oportunidade como um desafio enorme e não parava de rir e brincar quando chegava em casa contando que tinham passado base no rosto dele para não brilhar na frente das câmeras”.

Foi justamente este temperamento divertido, brincalhão e singelo de um Fernandão que pouca gente teve o privilégio de conviver que motivou Fernanda a abrir o coração.

“O jogador, o craque, o campeão do mundo todos conheceram, quero poder contribuir para que saibam quem foi o homem por trás do ídolo e lembrem dele, acima de tudo, pelo valor extraordinário que tinha como ser humano”.

Aceitação da perda
“O que ajuda a superar a perda é ter a convicção de que fiz tudo o que estava ao meu alcance pelo Fer. Vivi intensamente para ele. Estou em paz. Se é para continuar vivendo, prefiro escolher o bem-sofrer e acreditar que fui escolhida por Deus para estar ao lado da pessoa que foi o Fernando. Deus me deu este presente, e sou plena por ter sido eleita. Se este é o preço a pagar pelo privilégio que eu tive, então eu aceito.”

Futuro dos filhos
“Meus filhos são a razão do meu viver, crianças maravilhosas, de ótimo caráter e coração. Cabe a mim ajudá-los a perseguir seus sonhos e a construir suas vidas, como Fer e eu sempre sonhamos para os dois.

“Estou certa de que Porto Alegre foi a melhor escolha que fiz para oferecer a eles essa esperança de futuro – e para que também, acima de tudo, eles tenham a figura do pai sempre presente, ouçam o que falam do Fernando e jamais esqueçam que grande homem ele foi.”

Um passo por vez
“Comecei a frequentar a academia e não dei conta. Minha professora telefona sempre para cobrar minha presença. É muito querida e muito preocupada comigo. Só que ainda não encontrei forças. Dia desses, passei na frente de um lugar que oferece aulas de CrossFit (programa de treinamento de força e condicionamento físico baseado em movimentos funcionais, variados, feitos em alta intensidade). Pensei na hora: ‘Vou fazer esse negócio. Quem sabe eu me acabo e é isso o que me salva! (risos)’. Talvez precise buscar algum tipo de exercício em equipe, algo motivacional.”

Chorar faz bem
“Choro quando meus filhos já estão dormindo. Eles não gostam de me ver chorar. É o momento em que me permito ficar sozinha com o celular do Fernando. Também escrevo e posto textos sobre ele no Instagram. No Dia dos Pais, deixei uma mensagem. É um hábito que tem funcionado como uma espécie de catarse, porque então eu choro e coloco tudo para fora.”

“Entro no Instagram dele, olho as fotos, assisto aos vídeos, leio o que ele escrevia, as mensagens que me mandava… O celular tornou-se meu companheiro inseparável”

Futuro nebuloso
“Não consigo enxergar um futuro a médio prazo para a minha vida. Eu sei que preciso recomeçar de alguma forma, mas estou exclusivamente focada nos meus filhos neste momento. Eles precisam muito de mim, e meu único propósito é não deixá-los sem amparo. Meus filhos estão naquela fase do medo de me perder, medo de ficarem órfãos. Se eu saio sozinha, eles ligam a todo instante para saber onde estou. É uma fase de muitas situações difíceis e que ainda não me permitem vislumbrar nada além daquilo que estou realizando aqui e agora.”

Decisão pelo Sul
“Lembro que cheguei em casa depois do sepultamento do Fernando e ainda assisti a um pedaço da missa que realizaram para ele aqui em Porto Alegre. Fiquei muito impressionada com a quantidade de pessoas presentes, com aquela energia que transmitiam por meio da oração. Foi algo que me proporcionou uma força imensa e indescritível.

“Eu acredito que esta força vem dessas pessoas, dos fãs, de todos que queriam bem o Fernando. Essa energia passa para a gente. Como não querer viver perto de um povo que tem o Fernando na mais alta conta de amor e carinho”

Para nossa mudança, ainda contou o fato de meu filho insistir em querer jogar no Internacional. Enzo sempre quis ser jogador de futebol, mas o Fernando não deixava, achava ele muito novo. Dizia que ele tinha que brincar primeiro. Seis meses antes de acontecer o acidente, permitiu que o filho começasse a jogar. Enzo entrou no Goiás e, naquele dia, o Fernando postou uma mensagem no Instagram que falava dos valores que é preciso ter para ser um bom profissional.”

recadoPOSTAGEM DO CRAQUE NO INSTAGRAM: Valores eternizados no bilhete para o filho

Para sempre em solo gaúcho
“As pessoas me perguntam: ‘Fernanda, por que você não enterrou o Fernando em Porto Alegre?’. Vivi horas de desespero. Era impossível raciocinar ou tomar qualquer decisão que hoje possa parecer a mais lógica. Eu já havia esperado tempo demais pelo transporte do corpo dele, Fernando estava muito machucado, era tudo muito duro. Mas hoje posso dizer que já tomei a decisão: assim que puder, o mais rapidamente possível, resolvi que trarei os restos mortais do Fernando para Porto Alegre.”

A herança do Capitão
“Separei algumas coisas dele que ficarão comigo, mas ainda não consegui mexer em tudo. A sala da minha casa está tomada de caixas, mas não me sinto pronta para abrir todas elas. Pensei em fazer uma espécie de leilão para que a renda arrecadada seja doada a alguma instituição de caridade. Não sei se vou conseguir vender tudo, também não sei o quanto as pessoas têm interesse em adquirir alguma coisa do Fernando. São uniformes, chuteiras, sapatos… Penso em um leilão com valores baixos e bastante acessíveis a todas as pessoas.”

O grito “Fernandão morreu”
“Tenho pena das pessoas que cantaram aquilo. (Durante um Gre-Nal, um grupo de torcedores gremistas ironizou a morte de Fernandão.) O que pode existir dentro de seres humanos assim? Meus filhos estavam no estádio, em um camarote, logo abaixo desses torcedores. Por sorte não escutaram – e eu tampouco fiquei sabendo de nada naquela tarde. No dia seguinte, estávamos na sala e liguei a tevê justamente na hora em que repercutiam o episódio. Foi quando o Enzo comentou: ‘Mamãe, foi por isso que minha professora, que é gremista, veio dizer que aquilo que tinham falado do meu pai não representava o sentimento da maioria da torcida do Grêmio’. Se eu sinto raiva dessa gente? Sinto dó.”

A falta do líder em casa
“Está sendo muito difícil a vida sem o Fernando. Ele sempre foi o líder da família, uma pessoa muito forte, que tomava as melhores decisões por nós.

“Sempre que ele compartilhava comigo alguma mudança de rumo por conta do trabalho, eu seguia sem olhar para trás. Se ele falasse: ‘Fernanda, me dá a mão, vamos pular naquele abismo?’, eu dava a mão e me jogava junto, sem jamais ter a menor dúvida de que aquilo era o melhor a fazer por todos nós.”

Vazio imenso
“Quando você resolve casar com um cara que joga bola e que tem a personalidade do Fernando, você abdica de tudo e vive exclusivamente para aquela pessoa. Foi o que aconteceu comigo. Minha vida sempre consistiu em cuidar das crianças e do meu marido.

“Quando você perde essa pessoa, quando os dias e noites passam e você percebe que ela se foi para sempre, é tomada por um vazio sem tamanho que se abre e te engole.”

Saudade do pai
“O Enzo andou mais triste dia desses. É que sonhou com o pai. No sonho, Fernando aparecia e dava um abraço apertado nele. Dizia que veio porque estava com muita saudade e que amava muito ele. Depois deste dia, pela primeira vez o Enzo pediu para ver fotos do pai. Ele tem me dito, antes de dormir: ‘Mamãe, eu estou com muita saudade do papai’. Tento acolher dizendo para ele que fique calmo, que vai passar. Não a saudade, esta não passa jamais. Mas esse sofrimento terrível que essa saudade provoca. A dor e o sofrimento, eu garanto ao meu filho, vão melhorar.”

Ironia do destino
“Enzo costuma extravasar os sentimentos; Eloá, não. Ela não chora. Pode estar um poço de nervosismo e tristeza, mas não derrama uma lágrima. Digo a ela: ‘Filha, põe pra fora, chora. Você precisa. É bom’. Ela responde: ‘Não. Meu sofrimento é meu e meu choro é meu”.

“As crianças sempre pediam para matar aula para ficar junto do pai quando ele não tinha treino. Nos últimos tempos, depois que Fernando parou de mexer com bola, estava muito mais presente em casa. Parece que o destino avisa, né?”

Busca de religiosidade
“Quando a gente perde uma pessoa amada de forma trágica, procura se apegar a tudo. Eu estou de um jeito que me agarro no que vier. Encontrei consolo e conforto no espiritismo. Um mês antes do acidente, tive uma depressão profunda. Uma pessoa de Goiânia me disse: ‘Fernanda, você percebe que sabia que isso ia acontecer?’. Sabe que acho mesmo que já sabia?

“Sempre tive a sensação de que tudo era perfeito demais. Minha vida era perfeita, minha família era perfeita. Isso me dava a sensação de que tanta felicidade não poderia durar para sempre.”

Alento no espiritismo
“Uma das pessoas que estavam no acampamento e viu o helicóptero cair é espírita. Foi ele um dos dois amigos que ficaram com o Fernando no colo, respirando, ainda por uns 40 minutos. Ele me convidou para ir a um centro espírita, em Goiânia.

“A partir daquela visita ao centro espírita, me senti mais forte. Senti a presença do Fernando e disse em voz alta: ‘Fer, pode ir. Vai embora, não olha para trás. Você fez o que tinha que fazer, você deixou tudo pronto. Agora é a minha vez. Fica tranquilo, eu vou me virar e vou conseguir por nós dois. Pode ir em paz.”

Dor da despedida
“Eu costumava chamar bastante o Fernando. Depois que frequentei o centro espírita, tenho procurado fazer isso o mínimo possível. Dentro do espiritismo, este é um momento em que ele está fragilizado, apesar de nunca ter sido fraco. Fernando era um cara muito, muito família – e me amava demais. Então, eu me coloco no lugar dele.

“Se fosse eu que tivesse ido embora e deixado as crianças, não sei se aguentaria uma energia me chamando e me querendo aqui. Eu sei que ele está bem, em um lugar maravilhoso, mas também acredito que deve estar sofrendo muito por estar longe de nós. Então, evito ficar chamando por ele. Se eu estou sofrendo, pelo menos tenho as crianças perto de mim. E ele?”

Força sobrenatural
“As pessoas se impressionam com a minha força, mas qual é a outra opção que eu tenho? Ninguém me deu outra escolha, Deus não perguntou o que eu preferia. O que me resta fazer? Me matar? Morrer chorando? Claro que não é fácil, sobretudo porque o Fernando preenchia demais os espaços. Era divertido, brincalhão. Ele acordava cantando, tomava banho cantando. Fazia isso todos os dias, você acredita?! Era extremamente feliz. Perder a companhia dessa felicidade é absurdamente doloroso. A questão é que não há volta atrás.”

A notícia do acidente
“Acordei com o telefonema do Giovane, o caseiro. Ele estava com o Fernando dentro da canoa. Giovane disse: ‘Fernanda, eu vou falar logo: o helicóptero caiu. Está todo mundo morto, menos o Fernando. Ele está respirando, mas é muito pouco’. Senti como se estivesse levando choques no corpo tudo. Enzo e Eloá dormiam na cama comigo e acordaram. Na medida do possível, eu tentava entender melhor o que estava acontecendo e que tipo de esperança ainda podíamos ter. Giovane disse: ‘Fernanda, não te ilude. Ele está respirando muito pouco, mas é o único que está vivo e estamos levando ele para o hospital’. Fernando sempre passou para mim uma imagem de Super-Homem, sabe? Era tão inteligente, via as coisas tão na frente das outras pessoas que na hora eu pensei: ‘Ele percebeu que o helicóptero ia cair e deu um jeito de se salvar’.”

Papai foi embora
“Enzo e Eloá acordaram com a minha conversa ao telefone. Perguntaram o que tinha acontecido. Falei: ‘Meninos, o helicóptero caiu, papai estava dentro, ele foi para o hospital, mas está muito mal. Rezem por ele’. Como você dá essa notícia para os seus filhos?

“Telefonei para uma psicóloga que conhecia, e ela me aconselhou a ir dando a notícia devagar aos nossos filhos. Vinte minutos depois, quando Bia, a caseira, telefonou dizendo que Fernando não havia se salvado, em estado de choque eu continuei dizendo a eles que o pai estava piorando, para que rezassem. Então, minha casa começou a encher de gente – e não teve mais como postergar a notícia. Chamei os dois e disse: ‘Meninos, não teve jeito. Papai foi embora’.”

O final de semana do fim
“No fim de semana do acidente, o Enzo tinha uma final de campeonato do condomínio, no sábado. Meu filho não queria deixar de participar da partida porque o vencedor ganharia um celular como prêmio. Chegou para mim e disse: ‘Mãe, o Gustavo é o único menino desse condomínio que não tem telefone. Eu sou artilheiro do time, nós vamos ganhar o jogo e eu vou dar o celular para ele. Fala para o meu pai que eu não quero ir para Aruanã’. Quando o Fernando me mandou uma mensagem perguntando se iríamos encontrá-lo (o jogador havia viajado na quarta-feira daquela semana para a casa da família em Aruanã, distante cerca de 300km de Goiânia), contei que o Enzo não queria faltar ao jogo. Fernando respondeu: ‘Então, talvez eu vá embora na sexta-feira’. Só que chegou um amigo dele em Aruanã, e eu insisti para que ficasse, se divertisse, fosse pescar e voltasse no domingo. Ele ficou.”

Últimas imagens
“O celular foi encontrado intacto dentro do bolso do Fernando. Estou sempre com ele. No aparelho, estão gravadas as últimas filmagens que ele fez em vida naquele fim de semana. Filmou toda a praia, mostrou o acampamento onde dormia. O filme é escuro e ouve-se apenas o barulho dos grilos. Ele não fala nada. Fica ali, apenas registrando a noite. No outro dia de manhã cedo, ele filma o amanhecer, a barraca onde passou a noite, a ilha inteira e chega até próximo da mata onde o helicóptero caiu. Fernando queria apresentar para os amigos de Porto Alegre o lugar que tanto amava. Sempre dizia: ‘Ninguém em Porto Alegre entende o que é Aruanã. Preciso mostrar’.

O paraíso Aruanã
“Se ele fosse escolher um lugar para morrer, escolheria Aruanã. Um fim de semana antes do acidente, estávamos na varanda da nossa casa, era aniversário do Giovane, o caseiro. Fernando comprou um bolo de surpresa, todos nós cantamos parabéns, e Giovane e Bia, a esposa, começaram a chorar, emocionados. No fim de semana seguinte, o do acidente, sentado no mesmo lugar, de novo ao lado do caseiro, Fernando disse a ele: ‘Giovane, dê muito valor para tudo isso aqui. Não esqueça jamais que este lugar é mágico. Aqui você pode ser autêntico, andar do jeito que você quiser, ser quem você é’. Virou-se para a Bia e falou: ‘Bia, olha essa natureza, que linda. Não existe ar puro igual a este, aqui vocês pescam, tomam banho de rio, vivem felizes da forma mais simples. Jamais esqueçam que a família é a coisa mais importante da vida da gente’. Quando o amigo dele chegou (estava com Fernandão no helicóptero), os dois saíram cantando, juntos e abraçados, aquele trecho da música Liga lá em Casa que diz: Liga lá em casa/ Fala que hoje eu não vou voltar”. Cada vez que eu falo com a Bia, ela relembra essa cena e chora demais.”

Um garoto grande
“Tenho vontade de vender nossa casa de Aruanã. Nunca mais voltei e acredito que não tenha coragem de voltar. A lembrança do Fernando em Aruanã é muito viva e muito intensa. Lá, ele vivia do jeito que mais gostava. Andava descalço no meio da rua, chamava os meninos humildes da região para jogar bola no quintal de casa, brincava no pula-pula, estourava bombinha. Era a mais criança de todas as crianças de Aruanã.”

Estátua em homenagem
“Eu gosto de Porto Alegre e do estilo de vida das pessoas. Sou imensamente grata a todos por tudo o que fizeram pelo Fernando, por tudo o que ele viveu aqui. Nunca imaginei que poderiam construir uma estátua para ele!

“A estátua em homenagem ao Fernando representa a vitória, o Inter, a torcida, sem dúvida. Mas sabe o que é mais bonito? Ela também representa a pessoa íntegra que o Fernando foi. É lindo perceber que ele conquistou as pessoas não só pelo clube, mas pela essência, pelos valores. Sempre escuto isso de gremistas e colorados.”

Primeiro estranhamento
“A estátua está ficando muito bonita. Fui algumas vezes acompanhar o trabalho. No primeiro dia, eu estranhei. Achei o cabelo muito para trás, a testa muito grande, o nariz estava diferente…. Alguma coisa não encaixava. Então, separamos o trabalho por regiões do rosto e fomos acertando os detalhes. Eu olho e percebo que o nariz é igual, os dentes, o cabelo, o queixo, tudo está perfeito. Mas ainda assim é muito estranho olhar para a estátua e reconhecer nela o Fernando. Difícil, sabe? Muito difícil”.

O legado da imagem
“Gostaria que as pessoas não reconhecessem, por meio da estátua, apenas o jogador campeão do mundo, mas que elas enxergassem também a pessoa maravilhosa que o Fernando foi. Ele foi esse campeão, sem dúvida. Mas também foi um homem trabalhador, que dava valor para as pessoas, que era solícito, legal com todo mundo.

“O maior legado do Fernando, e que eu gostaria que fosse eternizado com esta homenagem, é ter conseguido deixar registrado no coração das pessoas que o ser humano vale pelo que ele é e não pelo que tem. Essa é a grande herança que fica.”

Otimista nato
“Fernando era uma pessoa solícita, amiga, ria para todo mundo e tratava a todos igualmente, do mais humilde ao mais rico. Eu olhava para ele e pensava: ‘Gente, como é que pode uma pessoa ser tão positiva?’. Claro que tinha seus momentos enjoados. Quando perdia um jogo, por exemplo, era um horror. Chegava em casa com um mau humor insuportável.”

Pensamento positivo
“Ele tinha uma fé muito grande. Quando terminou de ler o livro O Segredo, veio correndo me mostrar, dizendo: “Aqui está escrito o que eu sempre digo e acredito sobre o poder do pensamento positivo’. Quando viajou para disputar o Mundial, me ligava diariamente e assegurava: ‘Tenho certeza de que vamos ser campeões’. Eu ainda ponderava, mas ele era enfático: ‘Fernanda, eu afirmo porque tenho certeza: nós vamos ser campeões do mundo’. Os jogadores mesmo admitiram que essa onda de otimismo emanada pelo Fernando tomou conta do vestiário e de todo o time de tal forma que o resultado não poderia ter sido outro.”

Firmeza no vestiário
“Ninguém agrada a todo mundo, e Fernando era muito firme em suas crenças. Não costumava mudar de opinião – e algumas pessoas, no meio profissional, não gostavam dessa forte característica dele. Ele falava o que pensava, sem rodeios ou diplomacia. Quando foi treinador do Inter, teve problemas por conta disso. Mas este era o Fernando, não tinha como mudar. Também era um otimista nato. Sempre tinha certeza de que tudo daria certo”.

Competidor em tudo
“Fernando era intenso. Até quando disputava uma partida de pingue-pongue, ele gritava, vibrava, ganhava e saía correndo pela casa. Ninguém entendia nada… Afinal, era só uma partida de pingue-pongue! (risos). Teve uma ocasião em que estávamos jogando baralho – eu e ele contra o Clemer (ex-goleiro do Internacional) e a esposa. Nós brigamos, você acredita? Fernando dizia: ‘Fernanda, concentração! Presta atenção no jogo! Concentra!”. Eu não me aguentava e ria daquilo. ‘Do que você está rindo?’, ele perguntava. Eu estava achando graça da situação. ‘Não é pra achar graça, Fernanda. Concentra!’, ele insistia. Nós dormimos brigados aquela noite.”

Marido perfeito (e ciumento)
“Fernando era extremamente ciumento. Eu brincava com ele: ‘Vem cá, quem tem razões para ser ciumenta aqui sou eu!’ – e ele respondia: ‘O problema é seu se você não é!’ (risos). Ele nunca me deu motivos para ter ciúme. Era um marido maravilhoso. Acho que este meio do futebol acaba gerando insegurança nos jogadores. ‘Eu que sei como esse pessoal é…’, ele dizia para mim.”

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Mari Kalil

Mari Kalil

Jornalista e escritora, Mariana Kalil é diretora de conteúdo do site MK e colunista do programa Band Mulher e da rádio Band News FM. É também autora dos livros "Peregrina de Araque (2011), "Vida Peregrina (2013) e "Tudo tem uma Primeira Vez" (2015), todos publicados pela editora Dublinense. Trabalhou das redações das revistas Época e IstoÉ Gente, dos jornais Zero Hora, O Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil e foi correspondente da BBC na Espanha, onde cursou pós-graduação em roteiro, edição e direção de cinema na Escuela Superior de Imagen y Diseño de Barcelona.

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